A história do Brasil é marcada por figuras cuja grandeza moral e compromisso com a democracia enfrentaram os ventos autoritários que tantas vezes sopraram sobre o país. Entre esses nomes, o do Marechal Henrique Teixeira Lott ocupa lugar de destaque. Militar de carreira, homem austero e discreto, Lott foi, acima de tudo, um patriota que soube colocar os interesses da República acima das conveniências pessoais e corporativas.
Em novembro de 1955, o Brasil vivia uma grave crise institucional. A eleição de Juscelino Kubitschek e João Goulart havia sido contestada por setores direitistas, que conspiravam com militares e representantes de outros países para impedir sua posse. Isso remete a algum episódio recente?
Diante da ameaça de ruptura constitucional, o Marechal Lott, então Ministro da Guerra, tomou uma atitude firme e corajosa: liderou um movimento legalista, conhecido como Contragolpe Preventivo, garantindo a posse dos eleitos e preservando a ordem democrática. Não buscou poder pessoal, nem se aproveitou da instabilidade para ascender politicamente — apenas cumpriu seu dever, fiel à Constituição.
Esse episódio, quase sempre negligenciado nos livros didáticos, foi decisivo para a proteção da democracia brasileira naquele momento histórico. Sem o gesto de Lott, o país poderia ter mergulhado precocemente em uma espiral autoritária. Sua ação foi um exemplo raro de intervenção militar em defesa da legalidade, e não contra ela.
Mas a coerência tem seu preço. Na sucessão de JK, Lott foi candidato à presidência em 1960, derrotado pelo demagogo Jânio Quadros, que logo renunciaria numa tentativa de autogolpe, levando o país a uma escalada de radicalização que culminou na ditadura de 1964. Os novos donos do poder, seus antigos comandados, deliberadamente atuaram para apagar a sua trajetória. Afinal, um militar legalista, em vez de ser reverenciado como exemplo de honra e disciplina, era um péssimo exemplo para ditadores medíocres, corruptos e adeptos da tortura e da censura. Lott personificava o oposto do projeto autoritário: um militar honrado, respeitador da soberania popular e da Constituição.
O esquecimento imposto a Lott é sintomático. Em um país onde a memória histórica é seletiva e frequentemente manipulada, figuras como ele incomodam demais.
Rememorar o legado do Marechal Henrique Lott é resgatar um Brasil que acredita na força das instituições, na primazia da lei e na dignidade do serviço público. É lembrar que a farda pode — e deve — servir à democracia, e jamais se sobrepor a ela. Que sua memória inspire as novas gerações de militares e civis a compreender que a verdadeira grandeza reside na defesa da República e da Constituição, mesmo quando isso exige coragem para enfrentar os próprios pares.
Lott foi um militar íntegro e democrata. E isso, no Brasil, merece ser celebrado.
PS: Meu pai, recém-formado engenheiro, atuando nos confins do Brasil, abraçou a candidatura presidencial de Lott e incluiu “Henrique” no nome do seu primogênito, que nasceu durante a campanha. Sou eu. O Henrique do meu nome carrega essa origem e procuro honrá-la sempre.
Luiz Henrique Lima é professor e conselheiro independente certificado.
FONTE: MIDIA NEWS








