O golpe conhecido como “mata-leão” era um método de contenção considerado comum dentro da clínica terapêutica onde morreu Alessandro Sidinei Braga, de 38 anos, em Cuiabá. A informação foi revelada pelo delegado da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Michael Paes, durante entrevista concedida nessa segunda-feira (1º).
Segundo o delegado, os relatos colhidos durante a investigação indicam que a técnica era utilizada com frequência para conter internos em “situação de surto”. O funcionário Odiley Rodrigues de Souza, de 44 anos, foi preso em flagrante por homicídio doloso e fraude processual. Segundo Paes, ele nega ter aplicado o golpe na vítima, embora tenha admitido ter forjado a cena para simular um suicídio.
Montagem
O delegado da DHPP, Michael Paes, e Odiley Rodrigues de Souza
“Durante as entrevistas, as pessoas que a gente ouviu também, ficou muito claro que o método utilizado por ele [Odiley] na clínica, é, essa contenção: ‘a primeira coisa que a gente faz é dar um mata-leão ali, pra desmaiar a pessoa”. Ficou claro, as pessoas que a gente conseguiu ouvir [disseram]: ‘não, é normal isso’, apesar que ele [Odiley] fala aqui, no interrogatório, que eles não são autorizados a fazer isso – com certeza eu sei que eles não são – mas que é feito é ”, afirmou Michael Paes.
De acordo com a investigação, Alessandro realizava tratamento para controle da esquizofrenia na unidade. Na madrugada de domingo (31), ele apresentou um surto psicótico e precisou ser contido. Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio por enforcamento, mas inconsistências identificadas pela Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) levaram a Polícia Civil a aprofundar as apurações. As evidências reunidas até o momento apontam Odiley como principal suspeito pela morte.
Conforme publicado pelo
, o Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) emitiu uma nota sobre o caso, declarando que não encontrou o registro da clínica em seu banco de dados. Questionado sobre a legalidade do estabelecimento, o delegado afirmou que, embora a análise documental da instituição ainda não tenha sido concluída, não acredita que o local funcione de forma clandestina. Isso porque, segundo relato do próprio gerente do estabelecimento, a clínica mantinha convênios com prefeituras de Mato Grosso para receber pacientes encaminhados pelos municípios.
“Eu não acredito que seja uma clínica clandestina, porque o próprio gerente me relatou que prefeituras do estado têm convênio lá (…). Eu não sei qual prefeitura, se é a daqui, se é a [cidade] vizinha, elas internam pessoas lá e pagam por isso. Então a gente presume que, se a prefeitura faz esse tipo de tratamento com uma clínica dessa, ela não é uma clínica clandestina, pelo menos do ponto de vista do papel”, disse o delegado.
Apesar disso, Michael Paes destacou que a realidade encontrada pela equipe policial no local levantou questionamentos sobre o funcionamento da unidade. Segundo ele, não foram identificados profissionais da área da saúde durante a operação. Além disso, a clínica terapêutica tinha um “quarto da punição”, onde os “pacientes que davam problema” ficavam trancados à noite.
“Não tinha ninguém da área da saúde. A gente não viu enfermeira, psicólogo, assistente social ou terapeuta. O preso [Odiley] era, segundo ele próprio e o gerente, um ex-interno que havia sido paciente e agora era responsável por mais de 50 pessoas na clínica”, relatou Paes.
A Polícia Civil informou que os órgãos responsáveis pela fiscalização serão acionados para verificar se a instituição operava de acordo com as normas técnicas exigidas para esse tipo de atendimento.
Ainda segundo o delegado, o inquérito segue em andamento e aguarda a conclusão dos laudos periciais, que deverão esclarecer a dinâmica da morte e eventual participação de outras pessoas no caso.
O caso
Em interrogatório, Odiley confessou ter forjado a cena do crime e admitiu que solicitou a uma testemunha, também interno e aparente funcionário, que confirmasse a falsa narrativa. A testemunha, por sua vez, negou a versão e manifestou temor por sua integridade física, receando represálias do autor.
Com base nas entrevistas, na confissão da fraude e na preliminar das periciais, a Polícia Civil chegou à provável dinâmica dos fatos. De acordo com a Polícia, durante a madrugada do domingo (31), Odiley conteve a vítima, que estava alterada, mediante aplicação de um golpe “mata-leão” ou até mesmo com a corda levada para amarrá-la, e depois a amarrou com os braços para trás.
Após a contenção, trancou Alessandro no quarto com outros internos e não mais retornou para verificar seu estado, encontrando-o morto somente pela manhã. Ainda é apurado se o funcionário teve ajuda de alguém.
A conclusão preliminar da polícia é de que Odiley foi o provável autor direto do enforcamento que vitimou Alessandro, utilizando a corda que estava sob seu domínio exclusivo.
Em linha subsidiária, ainda que não tenha executado diretamente a ação de apertar o laço, o investigado, na qualidade de garantidor da integridade do interno (art. 13, §2º, do Código Penal), assumiu o risco do resultado morte ao abandonar a vítima completamente imobilizada e indefesa.
“Aguarda-se, agora, a conclusão dos laudos periciais definitivos, em especial os exames de necropsia, local e local de crime, para que se possa confirmar ou até melhorar a dinâmica dos acontecimentos, bem como estabelecer, com maior precisão técnica, o exato mecanismo do óbito e a efetiva participação do autuado, e até outros envolvidos, na consumação do homicídio”, afirmou o delegado Michael Paes.
Odiley foi conduzido à DHPP, onde foi autuado em flagrante por homicídio doloso consumado e fraude processual.
A autoridade policial representou pela conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, considerando a gravidade concreta da conduta e o risco de obstrução da instrução criminal, evidenciado pela tentativa de forjar o suicídio e coagir testemunhas.
O inquérito policial segue em andamento para a completa elucidação dos fatos, sendo que as investigações prosseguem, inclusive, para apurar a possível participação de terceiros.
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FONTE: RDNEWS







