domingo, agosto 2, 2026

Pará concede mais de 10 mil hectares na APA Triunfo do Xingu para recuperação ambiental

Pará concede mais de 10 mil hectares na APA Triunfo

Na última sexta-feira, 28 de março de 2025, o governo do Pará oficializou a concessão de uma área superior a 10 mil hectares, uma extensão equivalente a 10 mil campos de futebol. É a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, no município de Altamira, localizado no sudoeste do estado. Trata-se de um bioma inteiramente amazônico, característico das florestas úmidas da região Tapajós-Xingu.

Segundo informações da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), a área concedida foi classificada como uma Unidade de Recuperação. Essa nova categoria de proteção, estabelecida pela Lei Estadual 10.259, de 11 de dezembro de 2023, é voltada especificamente para terras públicas estaduais que sofreram desmatamento ilegal e necessitam de ações de restauração da vegetação nativa.

A recuperação da área ocorrerá por meio de um contrato de concessão florestal, um mecanismo pelo qual o Estado transfere temporariamente a gestão do território para um investidor privado. Nesse caso, a concessão poderá se estender por um período de até 40 anos, permitindo a implementação do projeto de restauração ecológica, conforme informado pela Semas.

A empresa vencedora da licitação, Systemica, associada ao banco BTG Pactual, será responsável pela recuperação ambiental do território. O projeto tem a meta de capturar cerca de 3,7 milhões de toneladas de carbono, o que equivale à retirada de circulação de aproximadamente 800 mil veículos movidos a combustíveis fósseis por um ano ou à compensação das emissões anuais de uma cidade com cerca de 500 mil habitantes. Além dos impactos ambientais positivos, a iniciativa também contribuirá para a economia local, gerando aproximadamente dois mil empregos diretos e indiretos.

O projeto, pioneiro no estado, contará com um investimento privado estimado em R$ 258 milhões e prevê um retorno financeiro significativo à empresa concessionária, com uma receita total estimada em R$ 869 milhões. A remuneração da empresa será obtida por meio da comercialização de créditos de carbono gerados pelo reflorestamento. Conforme informações da Semas, essa iniciativa representa um passo fundamental para a recuperação de áreas degradadas e para a geração de benefícios ambientais e econômicos para o estado do Pará.

Entendendo os Créditos de Carbono

Os créditos de carbono são um dos principais instrumentos utilizados para mitigar as mudanças climáticas e promover a transição para uma economia de baixo carbono. Eles fazem parte de um mercado global criado para incentivar governos, empresas e indivíduos a reduzirem suas emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Cada crédito equivale a uma tonelada de dióxido de carbono (CO₂) que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera. Esses créditos são gerados por projetos ambientais que evitam ou capturam emissões de carbono, como reflorestamento, conservação florestal (REDD+), energias renováveis, eficiência energética e tecnologias de captura e armazenamento de carbono.

Como é calculada a captação de carbono pelas florestas?

O cálculo dos créditos de carbono gerados por projetos de reflorestamento baseia-se na capacidade das árvores de absorver e armazenar dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera ao longo do tempo. Esse processo ocorre por meio da fotossíntese, na qual as árvores utilizam a luz solar para converter CO₂ em biomassa vegetal, armazenando o carbono em seus troncos, folhas e raízes.

A taxa de absorção de carbono varia conforme fatores ecológicos e climáticos. O tipo de espécie plantada é um dos principais determinantes dessa capacidade. Árvores de crescimento rápido, como Mogno-Africano (Khaya ivorensis) e Paricá (Schizolobiumamazonicum), capturam grandes quantidades de CO₂ em menos tempo. Já espécies nativas de crescimento mais lento, como a Castanheira-do-Pará (Bertholletia excelsa), oferecem maior estabilidade ao estoque de carbono ao longo das décadas.

Estudos indicam que florestas tropicais maduras podem armazenar entre 150 e 250 toneladas de carbono por hectare, dependendo da densidade da vegetação e do tipo de solo. Em projetos de reflorestamento, essa taxa é menor nos primeiros anos, mas aumenta conforme a biomassa florestal se desenvolve. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), florestas tropicais secundárias podem sequestrar de 3 a 8 toneladas de CO₂ por hectare ao ano, dependendo das condições ambientais.

Exemplo de cálculo de captura de carbono

Para ilustrar o potencial de remoção de CO₂estimado para o projeto da APA Triunfo do Xingu, podemos considerar uma taxa média de 6 toneladas de CO₂ por hectare ao ano, conforme estimativas do IPCC. Multiplicando essa taxa pela área total concedida de aproximadamente 10,3 mil hectares, temos:

6 toneladas de CO₂/hectare/ano × 10.300 hectares = 61.800 toneladas de CO₂ por ano

Considerando um período de concessão de 40 anos, o total de carbono sequestrado seria:

61.800 toneladas de CO₂/ano × 40 anos = 2,472 milhões de toneladas de CO₂

No entanto, com o crescimento contínuo da vegetação e o aumento da taxa de captura ao longo dos anos, especialistas e estudos da Verra, IPCC e do próprio edital de concessão estimam que a restauração da floresta pode chegar a uma média acumulada de 3,7 milhões de toneladas de carbono equivalente ao longo do período do projeto. Esse valor leva em conta fatores como regeneração natural, enriquecimento florestal e melhorias no manejo da vegetação recuperada.

Os passos para a geração de créditos de carbono

Para que os créditos de carbono sejam efetivamente gerados e comercializados, o projeto da APA Triunfo do Xingu precisa seguir um rigoroso processo de certificação e validação. Os créditos só poderão ser comercializados após a implementação do projeto e a comprovação dos benefícios ambientais, o que envolve diversas etapas obrigatórias. 

Registro do Projeto – O projeto deve ser cadastrado em um padrão reconhecido internacionalmente, como o Verra (VCS) ou o Gold Standard, para garantir sua credibilidade. 

Validação – Especialistas independentes avaliam se o projeto atende aos requisitos de metodologias reconhecidas e se suas estimativas de captura de carbono são realistas. 

Implementação – O reflorestamento e as ações de restauração começam efetivamente, com monitoramento contínuo da recuperação da vegetação.

Monitoramento e Verificação – Durante anos, a evolução da floresta será monitorada e auditorias independentes validarão se o carbono está sendo realmente sequestrado conforme previsto. 

Emissão dos Créditos – Após verificações e auditorias, os créditos de carbono são oficialmente gerados e podem ser negociados no mercado. 

Esse processo completo pode levar de 4 a 7 anos para que os primeiros créditos de carbono possam ser comercializados, conforme experiências de outros projetos semelhantes na Amazônia. Esse período depende de fatores como a velocidade de regeneração da vegetação, o cumprimento dos requisitos técnicos e o tempo necessário para auditorias e validações. Assim, enquanto a recuperação da floresta trará benefícios ambientais e econômicos ao longo dos anos, a geração e comercialização de créditos de carbono exigirá paciência e rigor técnico para garantir sua credibilidade no mercado.

Diversos projetos de carbono na Amazônia já comercializaram créditos de carbono. Por exemplo, em setembro de 2024, a Petrobras adquiriu 175 mil créditos de carbono do projeto Envira Amazônia, localizado no Acre, que visava preservar 39,3 mil hectares de floresta. Além disso, o estado do Pará firmou um acordo histórico em setembro de 2024, vendendo quase R$ 1 bilhão em créditos de carbono para financiar programas de redução do desmatamento. 

Esses exemplos demonstram a viabilidade e o interesse crescente no mercado de créditos de carbono na região amazônica.

  • Roberta Mendes é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), com MBA em Gestão Ambiental e Manejo Florestal. Consultora Ambiental e Florestal, possui experiência em certificação de créditos de carbono, regularização ambiental e fundiária, manejo florestal e recuperação de áreas degradadas. Atuou em projetos de reflorestamento, inventário florestal e georreferenciamento, além de gerenciamento de operações de colheita e logística florestal.

Referências

– Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Disponível em: https://www.ipcc.ch

–  Verra – Verified Carbon Standard (VCS). Disponível em: https://verra.org

Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas). Disponível em: https://www.semas.pa.gov.br

– Projeto Envira Amazônia e comercialização de créditos de carbono. Brasil Agro. Disponível em: https://www.brasilagro.com.br/conteudo/petrobras-comprou-creditos-de-carbono-de-projeto-com-desmate.html

– Acordo do Pará sobre créditos de carbono. Agência Pará. Disponível em: https://www.agenciapara.com.br/noticia/59887/para-assina-acordo-inedito-e-vende-quase-r-1-bilhao-de-creditos-de-carbono

Fonte: ver-o-fato

FONTE: PLANTÃO 24 HORAS NEWS

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