sábado, agosto 30, 2025

Cuiabá como palco do futuro:  reflexões do fórum Lide | RDNEWS

Rodinei Crescêncio

O Fórum de Sustentabilidade e Desenvolvimento Econômico, realizado em Cuiabá nesta semana, marcou um momento singular para Mato Grosso e para o Brasil. Reunir lideranças políticas, empresariais e intelectuais em torno do desafio de conciliar crescimento e preservação não é apenas um gesto simbólico: é o reconhecimento de que o futuro precisa ser construído desde já, e que o Centro-Oeste ocupa papel estratégico nesse processo.

Durante dois dias, a palavra sustentabilidade atravessou cada fala, cada painel, cada encontro de corredores. O termo, tão repetido, muitas vezes corre o risco de esvaziar-se. Mas em Cuiabá, ele ganhou densidade ao ser confrontado com a realidade concreta de um estado que, ao mesmo tempo, é potência agrícola, guardião de biomas vitais e ponto de convergência de interesses globais.

A realização do fórum aqui é, por si só, um recado ao país: não é mais possível pensar a agenda climática apenas das capitais litorâneas ou das conferências internacionais. O debate precisa nascer também do chão que produz, da terra que alimenta, da floresta que respira. E Mato Grosso, com sua complexidade, mostra que não há contradição inevitável entre produzir e preservar, há, sim, um convite à criatividade, à inovação e à cooperação.

O painel “A Diplomacia do Clima: Soberania, Cooperação e Responsabilidade”, que tive a honra de moderar, reforça essa ideia. Ao reunir especialistas de diferentes trajetórias, o espaço se apresentou como lugar de escuta e construção coletiva. Diplomacia, aqui, não é apenas o trabalho de embaixadores em salões distantes: é também a capacidade de um estado, de um setor, de uma comunidade traduzirem seus interesses em diálogo aberto, reconhecendo a interdependência que nos une diante da crise climática.

O evento terminou, mas sua mensagem permanece: é possível, sim, conjugar desenvolvimento e responsabilidade, e Mato Grosso tem todas as condições para ser protagonista dessa história


Mauricio Munhoz

Foi nesse contexto que levantei uma provocação necessária: até que ponto as políticas ambientais globais são de fato sobre o clima… e até que ponto elas são sobre o controle da nossa soberania? A chamada moratória da soja, criada em 2006, nasceu sob a justificativa oficial da preocupação climática. Mas, na prática, estabeleceu que a soja produzida em áreas desmatadas da Amazônia após 2008 não poderia ser comercializada, decisão celebrada como exemplo global de governança ambiental, mas que consolidou um problema: quem define o que o Brasil pode ou não produzir não são os brasileiros, e sim atores externos.

É preciso reconhecer que a moratória não foi apenas um instrumento ambiental. Foi também um instrumento de diplomacia econômica. O paralelo é evidente com os tarifaços do governo americano, que, sob o discurso de proteger a indústria nacional, impuseram barreiras comerciais globais. Quando os países centrais percebem risco à sua competitividade, usam o meio ambiente ou o comércio como justificativa para limitar o outro. No fundo, o que está em disputa não é o clima, é quem controla as regras do comércio global.

Esse cenário expõe a incoerência da divisão internacional do trabalho. O Brasil, historicamente condicionado a exportar commodities e importar industrializados, vê agora tentativas de inibição até mesmo de sua produção primária, a base de sua economia. Em outras palavras: querem que sejamos fornecedores de produtos básicos, mas sempre sob as condições deles.

Contra essa lógica, é fundamental recuperar experiências como as da Nobel de Economia Elinor Ostrom, que demonstrou que os bens comuns podem ser preservados sem imposição externa, desde que haja protagonismo local. No caso da Amazônia, não é a pressão de Bruxelas ou de Washington que vai salvá-la, mas sim a governança das populações que nela vivem e produzem. Não existe solução duradoura sem participação local.

Do mesmo modo, o cientista político Sérgio Abranches nos lembra que a governança ambiental é, antes de tudo, governança política. Foi ele quem cunhou o conceito de “coalizão presidencialista” para mostrar como o Brasil decide suas políticas por meio de negociação interna. O raciocínio se aplica à questão climática: se as políticas ambientais não forem construídas dentro de nossas próprias instituições, tornam-se frágeis, dependentes e subordinadas ao interesse externo. A Amazônia não pode ser governada de fora. Precisa ser governada por um pacto brasileiro.

Seja no campo da energia, da agricultura ou da política, os desafios postos são enormes. Mas, o fórum mostrou que não nos falta disposição para enfrentá-los. As conversas não se esgotaram no evento; ao contrário, plantaram sementes que precisarão ser cuidadas nos próximos meses e anos. É desse cultivo que dependerá nossa capacidade de transformar compromissos em ações e discursos em resultados.

Em tempos de pessimismo fácil, é importante destacar que há caminhos possíveis. Mato Grosso já desponta com experiências que conciliam tecnologia agrícola e conservação ambiental, e o diálogo entre diferentes setores, antes improvável, hoje começa a ganhar corpo.

Ao final, talvez o maior legado do fórum tenha sido este: lembrar que o futuro não se decide apenas nos gabinetes distantes, mas também aqui, no coração do Brasil, onde produção e natureza se encontram. Cabe a nós transformar esse encontro em exemplo.

E, como síntese, deixo uma convicção: sustentabilidade sem soberania é dependência. Soberania sem sustentabilidade é atraso. O Brasil precisa das duas juntas. Nosso lugar não é de colônia das agendas externas, mas de protagonista de um novo modelo de desenvolvimento.

O evento terminou, mas sua mensagem permanece: é possível, sim, conjugar desenvolvimento e responsabilidade, e Mato Grosso tem todas as condições para ser protagonista dessa história.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

FONTE: RDNEWS

comando

DESTAQUES

RelacionadoPostagens