Último a depor no primeiro dia de julgamento do trio suspeito de arquitetar e executar o assassinato do advogado Roberto Zampieri, morto em 2023, o delegado da Polícia Civil de Mato Grosso, Edison Pick ,deu detalhes sobre o processo de investigação sobre os autores e mandantes do crime. A oitiva do policial, inclusive, resultou em confrontos acalorados entre representantes do Ministério Público de Mato Grosso e da defesa de um dos réus, que relatou uma suposta tortura contra Antônio Gomes da Silva, autor dos disparos que mataram o jurista.
Roberto Zampieri foi assassinado na noite do dia 5 de dezembro de 2023, em frente ao seu escritório no bairro Bosque da Saúde, na Capital. Ele estava dentro de uma picape Fiat Toro quando foi atingido pelo executor com diversos tiros de pistola calibre 9 milímetros.
O atirador, identificado como Antônio Gomes da Silva, de 56 anos, foi preso na cidade de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte (MG). Ele é um dos réus que enfrentam o tribunal do júri.
Durante o depoimento do delegado, a advogada Sarah Quinetti questionou Pick se Caçadini teria sido torturado, o que o policial disse desconhecer. Após o questionamento, o promotor Vinicius Gahyva questionou a jurista sobre qual teria sido esta possível tortura, já que o assunto é de interesse do Ministério Público.
No entanto, o juiz interrompeu a discussão entre a defesa e a acusação. Na oitiva, a advogada questionou o delegado sobre a prisão de um homem, identificado como Halker Cristian Rodrigues de Sampaio, preso em flagrante no dia 8 de dezembro de 2023, dias após o crime, no Shopping Três Américas, tendo inclusive atirado por acidente na própria perna.
O suspeito foi preso pelos crimes de associação criminosa armada, posse de munição e posse de arma artesanal, além de posse de drogas para consumo pessoal. Ele foi detido com uma pistola calibre 9 milímetros, uma granada e munições.
Segundo a advogada, foi apontado inicialmente que ele teria características físicas semelhantes com as do atirador, que até então não havia sido identificado. A defesa questionou o motivo pelo qual não foi feito o confronto balístico da arma apreendida com os projéteis encontrados no local do crime.
Neste momento, houve um novo confronto entre defesa e o representante do Ministério Público de Mato Grosso (MP-MT). O promotor Vinicius Gahyva interrompeu a fala da advogada, afirmando que a jurista estaria ‘faltando com a verdade’, já que o suspeito citado por ela havia sido preso em flagrante, e não por conta de um mandado de prisão, conforme havia sido dito por Sarah Quinetti.
Após o debate acalorado entre a advogada e o promotor, o delegado explicou que todo projétil que estivesse incluso no banco nacional de perfil balístico, em qualquer lugar do país, seria encontrado e informado. Segundo Pick, não importa o local onde a munição foi adquirida, já que as características só são ‘impressas’ nos projéteis pelo cano do armamento, e que a definição de qual será utilizada é feita pelo perito.
Edison Ricardo Pick também apontou que pediu a extração dos dados do aparelho de telefone da empresária Maria Angélica Caixeta Gontijo, mas que não acessou o material, já que a investigação à época já estava sob o comando de seu colega, Nilson Farias. Ele apontou que foi pedida a prisão da mulher por conta de fortes indícios de sua participação no crime e que a apuração se deu para investigar se ela havia executado o advogado ou ter sido a mandante.
Segundo o delegado, foram apreendidas três armas com a empresária, todas elas de calibre 9 milímetros, semelhantes a utilizada no crime. Todas foram enviadas para perícia e todas elas testaram negativo para os projéteis encontrados no corpo de Zampieri.
No entanto, ao ser questionado pela defesa se, para a condição de mandante, esta informação faria diferença, o policial explicou que não, já que outra arma poderia ter sido utilizada. As defesas também questionaram o motivo pelo qual a Polícia Civil não aprofundou as investigações contra Maria Angélica mesmo após o produtor rural Evelci de Rossi afirmar que teria sido ameaçado por ela.
Ele disputava uma terra com a mulher, que inicialmente contratou Zampieri, mas que rompeu o contrato posteriormente, fazendo com que o advogado ‘mudasse de lado’ e passasse a defender o fazendeiro nos autos. O delegado, no entanto, afirmou que não tinha conhecimento do andamento das apurações.
Outro ponto questionado pela defesa foi o motivo da prisão de Hedilerson, sendo perguntado se a detenção se deu apenas pelo fato de Antônio Gomes da Silva ter utilizado a arma do instrutor de tiro. O delegado explicou que, além deste fato, foi detectado que ambos foram flagrados por câmeras andando juntos, ficaram no mesmo hotel e chegaram a ficar no mesmo quarto.
Os advogados do atirador também questionaram o delegado, durante o depoimento, o motivo pelo qual Antônio Gomes da Silva já carregava a caixa que, supostamente, teria sido utilizada por ele para abafar os tiros e coletar os projéteis, já que imagens mostram que ele andava com o objeto antes mesmo de ter acesso à arma de fogo utilizada no crime. Edison Pick respondeu que foi o próprio autor do crime que disse que este era o objetivo de levar o item.
Posteriormente, ao ser questionado pelo promotor sobre a caixa, o delegado afirmou que tanto a gerente do hotel, quanto os investigadores da Polícia Civil, só identificaram o uso da caixa no dia do crime.
O CASO
A sessão do novo julgamento relativo ao caso é presidida pelo juiz José Mauro Nagib Jorge, titular da 11ª Vara Criminal, Justiça Militar e Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá. Também atua na acusação, como assistente, o advogado Giovani Santin. Samuel Frungilo informou ainda que permanece em andamento uma investigação complementar para apurar a eventual participação de outros mandantes no homicídio.
De acordo com a denúncia do Ministério Público de Mato Grosso (MP-MT), as investigações identificaram uma organização criminosa estruturada, supostamente liderada pelo coronel do Exército, Etevaldo Caçadini, tendo ainda a atuação fundamental de Hedilerson Fialho Martins Barbosa, que forneceu a arma do crime. O grupo teria sido contratado pelo fazendeiro e empresário Aníbal Manoel Laurindo e a esposa dele, Elenice Ballarotti Laurindo, para executar Roberto Zampieri em razão de uma disputa patrimonial envolvendo uma fazenda avaliada em cerca de R$ 100 milhões
Durante o primeiro julgamento, no final de julho, os jurados ouviram testemunhas arroladas pelo Ministério Público e pelas defesas. Entre os depoentes estiveram os delegados da Polícia Judiciária Civil, Nilson André Farias de Oliveira e Edilson Ricardo Pick, além do delegado da Polícia Federal, Marco Bontempo. Também prestaram depoimento o amigo de Zampieri, José Marcos Marini, que presenciou o crime, além de Mariana Costa Pinto e Lucilene Gonçalves da Silva.
No entanto, ao entrar no segundo dia, ocasião em que seriam ouvidas mais algumas testemunhas, além dos três réus, o julgamento foi cancelado após um dos jurados passar mal, por conta de uma infecção viral com comprometimento pulmonar. A equipe médica do TJMT recomendou que ele fosse submetido a uma tomografia, para verificação do quadro clínico, o que resultou na dissolução do Conselho de Sentença do Tribunal do Júri.
FONTE: Folha Max
