quinta-feira, setembro 17, 2026

“Você está brincando de roleta-russa; não tem segunda chance”

"Você está brincando de roleta-russa; não tem segunda chance"

morte do influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, ocorrida no último dia 23, reacendeu o debate sobre o uso de hormônios e outras substâncias anabolizantes. Para o campeão estadual de fisiculturismo na categoria Classic Physique, Leandro Nascimento, o uso indiscriminado pode transformar a busca pelo físico ideal em um “jogo de vida ou morte”.

 

O físico legal é top, mas tem que estar bonito por fora e bom por dentro. Senão, é uma bomba-relógio

“Se você não parar para analisar o que está fazendo com o seu corpo, o que está colocando nele, está assumindo um risco. Você está brincando de roleta-russa. Pode ser que uma hora você aperte o gatilho e a bala esteja lá na ponta da agulha. E aí é o fim. Não tem segunda chance”, disse ele em entrevista ao MidiaNews.

 

Gabriel Ganley se preparava para estrear no fisiculturismo e falava abertamente nas redes sociais sobre protocolos de hormonização. Inicialmente, houve suspeita de intoxicação por insulina, mas o laudo apontou cardiomiopatia hipertrófica como causa da morte.

 

Segundo Leandro, que além de atleta é professor de Educação Física, embora o fisiculturismo de alto rendimento envolva riscos e o uso de hormônios seja realidade dentro da modalidade, muitos atletas negligenciam exames e acompanhamento profissional.

 

É um sonho, só que tem outras coisas que são mais importantes. As pessoas têm que ter isso em mente. O físico legal é top, mas tem que estar bonito por fora e bom por dentro. Senão, é uma bomba-relógio. Você não sabe o que pode acontecer. Você pode deitar e não acordar”, afirmou.

 

Na entrevista, o atleta também falou sobre os bastidores da preparação para campeonatos, o uso de hormônios esteroides e não esteroides, os impactos físicos e psicológicos do esporte, a influência das redes sociais sobre jovens e os limites éticos do fisiculturismo profissional.

 

 

 

Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria):

 

MidiaNews – Há quanto tempo treina musculação e por que começou a competir?

 

Eu pesava na época 88 quilos. Ele disse que queria ver até onde conseguia ir. A gente começou em agosto, foram em torno de seis meses. Consegui aumentar meu peso até 102, 103 quilos

Leandro Nascimento – Treino musculação há aproximadamente 15 anos. Comecei quando tinha 13. Quem me levou pela primeira vez foi meu pai, com a minha irmã, mas logo depois parei porque também jogava bola, fazia jiu-jitsu. Um dia o professor do jiu-jitsu falou para mim: “Leandro, você está ficando muito pesado, tem que parar com a musculação”. Olhei para ele e falei: “Marcelo, tchau”. E continuei na musculação. Sempre gostei do esporte, fui me aprofundando, me formei em 2018 em Educação Física e comecei a ter contato com o esporte a partir de 2021.

 

Acompanhava pelas redes sociais os primeiros perfis que tiveram, do Toguro, Felipe Franco, o Scarpelli. Acompanhava esse pessoal, achava da hora, via muitos vídeos na academial. Mas nunca tive o interesse de participar. Achava legal, mas sempre que era convidado por um amigo ou outro, falava: “Cara, não consigo. Dieta não é comigo, passar fome, passar estresse, passar vontade, não é comigo”. Até que um dia fui assistir a um professor que é meu amigo, o Rodrigo Jesus, em um campeonato aqui no Pantanal [Contest].

 

E a gente vendo o cara ali debaixo, falei: “Eu consigo”. Não menosprezando ninguém, mas falei: “Eu consigo chegar numa condição dessa”. Eu pesava na época 88 quilos. Ele disse que queria  ver até onde conseguia ir. A gente começou em agosto, foram em torno de seis meses. Consegui aumentar meu peso até 102, 103 quilos.

 

E aí, o campeonato tinha mais quatro meses pra acontecer, que era o Power Classic, primeira competição. E aí a gente começou a parte de limpar o físico, restrição calórica, e mais 12 semanas, mais ou menos, de dieta. E muda tudo. Aumenta a carga, aumenta a dieta, muda protocolo. No primeiro campeonato, subi em quatro categorias, sendo duas estreantes e duas open. Open é com as pessoas que já competem, os estreantes é a primeira vez de todo mundo. Ganhei uma na Classic, fiquei em segundo nas outras três. Essa foi a primeira vez, em 2022.

 

MidiaNews – Pode contar um pouco como é a preparação para subir no palco? Quanto tempo leva? O que muda na sua rotina?

 

Leandro Nascimento – Sempre treinei. Tem atletas que, quando não estão, principalmente no amadorismo, em preparação voltada para algum tipo de evento, são pessoas que treinam recreativamente. “Ah, hoje vou. Hoje não vou”. Eu sempre gostei. É o meu momento de lazer. Porque se eu não tiver tempo para cuidar de mim, quem vai?

 

Então, assim, uma preparação, dependendo do estado do seu físico no momento atual, se você for fazer um off, vai durar em torno de 20 a 22 semanas.

 

Se já vem num físico um pouco mais seco, já de alguma outra competição e visando outros eventos, consegue fazer uma preparação em 12, 10 [semanas]. No Power Classic, o primeiro campeonato que disputei esse ano, fiz uma preparação de 12 semanas. Foi a mais curta que fiz e a mais tranquila. Esse ano foram duas preparações mais tranquilas. Eu fiz uma de 12, segurei mais duas semanas e subi em Campo Grande de novo. Mas, geralmente, dura em torno de 14 a 20 semanas.

 

É de quatro a cinco meses de restrição. Começa com a dieta um pouco mais flexível e vai… Geralmente, a gente vai modulando muito a questão do carboidrato. Vai baixando, vai baixando, vai baixando. Tem momentos que você faz zero carbo, que aí é só vegetal e proteína, e assim vai indo.

 

 

 

MidiaNews – A gente vê nas redes sociais, às vezes, que alguns influenciadores ficam horas na academia. Isso acontece com você também? Quanto tempo leva o seu treino?

 

Leandro Nascimento – Não, não. O meu treino de musculação dura em torno de 45 minutos, 1 hora, e 30 minutos de cardio. É o suficiente.

 

MidiaNews – E como fica o seu corpo nos dois últimos dias da competição? Como é essa sensação de levar o físico ao extremo?

 

Pra mim, o fisiculturismo é uma arte. Você vai apresentar o físico. Você tem que apresentar os seus pontos fortes e conseguir esconder o que não está bom

Leandro Nascimento – A última semana é a mais crítica no sentido de você poder estragar o que está bom. Porque você já vem fazendo um trabalho a longo prazo, de baixar o percentual de gordura, de trabalhar a densidade muscular, aprofundar cortes da musculatura. E tem um trabalho também que é muito importante, que a gente fala pouco, que é o de treinamento de poses.

 

Porque ali você não vai só esculpir um físico. Pra mim, o fisiculturismo é uma arte. Você vai apresentar o físico. Você tem que apresentar os seus pontos fortes e conseguir esconder o que não está bom. Você tem que saber mostrar tudo isso em cima do palco e tem 30 segundos para mostrar o trabalho de cinco meses.

 

Nessa última semana, a gente vai fazendo um trabalho de hiper-hidratação. Depois, dependendo do caso, do físico, porque dentro do esporte e da Educação Física não existe uma verdade absoluta, às vezes, tira água. No último dia, a pessoa fica sem tomar água ou aumenta a água. Às vezes, fazem o uso do diurético.

 

Às vezes só uma vitamina C ajuda, já consegue fazer o trabalho da diurese. Nos últimos dois dias é que realmente o corpo muda muito. Porque a água que está entre a pele e o músculo vai saindo. A pele vai colando mais no músculo. E o atleta vai ficando com aquele aspecto opaco, parecendo que está envelopado.

 

Mas esses dois últimos dias são o momento em que o corpo realmente encaixa. É a hora que você vai levar o corpo ao extremo, vai bater o peso. É a hora que vai fazer o carb up. Para muitos atletas é o momento mais esperado, porque vai estar liberado para poder comer uma pizza, um lanche, ou fazer uma refeição livre dentro do que é limpo. Mas livre para poder comer um arroz e várias outras coisas. 

 

MidiaNews – Após a morte do influenciador Gabriel Ganley, muito se falou sobre alguns protocolos dos fisiculturistas, como uso de insulina, GH e outros hormônios anabolizantes. Dentro do meio do fisiculturismo isso é comum? Os riscos que esses medicamentos trazem são discutidos de forma clara?

 

Leandro Nascimento – Tem a categoria dos atletas naturais, que não fazem uso de hormônio, de esteroide, e tem a categoria que realmente chama a atenção, que é a categoria que tem o aporte do hormônio, como o GH, a insulina, testosterona e vários outros hormônios. Enfim, muitos. Mas tudo depende da equipe que está te acompanhando. Tem pessoas que fazem por si só, que não têm um acompanhamento, que vão pelo conhecimento de “eu li na internet que fulano falou que três gramas de testo por semana é pouco”. Três gramas de testo é testo pra caramba.

 

“Não, eu já vi na internet que se eu tomar oxandrolona com trembolona eu vou secar”. Aí o cara vai lá e faz o uso. Já tem pessoas que procuram acompanhamento. O que vai realmente diferenciar o que vai acontecer ali é a qualidade das pessoas que estão te cercando. Pessoas que sejam francas com você e que sejam sinceras. “Olha, tudo tem um risco”. Um esporte de alto rendimento vai ter risco, como no futebol tem um risco, na natação vai ter um risco, no fisiculturismo não é diferente.

 

O que vai realmente diferenciar o que vai acontecer ali é a qualidade das pessoas que estão te cercando. Pessoas que sejam francas com você e que sejam sinceras

Só que o que acontece é que é um esporte onde o uso dos hormônios está mais em evidência, até porque não tem antidoping. Não tem como ter um antidoping num esporte que, querendo ou não, pro cara chegar num estágio de um fisiculturista nível open, tem que usar. Não tem como. Então, o que realmente vai diferenciar isso é a qualidade e a honestidade das pessoas que te cercam.

 

Se você tem um coach coerente, um médico coerente, eles vão te dar respaldo e vão te falar sobre os malefícios e os benefícios. Toda droga vai ter malefício, seja a curto ou a longo prazo. A questão do curto prazo, a insulina foi um exemplo, o diurético é outro exemplo. Dependendo da forma como usa, da quantidade que usa, pode ser fatal.

 

Você sempre tem que ter alguém que seja realmente alinhado, coerente e honesto. Isso vai muito do atleta também, porque o treinador fala: “A gente vai começar o protocolo. Você não está abaixando o peso. A gente vai entrar aqui com 50 mg de um diurético poupador de potássio”. O cara vai lá e compra o de 100 mg e toma o de 100 mg. Aí ele começa a se encher de cãibra, só que o peso não baixa.

 

Aí o treinador fala: “Agora a gente vai aumentar para 100 mg e a gente vai regular um pouco o sal, aumentar um pouco”. Aí ele já está tomando 100 mg, vai aumentar pra 200 mg? Então, assim, nesse mundo a honestidade tem que ser primordial. Você tem que ser o mais honesto possível e ser metódico. Porque a gente não tem segunda chance. Não tem “ah, eu errei”, igual jogando bola. “Eu errei um gol”. Não, a bola vai vir de novo. A vida não vai voltar. 

 

 

 

MidiaNews – O uso de hormônios esteroides e não esteroides se tornou muito criticado, principalmente após a morte do Gabriel Ganley. Como você, como atleta e educador físico, enxerga isso?

 

Leandro Nascimento – Hoje o uso do hormônio está presente, agora falando como educador físico, em praticamente 80% do público que pratica musculação. Não só os hormônios, mas também os peptídeos. Hoje, se você for sentar numa mesa de restaurante, vai reparar que os menus estão mudando.

 

Hoje o uso do hormônio está presente, agora falando como educador físico, em praticamente 80% do público que pratica musculação. Não só os hormônios, mas também os peptídeos

As porções de comida estão diminuindo, porque as pessoas, todas elas, de alguma forma ou outra, estão tentando burlar o próprio físico. E isso tem seus malefícios e benefícios. Consegue baixar o peso, só que a pessoa perde nutriente. Então, você está fazendo mal para o seu corpo da mesma forma.

 

Realmente está muito em evidência. Só que hoje, com a chegada da internet, das redes sociais, está tudo muito mais aberto. A informação está para todo mundo. As pessoas têm livre acesso. Antigamente, no fisiculturismo old school, era mais uma caixa de Pandora. Você não conseguia chegar nessas substâncias com a mesma facilidade que tem hoje.

 

Hoje, se você parar dentro de uma academia, qualquer que seja, dessas de bairro, de rede ou de condomínio, e conversar 10 minutos com qualquer um, consegue contato de alguém que tenha uma paradinha, um hormoninho, uma retatrutidazinha, um Mounjarozinho para te vender. E você não sabe qual é a procedência disso. Se é real, se não é real. Você não sabe se pode tomar isso.

 

E a maioria das pessoas quer fazer o uso, mas não quer fazer o mínimo. Não quer fazer um exame, um acompanhamento médico, ir num cardiologista, ir num médico do esporte. Por quê? Porque é caro. O pós, o colateral, vai ter. Talvez menos ou mais. Vai depender muito da pessoa. Isso é genético, é biológico. No caso do Gabriel, na autópsia fala que ele teve uma cardiomiopatia, que o coração dele enrijeceu. Isso pode ser tanto pelo uso da testosterona em altas doses quanto por fator genético.

 

Mas tem também a questão da insulina. Você via cortes, mensagens e vídeos falando: “Ah, eu não marquei o meu exame porque tenho medo do resultado”. “Ah, tenho medo do médico falar  que  não posso fazer isso”. Então, acaba que você assume um risco. A gente fica naquela: “Aconteceu ali na esquina, mas comigo não vai acontecer”. E não é bem assim.

 

MidiaNews – Acredita que os jovens estão começando a usar os hormônios anabolizantes cedo demais, talvez por normalização desse comportamento, principalmente pelas redes sociais?

 

Leandro Nascimento – Sim, e também pela busca de aceitação. Eu ouvia muito isso de professores, que as pessoas buscam um meio para estar junto. Quando a gente é jovem, tem nosso ciclo de amizade. Você vai crescendo, todo mundo vai se direcionando e tem pessoas que meio que se perdem.

 

Nesse ponto, é ideal ter alguém ali para estar direcionando. Quando você entra numa academia, olha para uma pessoa e fala: “Pô, aquele cara ali tem um físico legal”. Só que ele não enxerga o que aquela pessoa passou, o quanto ela treinou para chegar naquele físico. 

 

Não adianta querer colocar a carroça na frente dos bois. Tem que ter paciência. Não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona. Não é quem chega primeiro, é quem chega melhor. O esporte é bacana e é o que gosto de fazer. Mas tenho uma família, tenho esposa, tenho casa para cuidar, tem criança em casa.

 

É um sonho, só que tem outras coisas que são mais importantes. As pessoas têm que ter isso em mente. O físico legal é top, mas tem que estar bonito por fora e bom por dentro. Senão, é uma bomba-relógio. Você não sabe o que pode acontecer. Você pode deitar e não acordar.

 

 

 

MidiaNews – Como educador físico, o que poderia dizer para os jovens que estão dispostos a usar anabolizante e a pagar o preço que for?

 

Tem que ter, no mínimo, cuidado consigo mesmo. Porque ter um físico bacana é legal, mas isso tudo é passageiro. Isso aqui vai passar. E aí você quer viver bem e muito ou quer viver pouco?

Leandro Nascimento – Primeiramente, buscar orientação de um profissional que possa realmente te orientar de forma coerente. Fazer toda uma base de exames, fazer um estudo, porque às vezes você tem ali algo na sua família que nem sabe. Às vezes, as gerações passadas não tinham o aporte financeiro e o conhecimento que têm hoje de fazer um check-up anual, de saber como está essa questão de hormônio, de órgãos, enfim.

 

Tem que ter, no mínimo, cuidado consigo mesmo. Porque ter um físico bacana é legal, mas isso tudo é passageiro. Isso aqui vai passar. E aí você quer viver bem e muito ou quer viver pouco? Vai muito do que o indivíduo está buscando. Mas, basicamente, tem que ter pessoas que pensem da melhor forma e que queiram te cuidar. Porque, em todo lugar, vai ter açougueiro, gente que só quer vender, e a pessoa só está ligando para o dinheiro.

 

E ainda paro, de vez em quando, para conversar com amigos, com atletas, e vejo que não sei nada. Porque você vai ouvindo coisas e fala: “Cara, nem sabia que essa substância existia. Eu nem sabia que isso aqui era para isso”. E os caras já estão anos luz na frente. É estudo em cima de estudo, é droga em cima de droga.

 

E se você não parar para analisar o que está fazendo com o seu corpo, o que está colocando nele, está assumindo um risco. Você está brincando de roleta-russa. Pode ser que uma hora você aperte o gatilho e a bala esteja lá na ponta da agulha. E aí é o fim. Não tem segunda chance.

 

MidiaNews – O Gabriel Ganley ficou muito famoso nas redes sociais principalmente porque falava abertamente sobre os protocolos dele de hormonização. Acha que existe muita diferença entre o que os influenciadores divulgam e o que os atletas de fato fazem?

 

Leandro Nascimento – Existe muita diferença, porque existe um mercado por trás disso. Nem todo atleta de alto rendimento fala abertamente sobre isso. Existem cláusulas de contratos, porque isso traz mais malefício para imagem do atleta do que benefício. Se você quiser, pode falar o que todo mundo quer ouvir. Agora, se quer ser uma pessoa coerente e passar o real conhecimento, vai ser honesto e vai ser franco. Vai falar o que pode ser falado. Nem tudo vai abrir. Mas, às vezes, para você vender, vai falar coisas, faz coisas que talvez nem queira e vai pagar o preço.

 

 

 

MidiaNews – O uso da insulina repercutiu com esse caso do Ganley e surgiu como um hormônio novo que as pessoas não sabiam que era utilizado como anabolizante pelos fisiculturistas. Qual é a função dela?

 

Leandro Nascimento – Ela trabalha com a parte da glicose sanguínea. Você faz a aplicação dela e ela já automaticamente vem puxando a glicose do sangue para dentro do músculo. Aí dá aquele pump, o músculo enche. Geralmente fazem uso em carb up, que é o dia pré-campeonato. Você vem depredado, vem uma semana de zero carbo, baixa água, aumenta água.

 

Falta de informação não é, porque informação tem. Antigamente tinha muito menos e você não ouvia tantos casos de abuso igual tem hoje

O músculo está “flat”, está depredado. E aí a pessoa faz o uso da insulina para o músculo puxar mais rápido o nutriente que está entrando para dentro do músculo. Ela trabalha dessa forma. Tem a insulina de ação rápida e de ação lenta. Agora que está mais no auge.

 

Já tive relatos de amigos que já fizeram uso também. Ela trabalha dessa forma: tira a glicose do sangue e joga pra dentro do músculo. Por isso a importância de ter alguém junto e um aporte de quem conhece do assunto e da substância, no caso, pra ter o timing certo pra pessoa estar comendo.

 

MidiaNews – Todo esporte de alto rendimento é prejudicial à saúde. Isso aí é amplamente divulgado. Até mesmo o fisiculturismo natural traz certo desequilíbrio para o organismo dos atletas. Acredita que o esporte sofre com desinformação ou é justamente a falta de abertura de falar sobre o assunto que gera preconceito de que não é do meio?

 

Leandro Nascimento – Falta de informação não é, porque informação tem. Antigamente tinha muito menos e você não ouvia tantos casos de abuso igual tem hoje. Eu acho que é a ânsia por estar num estágio que não é o daquele momento. É igual você plantar uma árvore. Vai plantá-la e vai regar todo dia um pouquinho. Ela vai crescer, mas precisa de quê? De tempo, de maturação. Não vai ver um pé de manga que plantou ontem dando fruto amanhã. É tempo. E hoje a nossa geração é uma geração sem paciência.

 

Eu treino há mais de 15 anos. Me envolvi no esporte de forma a fundo, de verdade, há quatro anos. Em quatro anos, competi cinco vezes.  Você vai crescendo, vai entendendo e se reconhecendo. Tem muita informação, mas nem todo mundo acha que o telhado de vidro do vizinho também é o dele. A gente tem que entender que essas coisas podem acontecer com qualquer um.

 

O mínimo que se deve fazer é, como a gente já falou várias vezes, ter pessoas adequadas para te orientar de forma correta. Porque não tem segunda chance. É um esporte de alto rendimento e, nesse esporte de alto rendimento, o físico é levado ao extremo. Se você quer chegar lá e dar o seu melhor, você tem que fazer todo dia.

 

MidiaNews – E como um profissional de Educação Física enxerga os limites éticos desse universo do fisiculturismo?

 

Leandro Nascimento – É complicado. Vai ter pessoas que vão estar dispostas a qualquer coisa para ter o resultado X e já tem outros tipos de atletas que entendem que têm outras pessoas que dependem deles. Quando a pessoa é sozinha, ela não está nem aí. Mas, quando você tem uma base, família, esposa, marido, filhos, não pode se colocar na frente de tudo isso. Eu sou muito aberto com a minha base, com a minha família, converso muito. Minha mãe é muito preocupada, meu pai me manda mensagem todo dia. Minha esposa sabe tudo o que faço, o que deixo de fazer.

 

É tudo em panos limpos em casa. O núcleo faz muita diferença. Quando você tem pessoas que acreditam no que você está fazendo, entendem que está tentando fazer da forma correta, é diferente. Da mesma forma, tem pessoas que acham que nunca vai dar nada. Jovens inconsequentes. Mas pode acontecer com qualquer um.

 

 

 

MidiaNews – Casos de morte como o desse influenciador, ou complicações graves, fazem a categoria refletir ou acredita que em pouco tempo isso vai ser esquecido?

 

Era para fazer refletir. Espero que faça. Atletas que têm consciência, que fazem parte de algo maior, vão refletir. Mas sempre vai ter aquele núcleo, mais uma vez, que pensa: “Comigo não vai acontecer”

Leandro Nascimento – Era para fazer refletir. Espero que faça. Atletas que têm consciência, que fazem parte de algo maior, vão refletir. Mas sempre vai ter aquele núcleo, mais uma vez, que pensa: “Comigo não vai acontecer”. É igual aquele cara que bebe e fala: “Não, mas quando eu bebo fico melhor no volante”.

 

Tem pessoas que estão dispostas a qualquer coisa e tem pessoas que já pensam no outro, no próximo, no bem ou no mal que vão causar. Eu até vi uma notícia de uma deputada, acho que do Rio Grande do Sul, querendo fazer a “Lei Ganley”, querendo proibir [o uso de hormônios esteroides] Como que você vai proibir o que já é proibido?

 

Os hormônios em si não são de fácil acesso. Não é abertamente comercializado. Você não vai numa farmácia e fala pro farmacêutico: “Pô, me vê uma trembolona”. Era um meio mais fechado, mas com a vinda da internet, das redes sociais, a caixa se abriu. E nem todo mundo tem cabeça e consciência pra fazer parte, porque as pessoas são inconsequentes. O cara já está sobrecarregando rim, fígado, aí pra acabar de regaçar ele manda uma vodka por cima pra dar mais uma baqueada no fígado.

 

Existe muito fórum aí que não vale de nada. Você vê os caras falando abertamente que tomavam sei lá quantos miligramas de testosterona, sei lá quantos miligramas de trembolona. O corpo está todo estourado de espinha, não tem mais um fio de cabelo na cabeça, mas fala: “Não. Tô de boa. Não tem colateral nenhum”. Só você que não tá vendo.

 

MidiaNews – Acredita que há um futuro no fisiculturismo sem hormonização?

 

Leandro Nascimento – Já tem a categoria. Agora, se vai vingar no âmbito de competir com o esporte hormonizado, acho que não chamaria a mesma atenção. É a mesma coisa de você pegar uma Ferrari e colocar para competir com um Gol bola. Você acha que chamaria atenção? Para o esporte de alto rendimento, ele se faz presente. Não teria o mesmo público assistindo, a mesma plateia, não teria o mesmo investimento. Sinceramente, não.

 

Mas é um esporte maravilhoso você trabalhar com o seu próprio físico. Eu acho que quem quer iniciar no esporte tem que entender que é um esporte de paciência, resiliência e persistência. Não é chegar rápido. É chegar e chegar bem. Porque é uma fase, vai passar. Todo esporte de alto rendimento tem seus riscos, mas um atleta de futebol vai aposentar com seus 40 anos e vai continuar a vida dele. Talvez com uma lesão no joelho, mas vai estar vivo. Na natação também tem muito uso de hormônio, mas ele vai estar bem, vai estar vivo. E no fisiculturismo? Como você quer chegar com seus 60, 70, 80?

   

Então, se cuide, se resguarde, estude, se aproxime muito de Deus também, porque é importante ter Deus na frente de tudo na vida. O esporte premia quem tem paciência e quem é persistente. E, se você tem um sonho, se o seu sonho vale a pena, se vê que tem potencial, procure pessoas que tenham conhecimento e se estruture. Não vá na ideia de qualquer um, não saia tomando qualquer coisa. Estude até sobre o que está comendo, como isso vai agir no seu corpo. Basicamente é isso.

 

Assista a íntegra:

 

FONTE: MIDIA NEWS

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