domingo, agosto 31, 2025

Bairro que inspirou filme premiado de MT vive fase de pacificação

Criado há quase 30 anos, o bairro Novo Colorado, em Cuiabá, deixou as páginas policiais para brilhar na maior premiação cinematográfica do país, com o filme Cinco Tipos de Medo, do cineasta Bruno Bini.

 

A partir do filme, as autoridades começaram a nos enxergar

As ruas do bairro serviram de cenário para o longa, premiado como Melhor Filme no 53º Festival de Cinema de Gramado, realizado no Rio Grande do Sul no último final de semana.

 

Antes marcado por disputas entre grupos armados, o bairro hoje vive um momento de pacificação e transformação por meio da arte. Em 2007, porém, aquelas mesmas ruas ainda eram palco de conflitos violentos por território.

 

Moradora do bairro desde a fundação, a servidora pública Ugolina Cruz construiu sua casa após uma mobilização que garantiu a criação oficial da comunidade. Ela acompanhou de perto todas as fases da transformação.

 

“Foi a mudança que nós precisávamos aqui. Na época, eu era presidente do bairro, mas a gente não conseguia nada. Corria atrás, participava de reuniões, e nada acontecia. A partir do filme, as autoridades começaram a nos enxergar. Nós postávamos, íamos às reuniões, falávamos”, lembra Ugolina, emocionada.

 

Ela também relatou as dificuldades enfrentadas no início: a falta de coleta de lixo, de abastecimento de água, de saneamento, de asfalto e iluminação pública. O sentimento de abandono era generalizado.

 

Com a chegada de novos moradores e a expansão desordenada, a violência urbana também se instalou. Confrontos entre facções criminosas tornaram o cotidiano perigoso, e tiroteios passaram a ser frequentes.

 

A empreendedora Fernanda Silva, que por anos comandou um comércio no bairro, relatou a realidade difícil na fachada da lanchonete administrada por sua família.

 

Victor Ostetti/MidiaNews

Ugolina Cruz e Fernanda Silva

Ugolina Cruz (à esquerda) e Fernanda Silva (à direita)

“Tinha prostituição, aliciamento, tráfico de drogas — tudo que era de ruim. Nem Uber vinha. Ambulância não entrava. Viatura de polícia, então, nem se fala. Nossa vida aqui era muito difícil”, contou. 

 

Segundo ela, a ausência do Estado era sentida em todos os aspectos.

 

“A gente não era visto. Quando tinha tiroteio entre gangues, a polícia deixava eles se matarem. E nós, moradores, ficávamos coagidos. A maioria das nossas casas era de madeira, barracos mesmo”, relembrou.

 

Foi nesse contexto que surgiu a figura de Flávio Castro de Lima, conhecido como “Sapinho”. Ele passou a ser visto como um “protetor local”, impondo uma espécie de “ordem” entre os grupos armados.

 

Aos 20 anos, “Sapinho” foi preso por tráfico de drogas e homicídio. A ausência dele causou medo e paralisia na comunidade, e muitos moradores deixaram de realizar até atividades simples por medo de invasões rivais. A comoção gerada pela prisão resultou em uma reportagem assinada pela jornalista Aline Chagas, no Diário de Cuiabá, com a manchete: “Novo Colorado pede a volta de Sapinho”.

 

A matéria chamou a atenção do cineasta Bruno Bini, que usou a história como base para o curta Três Tipos de Medo, que retrata o impacto da violência urbana na vida cotidiana.

 

Arte como ferramenta de transformação

 

A produção do curta, com cenas gravadas nas ruas do bairro, causou uma verdadeira revolução. Moradores viram, pela primeira vez, sua comunidade ser retratada com dignidade, sensibilidade e protagonismo.

 

A comunidade começou a abraçar a educação

Durante as filmagens, Ugolina, na época presidente da associação de moradores, recebeu o diretor e a equipe no bairro. Ao lado da amiga Fernanda, conversou com os vizinhos sobre a proposta. Apesar da desconfiança inicial, a produção foi bem-sucedida.

 

“Foi um marco. As professoras começaram a notar diferença na escola. A comunidade começou a abraçar a educação. Tinha dias em que a gente amanhecia com eles gravando. Tinha gente que colocava o sofá na calçada para assistir de camarote”, relembrou Ugolina, com bom humor.

 

“Na época, as crianças adoravam. O Bruno [Bini] é uma pessoa muito humilde, que ajudou muito. E o Jonathan [Haagensen, protagonista do curta] reunia as crianças, tirava fotos, e dizia: ‘o mundo do crime não compensa’. Eles davam vários conselhos, e aquelas crianças, hoje, são jovens com outra visão”.

 

A presença da equipe no bairro gerou impactos diretos. A arte passou a ser vista como caminho possível para ascensão social. A taxa de evasão escolar caiu, e muitos jovens buscaram profissionalização.

 

“Nosso bairro hoje é tranquilo. E nossos jovens, hoje, são formados. É difícil achar um jovem que não tenha estudo. Não é mais como antigamente”, afirmou Fernanda.

 

Visibilidade e qualidade de vida

 

Victor Ostetti/MidiaNews

ugolina Cruz mostra acervo

Ugolina mostra fotografia tirada nas ruas do bairro antes do Curta

O medo de sair às ruas deu lugar ao orgulho de pertencer a uma comunidade que, antes invisível para o poder público, passou a ser reconhecida em festivais de cinema no Brasil e no exterior.

 

Além do impacto simbólico, a visibilidade trouxe melhorias práticas, que aumentaram significativamente a qualidade de vida dos moradores. Ruas antes de terra e pontos tomados por “bolsões de lixo” deram lugar a vias asfaltadas, iluminação pública e maior presença de serviços essenciais.

 

“Eram muitos bolsões, esgoto a céu aberto. Tinha muito caso de doença por causa das bactérias desses esgotos expostos”, lembrou Fernanda Silva.

 

“Nos morros, quando chovia, virava tudo valeta, e o caminhão do lixo nem passava. As esquinas mais baixas se enchiam de lixo e ficava aquele odor muito forte. Quando veio a gravação do primeiro filme, eles viram isso tudo. Filmaram. Acho que as autoridades só perceberam por meio dessas imagens e do que foi lançado nas redes sociais”, afirmou.

 

A partir dessa exposição, o bairro passou a receber investimentos: foram implantadas redes de água potável, esgoto e asfalto. O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), a unidade de saúde e as escolas da região também foram reformadas.

 

“O filme foi uma virada de chave. Quando veio o desenvolvimento, ajudou o comércio, deu visibilidade para a nossa região. E aí veio o crescimento econômico”, completou Fernanda.

 

Para a empreendedora, o impacto foi além da infraestrutura, atingiu também a percepção das pessoas sobre quem vive no Novo Colorado.

 

“Antigamente, quando minha filha tinha 14 ou 15 anos, ela dizia que morava no Colorado e já sentia o preconceito. Foi muito difícil arrumar o primeiro emprego. Por isso eu falo que o filme foi uma virada de chave. Já com a minha segunda filha, não teve mais esse problema. Eu não senti mais essa discriminação”, relatou.

 

Cinco Tipos de Medo e a nova mudança

 

Nosso bairro vai correr o mundo

Anos depois, uma nova euforia tomou conta do Novo Colorado: o bairro foi representado no longa Cinco Tipos de Medo, que venceu o Kikito no tradicional Festival de Cinema de Gramado — uma das premiações mais importantes do país.

 

O filme, inspirado nas vivências dos moradores, reacendeu o orgulho da comunidade.

 

“Todo mundo ficou eufórico, o Colorado inteiro. Todo mundo pergunta, manda mensagem: ‘Nosso bairro vai correr o mundo’”, contou Ugolina Cruz.

 

Ela lembrou com carinho como a produção do longa que também aqueceu a economia local durante as filmagens e tem contribuindo para a empolgação e a curiosidade dos jovens pela arte.

 

“Agora a gente quer criar um projeto para captar recursos e dar oficinas aqui. Oficina de fotografia, de teatro, de grafite… É importante. São coisas que eles gostam: dança, rap. Acho que não só no nosso bairro, mas em outras comunidades também. A gente precisa mostrar para essas crianças, para esses jovens, que eles têm talento. Eles só precisam de oportunidade”, pontuou. 

 

FONTE: MIDIA NEWS

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