domingo, agosto 31, 2025

Rota da Ancestralidade reforça luta contra o apagamento da cultura afro-brasileira e mancha a história, diz idealizador | RDNEWS

Rodinei Crescêncio

A preservação de um patrimônio histórico cultural vai além de aulas em uma sala de escola, rodas de conversa com especialistas ou palestras em datas específicas. Foi pensando em uma forma de repassar os conhecimentos ancestrais de maneira que a população pudesse não só ver, como sentir, que o projeto Rota da Ancestralidade nasceu, como uma ferramenta para revisitar o passado e fazer a manutenção de vivências que tanto sofreram com o apagamento. Um dos responsáveis pela elaboração da Rota e antigo coordenador do Museu de Imagem e Som de Cuiabá (Misc), Cristóvão Luiz Gonçalves da Silva, reforça que refletir sobre as histórias de pessoas pretas que não só viveram na capital mato-grossense, como formaram parte da cidade com seu trabalho, suor e lágrimas, é também lutar contra o racismo que agride e apaga esses personagens.

Rodinei Crescêncio

Rota da Ancestralidade Cuiab�

“A gente precisa colocar essas cicatrizes na alma. Isso está em mim, está em você e está nas pessoas que sentem isso, essa discriminação, esses preconceitos, essa homofobia, até nos dias atuais. O que mudou dessa dor de ontem para essa dor de hoje quando eu vejo homens e mulheres ainda sendo abordados pelos policiais, que mais matam negros nesse país, principalmente jovens?”, questionou.

A Rota, que começou a ser feita em 2011, tem sete pontos principais pelo Centro histórico: saindo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, e passando pela Praça Mãe Preta, Praça da Mandioca, Rua Ricardo Franco, Rua Pedro Celestino, Beco do Candeeiro até o Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (Misc).

A Praça da Mandioca, por exemplo, faz parte por ser um local que um dia foi um pelourinho. É ainda neste ponto que o idealizador do projeto, em entrevista ao , aborda o fato de que a história das pessoas que ali passaram necessita ser contada como parte da narrativa que constrói a história de Cuiabá. 

“O que nós estamos fazendo é a preservação dessa memória. Passar por aqui é um momento de reflexão muito grande. Aqui é onde esses negros eram expostos para que os outros vissem e se intimidassem. Era uma intimidação, usando esses corpos negros como amostra do poder do senhorio sobre essa população negra. Eram muitos chicotes, muitos cortes, muitas lágrimas. Então esse é um espaço também de muita dor. E é onde eu falo em relação àquela reflexão de ontem e de hoje”, explicou. 

Rodinei Crescêncio

Rota da Ancestralidade Cuiab�

Em consoante ao assunto debatido, Cristóvão expõe que o projeto da Rota da Ancestralidade é também um processo de escuta antirracista, onde os idealizadores trabalham com a tentativa de descobrir cada vez mais sobre as vivências de pessoas pretas e sua influência.

O ex-coordenador do MISC argumenta que o diálogo desenvolvido pelo projeto busca enxergar o que havia nos locais que hoje são tomados por construções modernas, que muitas vezes, levam nomes de personalidades brancas que exerciam grandes cargos de poder, e não de quem de fato viveu nesses pontos. 

“Hoje se você olhar, se não tiver essas informações da Rota da Ancestralidade, é só um centro histórico da capital. Você tem os prédios, as clínicas, os colégios particulares, mas essa história que foi apagada ontem e continua sendo apagada hoje, essa influência africana, dos povos indígenas, dos povos originários, isso daqui você vai acabar com o tempo, vai passar desapercebido e vai naturalizar essa situação em circunstância, porque a história é contada por aqueles que têm o poderio econômico, pelo colonizador”, pontuou Cristóvão. 

Ao falar sobre a Praça da Mãe Preta, localizada em frente a um dos colégios particulares de Cuiabá, Cristóvão conta sobre a busca que os organizadores tem feito, por exemplo, para conhecer as mulheres pretas que eram amas de leite dos senhores.

Rodinei Crescêncio

Rota da Ancestralidade Cuiab�

Cristóvão explica que essas mulheres começavam a ter filhos por volta dos 13 anos, e que eram obrigadas a parar de amamentar os seus para poder servir os senhorios. Para ele, ter conhecimento do que essas mulheres passaram e contar suas histórias é entender o cerne de preconceitos e também dar autonomia a esses corpos, vê-los como pessoas e não produtos. 

“Esse feminicídio, o desrespeito para com essas mulheres, vem daí. Então a Rota da Ancestralidade traz à tona essa possibilidade de vida, e algo que nos é sagrado, a liberdade desse cativeiro físico, mental e espiritual”, enfatiza.

Rodinei Crescêncio

Rota da Ancestralidade Cuiab�

O projeto da Rota da Ancestralidade desmistifica discursos de que a atualidade não lida mais com o racismo. Apesar de não se ver mais pelourinhos com corpos pretos expostos, ruas específicas em que estas pessoas poderiam transitar ou igrejas exclusivas para pessoas brancas, o crime racial se personifica de maneira diferente. O apagamento da influência afro-brasileira continua sendo uma violência, tal qual abordagens policiais agressivas ou um comentário sobre a textura de um cabelo crespo, geralmente direcionado a mulheres negras. 

“[É necessário] Preservar essa memória, essa história, pra que as pessoas conheçam e respeitem, a dignidade e a importância de cada ancestral, de cada ser humano que teve e tem a sua parcela de contribuição na contextualização desse patrimônio cultural na capital de Cuiabá”, finalizou.

Para fazer a Rota

Atualmente, o trajeto é feito em programações escolares, em visitas guiadas e agendadas pelas instituições. Para o público em geral, a visitação guiada acontece em datas específicas. Nas redes sociais da Rota da Ancestralidade, é possível se informar das datas e cronogramas. A participação é gratuita.

FONTE: RDNEWS

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