“IA prejudica muito a ufologia; Mato Grosso é cheio de mistérios”

A discussão sobre Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs) voltou a ganhar força nos últimos meses, impulsionada por supostos registros divulgados nas redes sociais e pela liberação de documentos antes sigilosos por governos estrangeiros.

 

Em meio à nova onda de interesse sobre a possibilidade de vida extraterrestre, Mato Grosso retorna ao centro do debate por reunir alguns dos casos mais emblemáticos da ufologia brasileira.

 

Mato Grosso é um dos estados mais significativos do Brasil e, diria, do mundo

Segundo o ufólogo Ataíde Ferreira da Silva Neto, sócio-fundador e presidente da Associação Mato-grossense de Pesquisas Ufológicas e Psíquicas (AMPUP), entidade que reúne pesquisadores dedicados à investigação de relatos e evidências sobre OVNIs e possíveis inteligências não humanas, o estado concentra alguns dos principais registros históricos do país, incluindo o primeiro relato publicado pela imprensa brasileira.

 

“Mato Grosso é um dos estados mais significativos do Brasil e, diria, do mundo. Para se ter uma ideia, o primeiro registro da imprensa brasileira sobre objetos voadores não identificados — o que hoje chamamos de disco voador — foi feito aqui, em Cuiabá, por Augusto Leverger”, afirmou.

 

Ao mesmo tempo em que o interesse pelo tema cresce, a ufologia enfrenta um novo desafio: o avanço da Inteligência Artificial (IA). Para Ataíde, a tecnologia ampliou as possibilidades de investigação, mas também facilitou a produção de imagens e vídeos falsos, tornando mais difícil distinguir registros autênticos de montagens.

 

Se, por um lado, equipamentos modernos permitem monitorar áreas remotas, como regiões do Pantanal e da Amazônia, por outro, a popularização da IA passou a exigir um trabalho ainda mais criterioso dos pesquisadores.

 

 

“As pessoas estão produzindo imagens com a alegação fantasiosa, e isso prejudica muito a ufologia, porque fica mais complexo você separar o joio do trigo, saber até que ponto é real e até que ponto não é real”, disse. 

 

Segundo ele, o excesso de conteúdos fabricados faz com que todo material recebido precise passar por análises rigorosas antes de ser considerado relevante. 

 

Apesar disso, o pesquisador avaliou que a ufologia vive um dos momentos de maior visibilidade das últimas décadas, impulsionada principalmente pela divulgação gradual de documentos oficiais sobre o fenômeno por grandes potências, especialmente os Estados Unidos.

 

Segundo ele, esse movimento incentiva outros países a seguirem o mesmo caminho e desperta a curiosidade da população. 

 

O pesquisador ressaltou que o Brasil teve papel pioneiro nesse processo ao reunir pesquisadores civis e integrantes das Forças Armadas na produção de documentos oficiais sobre o fenômeno. Mais de 5.500 páginas foram oficializadas e hoje estão disponíveis na Biblioteca Nacional.

 

 

Regiões de MT concentram relatos históricos

 

O ufólogo afirmou que a importância de Mato Grosso para a ufologia começou a ser registrada ainda no século XIX. Segundo ele, o primeiro relato publicado pela imprensa brasileira sobre um OVNI ocorreu em Cuiabá, durante uma viagem de Augusto Leverger pelo Rio Cuiabá rumo ao Paraguai.

 

Nós temos a Chapada dos Guimarães e essa cadeia de montanhas parece mágica, cheia de mistérios

Conforme descreve o pesquisador, o militar observou um objeto luminoso de grandes proporções sobrevoando a embarcação onde estava. Em seguida, o objeto teria se dividido em três partes e realizado movimentos considerados incomuns. O episódio foi publicado na Gazeta Oficial do Império do Brasil, em 26 de novembro de 1846, tornando-se um dos registros históricos mais importantes da ufologia nacional.

 

Para Ataíde, esse caso foi apenas o início de uma sequência de relatos que atravessou gerações em Mato Grosso. Ele citou narrativas preservadas por povos indígenas, além de lendas populares que, na visão de pesquisadores da área, ajudam a compreender a dimensão histórica do fenômeno no estado.

 

Outro ponto destacado pelo pesquisador é Barra do Garças, município que ganhou notoriedade nacional após a construção do Discoporto, na década de 1990. Segundo ele, o projeto foi aprovado por unanimidade como uma estratégia para divulgar a cidade e, desde então, transformou a região em referência para pesquisadores, curiosos e produções sobre ufologia.

 

“Esse Discoporto ganhou o mundo e até hoje pessoas do mundo inteiro vêm fazer documentários, matérias para falar dos mistérios que acontecem em volta a Barra do Garças, Serra do Roncador e toda aquela região”.

 

 

Além de Barra do Garças e da Serra do Roncador, Ataíde afirmou que Chapada dos Guimarães, Nobres, Tesouro e Nova Brasilândia também concentram uma grande quantidade de relatos envolvendo objetos voadores não identificados. Para ele, a extensa cadeia de serras e montanhas que corta Mato Grosso reúne histórias que continuam despertando o interesse de pesquisadores.

 

“Nós temos uma cadeia de montanhas e serras que agrega esses mistérios. Nós temos a Chapada dos Guimarães, os paredões, que pega Nobres com muitos relatos, muitos contos, testemunhos. E essa cadeia de montanhas parece mágica, cheia de mistérios”, disse.

 

Influência das redes sociais

 

Ataíde afirmou que o aumento da repercussão em torno dos OVNIs também fez crescer o número de vídeos e relatos enviados aos pesquisadores. No entanto, ele ponderou que nem todo material compartilhado nas redes sociais representa, de fato, um fenômeno sem explicação.

 

Segundo o pesquisador, cada registro recebido passa por uma análise técnica antes de ser levado adiante. Quando necessário, as imagens são encaminhadas a especialistas em perícia de fotografias e filmagens para verificar se há alguma explicação conhecida para o caso.

 

Para Ataíde Ferreira, a popularização do tema nas redes sociais também abriu espaço para conteúdos produzidos apenas para gerar repercussão. Como exemplo, ele citou o caso recente de um influenciador de São Paulo que viralizou após afirmar ter registrado um suposto objeto voador não identificado.

 

 

Segundo ele, o episódio chegou a despertar o interesse de pesquisadores, mas foi descartado após análises realizadas por especialistas.

 

“Eu fui um dos que foi induzido, mas depois, através de análises, pesquisadores viram que ali não era real”, afirmou. 

 

“Foi uma grande alavanca midiática para o influenciador, que, inclusive, se alterava com muita facilidade. Em algumas ocasiões, quando pesquisadores iam ao local para investigar o fenômeno, ele os expulsava aos gritos. Isso acabou provocando certo desconforto, porque os pesquisadores queriam entender a realidade daquele fenômeno”, acrescentou.

 

Isso desconsidera a realidade do fenômeno? Não, mas atrapalha, incomoda

O pesquisador afirmou que a situação acabou trazendo prejuízos para quem atua seriamente na área, já que reforçou a descrença de parte da população em relação aos estudos ufológicos.

 

“Isso desconsidera a realidade do fenômeno? Não, mas atrapalha, incomoda, faz as pessoas continuarem o deboche, levar para o desdém algumas realidades do fenômeno, lamentavelmente”, afirmou. 

 

Outro fator que, segundo ele, tem provocado confusão, é a presença cada vez maior de satélites em órbita.

 

Para ele, esse cenário reforça a necessidade de cautela antes de transformar qualquer registro em evidência de um fenômeno extraordinário.

 

Preconceitos e mitos acerca da ufologia 

 

Além da repercussão nas redes sociais, Ataíde avaliou que a divulgação de novos documentos pelo Arquivo Nacional e por órgãos internacionais fortalece o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores. 

 

Segundo o ufólogo, a publicação de relatos oficiais ajuda a reduzir o preconceito em torno do tema e incentiva novas investigações.

 

“Isso nos estimula e faz com que a gente lute mais para admitirem essa realidade, porque ela já está escancarada, ela já está oficializada”, afirmou. 

 

Apesar do momento favorável para a ufologia, Ataíde defende que o tema ainda precisa ser tratado com responsabilidade para evitar que teorias sem embasamento científico prejudiquem pesquisas sérias.

 

Segundo ele, a temática é convidativa para imaginação e fantasias, podendo atrair histórias inventadas com o objetivo de desmerecer o tema ou se aproveitar de pessoas que acreditam em vidas extraterrestres, mas não tem embasamento científico. 

 

 

“Tem pessoas que vendem terreno, por exemplo, dizendo que ali é um lugar que é visitado por seres extraterrestres e você tem que comprar esse terreno porque vai ser salvo por eles quando tiver o cataclismo”, exemplificou.

 

“As pessoas usam muito da temática para lubridiar, para fortalecer fantasias e receber dinheiro por aquilo”, acrescentou. 

 

Para o presidente da AMPUP, a criação de uma atuação conjunta entre pesquisadores civis e órgãos governamentais poderia impulsionar os estudos sobre o tema no Brasil de forma responsável. 

A ausência de uma investigação científica oficial atrapalha muito, o tema é tratado com desconsideração

“Os órgãos oficiais do Brasil deveriam juntar forças com os pesquisadores da ufologia para que esses acontecimentos sejam estudados”, afirmou. 

 

Na avaliação dele, a ausência dessa integração pode atrasar o desenvolvimento das pesquisas.

 

“A ausência de uma investigação científica oficial atrapalha muito, o tema é tratado com desconsideração, enquanto muitos outros países estão abraçando com muito carinho. É fundamental apoiar essa iniciativa”, concluiu. 

 

Contato

 

Interessados em ufologia na região de Mato Grosso podem se aprofundar mais no tema com encontros e discussões que ocorrem periodicamente na região central de Várzea Grande, promovidas pela AMPUP. 

 

O grupo disponibiliza museu, biblioteca e grupos de estudo. Interessados podem entrar em contato pelo número 65 99753436. 

 

FONTE: MIDIA NEWS

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