O vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT), Giovane Santin, que atua como assistente de acusação no julgamento dos três primeiros réus pelo assassinato do advogado Roberto Zampieri, confrontou a tese construída pelos defensores de que a vítima, cujo nome foi ligado a escândalos de corrupção após o crime, “merecia” ter morrido em razão das supostas práticas ilegais junto a desembargadores e ministros. Durante a sustentação, Santin também se dirigiu diretamente à mãe de Zampieri, Louders Coelho Zampieri, que acompanhava o júri, ao falar sobre a dor de uma mãe que enterra o próprio filho. “A vida do doutor Zampieri importa”, afirmou nesta quinta-feira (1º).
Rodrigo Moura / TJMT
O assistente de acusação, Giovane Santin
Desde o início do julgamento no Tribunal do Júri de Cuiabá, que começou na terça-feira (29), os advogados – sobretudo de Antônio Gomes da Silva, apontado como executor, e do coronel do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, tido como financiador do crime – têm atuado para desqualificar a vítima, tanto no plenário quanto em entrevistas à imprensa.
Após a perícia técnica realizada no celular de Zampieri vieram à tona mensagens que desencadearam uma série de investigações contra um lobista e desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), acusados de negociarem a venda de sentenças com o advogado executado. O caso também atingiu o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e motivou a deflagração da Operação Sisamines, da Polícia Federal.
O advogado de Antônio, Nilton Ribeiro, afirmou que seu cliente atuou como um “justiceiro”, que se indignava com a corrupção e acreditava ter uma missão a cumprir por um “bem maior”. Em depoimento, Antônio chegou a dizer que Zampieri era “um corrupto” que ele “mandou para o inferno” e que, se “recebesse a missão”, o mataria novamente.
Josi Dias/TJMT
Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas
Os advogados do coronel Caçadini, Eduardo Polidorio, Jayme Rodrigues Carvalho Junior e Sarah Quinetti Pironi, mesmo alegando a inocência do cliente, também relacionaram o assassinato às investigações sobre supostas vendas de decisões judiciais e comparou Zampieri ao banqueiro Daniel Vorcaro. “A gente tem falado que é um ‘Vorcaro de Cuiabá”, declarou Sarah à imprensa na terça-feira.
Na etapa de debates, na noite desta quinta-feira, Giovane Santin classificou como covardia a desvalorização da vida da vítima e sustentou perante os familiares que “a vida de Zampieri importa”. Pela primeira vez desde o início do julgamento, a mãe do advogado, Lourdes Coelho Zampieri, a viúva, Adriana Ribeiro Garcia Bernardes Zampieri, o filho dele, de 11 anos, e a cunhada, Maria Vitória Bernardes de Oliveira, acompanharam a sessão no plenário.
“Para defender os acusados, atacou-se a vítima. Foi tudo o que nós ouvimos aqui hoje. Ao contrário do que foi dito aqui, covardemente, a vida do doutor Roberto Zampieri importa […] O seu pai foi um grande pai de família, um grande filho, um grande marido”, declarou, voltando-se para a família. “E hoje, o que eu mais quero repetir para os senhores jurados é o que eu ouvi de vocês ao longo desses anos: nós só queremos justiça”, completou, em direção ao Conselho de Sentença.
Santin argumentou que a única maneira de se justificar um assassinato pela lei é a legítima defesa. Ele ainda traçou um paralelo entre absolver os réus por causa de supostas falhas da vítima e a absolvição de um estuprador pelo fato de a vítima usar roupa curta. Para ele, uma postura “inadmissível”.
“Se a nossa legislação autoriza a morte de alguém, é em legítima defesa: matar para se defender, uma reação que existe [na lei]. Agora, alegar loucura para matar alguém… Se admitirmos a possibilidade de se cometer um homicídio como o que foi praticado, amanhã nós vamos estar autorizando que um estuprador venha aqui pedir absolvição porque a vítima estava usando uma roupa curta. Percebam: é inadmissível. Pode alguém alegar que mata outra pessoa em razão de corrupção?”, concluiu.
Relembre o crime
No dia 5 de dezembro de 2023, o advogado Roberto Zampieri deixou o escritório em que trabalhava e, ao entrar no seu veículo, um Fiat Strada, foi surpreendido pelo assassino. Os agentes policiais informaram que foram disparados cerca de 10 tiros na direção do advogado.
Nas gravações, obtidas por meio de câmeras de segurança de empreendimentos da localidade, é possível ver que o assassino cometeu o crime com o rosto descoberto, usando uma caixa para abafar o som, e que ele fugiu a pé.
Reprodução
No detalhe, a vítima Roberto Zampieri
Conforme a denúncia do Ministério Público, Etevaldo é apontado como financiador do crime; Hedilerson seria o contratante e dono da arma; e Antônio teria sido o executor do assassinato. A denúncia narra que Caçadini teria pago R$ 40 mil para Antônio executar o crime. Antônio, por sua vez, teria sido auxiliado por Hedilerson, que teria emprestado sua arma. Outras seis pessoas também supostamente envolvidas no crime aguardam julgamento.
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FONTE: RDNEWS
