segunda-feira, agosto 3, 2026

Artista de Tatuí lança disco de músicas feitas com amigo que morreu aos 22 anos: 'Que ele se sinta honrado'

Artista de Tatuí lança disco de músicas feitas com amigo


Cantor lança álbum em conjunto com artista que morreu por suposta negligência médica
A palavra amizade, segundo o dicionário, é definida como um sentimento de afeto e que acontece de forma recíproca. No entanto, a verdadeira amizade, por muitas vezes, vai além das palavras, dos gestos de carinho e da própria vida. Ela transforma amigos em família e cria laços tão profundos que nem mesmo a morte é capaz de romper.
Um exemplo disso é a amizade construída entre o artista Igor Perez, de Tatuí (SP), e Kaio Alexandre dos Santos, que morreu aos 22 anos, em dezembro de 2025, após uma suposta negligência médica na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade. Os dois se aproximaram pela grande vocação e pela afinidade cultural que compartilhavam: a música.
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Kaião – como era conhecido – formava com Igor o duo musical ZK2, que ainda não havia lançado nenhum álbum. Para celebrar o 23º aniversário do amigo, Igor decidiu organizar o lançamento do primeiro disco da dupla, reunindo as composições autorais que eles criaram juntos. O trabalho foi apresentado ao público no domingo (2).
Kaio e Igor formavam um duo, o ZK2
Divulgação
Ao g1, Igor compartilha que comentar sobre Kaio ainda é difícil, e que ambos tinham diferentes perspectivas sobre como a amizade começou. Igor diz que reparou no amigo pela primeira vez ao vê-lo cantando em uma companhia de arte que participavam juntos.
“Eu era recém-chegado na música, estava precisando de um dinheiro e, por isso, entrei na companhia. Foi assim que descobri o Kaio cantando. Ele, além de ator, era uma pessoa que cantava muito nas cenas. Um dia, levei o violão e ele pediu para cantar umas músicas junto com ele”, relembra.
Foi por meio das notas do instrumento e dos vocais harmonizados que a dupla percebeu que a conexão ia além da música: além de combinarem como artistas, também tinham uma forte sintonia como pessoas. A parceria era tão evidente que, no dia a dia, amigos e conhecidos chegaram a perguntar se Kaio e Igor eram irmãos.
“Percebemos que cantávamos bem juntos, mas nada muito específico. Nós não tínhamos feito nada muito interessante até então, mas nós começamos a andar muito juntos. Por causa da companhia, nós pensávamos nas cenas, nas músicas e nas composições. Tudo aconteceu naturalmente”, detalha.
Kaio e Igor, além de parceiros musicais, eram grandes amigos
Divulgação
Segundo o cantor, a ideia de formar o ZK2 surgiu de Kaio. De início, Igor não entendeu muito bem a proposta, mas confessa que foi aceitando a formação de jeito totalmente natural.
“Ele chegou em mim e disse ‘amigo, nós deveríamos assumir de uma vez que somos uma parada musical’. Eu não entendi o que ele queria dizer logo de cara, achei que era até o termo que ficava escrito na nossa conta nas redes sociais. Aceitei muito naturalmente, como se fosse para ser”, comenta.
No mesmo dia, os integrantes do ZK2 se juntaram para compor a primeira música da carreira, intitulada “Refogaziar”. Além de presente na lista de faixas do EP “Diamuleto”, Igor explica que propositalmente ambas as palavras não existem, o que fazia parte da identidade cultural da dupla.
“O álbum é nós tentando explicar quem somos, quais são as nossas histórias e o porquê de estarmos fazendo isso. Ele é bem misturado, mas a intenção é contar uma história. Eu e o Kaio tínhamos uma ‘pira’ de inventarmos palavras. Por isso que se chama ‘Diamuleto’, ‘Refogaziar’. O disco é sobre nossos devaneios e como a nossa amizade foi construída em cima dessa ‘coisa'”, revela.
‘Diamuleto’ será lançado em homenagem ao 23º aniversário de Kaio
Divulgação
“Kaio viu uma entrevista da Beyoncé dizendo que, atualmente, as pessoas não contam mais histórias nos discos. E foi exatamente o que ele quis fazer, contando sobre como viramos amigos. Todas as músicas são traduções do que imaginávamos da nossa amizade. Todas as conversas sobre amor, dificuldades, o que queríamos da vida, o porquê de querermos ganhar dinheiro com música”, completa.
Igor explica que, ao todo, “Diamuleto” levou cerca de dois anos para ser finalizado. O lançamento do disco estava previsto para janeiro deste ano, mas foi adiado após a morte precoce de Kaio. A nova data escolhida, 2 de agosto, tem um significado especial: é o dia em que o músico completaria 23 anos.
“Escolhi essa data porque ia ser muito difícil passar pelo aniversário do Kaio sem fazer nada. Como não tinha a mínima condição de lançar o trabalho aleatoriamente ou ‘somente’ depois da morte dele, eu resolvi passar pela dor um pouco mais quieto. Lançar o álbum no aniversário dele é uma homenagem, mas não totalmente por ele, um pouco por mim. É uma data muito difícil e eu quis ter esse carinho comigo mesmo, dedicando esse álbum para ele.”
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O trabalho, de acordo com o cantor, pode ser descrito como uma “aventura entre gêneros”. Como duo, Igor explica que rótulos não faziam parte da identidade musical do ZK2, aproveitando, assim, do experimentalismo.
“Não buscávamos um estilo sonoro. Gostávamos de dissonância, de acordes não muito óbvios. A gente deixa claro que é um som cavado, fixo e com ideias, mas ainda não nomeávamos, justamente para as pessoas poderem ouvir e decidir. A música era para ser das pessoas. Tem samba, groove, soul, bossa nova, de tudo um pouco. Nós nos demos ao direito de experimentar”, descreve.
Kaio e Igor produziram o disco ‘Diamuleto’
Divulgação
Durante a entrevista ao g1, Igor explica que o lançamento do disco marca o começo oficial e, ao mesmo tempo, o fim do ZK2. Na visão do artista, tudo é sobre “começo, meio e começo”.
“Agora que o Kaio faleceu, eu começo e termino a carreira do ZK2. Não por não querer ficar ligado a isso. Na verdade, pretendo manter tudo que ganhei, mas tudo funcionava como duo. Não sei quais serão os próximos passos, mas é uma visão que Nêgo Bispo falava: ‘começo, meio e começo’. É uma coisa cíclica”, opina.
“Kaio teve um trabalho de abrir caminhos na minha vida. Ele significa, para mim, a continuidade das coisas e de continuar fazendo-as. Estou fazendo um curso que ele me incentivou a me matricular. Kaio está sendo o meu norte de vida. Como amigo e parceiro, espero que ele se sinta honrado”, finaliza.
Morte está sendo investigada
Kaio Alexandre dos Santos, de 22 anos, atuava e estudava
Redes Sociais/Reprodução
A Prefeitura de Tatuí informou que apura o atendimento prestado ao ator Kaio Alexandre, de 22 anos, que morreu no dia 24 de dezembro após procurar duas vezes a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do município. O caso também está sendo investigado pela Polícia Civil.
Segundo a família, o jovem buscou atendimento nos dias 21 e 23 de dezembro, foi liberado em ambas as ocasiões e morreu dois dias depois. Os parentes alegam negligência médica.
Ao g1, a prima do ator, Ágata Lopes, contou à época que o jovem não tinha histórico de problemas de saúde. “Ele sentiu muita dor no peito e dificuldade para respirar no dia 21 e decidiu ir à UPA buscar atendimento. Disseram ao Kaio que ele estava somente com uma crise de ansiedade, não fizeram exames e mandaram ele ir para casa. Os sintomas persistiram”, diz.
Kaio morreu na véspera de Natal
Reprodução/Instagram
Por conta disso, o jovem decidiu retornar à unidade no dia 23 e, desta vez, passou por uma bateria de exames. Segundo a familiar, todos os resultados foram negativos.
“Kaio fez exames para Covid-19, dengue e um eletrocardiograma. Nenhum deles apontou algo. Como prevenção, foi passada uma ‘bombinha’ de bronquite para ele, mesmo sem ter nenhuma doença respiratória. Ele foi mandado para casa novamente e no dia 25 de dezembro ele morreu”, lamenta.
Posteriormente, Ágata alega que uma médica disse que a medicação para bronquite havia sido prescrita a Kaio de forma errônea. A causa da morte do jovem foi assinada pelo médico responsável como desconhecida.
“Até o momento, não tem algo que aponte a causa da morte do meu primo. Foi falado apenas que ele teve uma parada cardíaca. O corpo não foi levado ao Instituto Médico Legal e, até o momento, não teve nenhum exame necroscópico”, alega.
À reportagem, a parente afirma que toda a família está muito abalada com a morte de Kaio. De acordo com ela, o jovem era descrito frequentemente pelas pessoas como “o talento da família”.
“A vida do Kaio era cantar e atuar. Ele trabalhava no Conservatório de Tatuí e estava ansioso para começar a faculdade na USP ano que vem. Foi uma pessoa muito querida por todos que viviam com ele”, pontua.
O corpo de Kaio Alexandre foi sepultado no Cemitério São João Batista, na tarde de Natal.
Funcionários de UPA de Tatuí sofrem com a falta de salários desde abril
TV TEM/Reprodução
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FONTE: Lapada Lapada

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