Com conteúdo cada vez mais realistas, a tecnologia pode ajudar o eleitor a conhecer propostas, mas também facilitar a circulação de vídeos falsos e manipulações às vésperas da votação.
Neste 4 de outubro, o exercício da cidadania também passa pela responsabilidade digital
No próximo domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas no primeiro turno das eleições de 2026. Em uma campanha marcada pela popularização da inteligência artificial (IA), o desafio será escolher os representantes com acesso à informação de qualidade, sem se deixar enganar por conteúdos manipulados nas redes sociais.
A inteligência artificial oferece oportunidades para o processo democrático. Pode ajudar a explicar propostas, resumir programas de governo, comparar informações públicas e tornar assuntos complexos mais acessíveis. Quando utilizada com responsabilidade, também pode ampliar a divulgação de informações eleitorais e facilitar o acompanhamento da vida política.
O risco aparece quando essas ferramentas são usadas para fabricar notícias, simular declarações de candidatos ou produzir vídeos e áudios que parecem verdadeiros. Os chamados deepfakes podem atribuir falas falsas a figuras públicas e circular rapidamente, alcançando milhares de pessoas antes que a informação seja verificada.
Outro fenômeno é a criação de personagens inteiramente artificiais que publicam opiniões políticas e conquistam audiência. Sem identificação clara de que são produzidos por inteligência artificial, esses perfis podem levar o público a acreditar que está ouvindo uma pessoa real, quando, na verdade, acompanha um personagem construído para influenciar o debate.
O monitoramento realizado pelo Aláfia Lab e pela Data Privacy Brasil acompanha essas práticas no cenário político brasileiro. O aumento dos registros de uso de IA com finalidade política reforça a preocupação com a circulação de conteúdos sintéticos durante a campanha.
O período próximo à votação exige atenção redobrada. O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras para identificar conteúdos produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial e restringiu a publicação e a republicação de novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito, inclusive quando identificados como artificiais. A medida busca reduzir o impacto de manipulações no momento mais sensível da decisão eleitoral. TSE.
A existência de regras, entretanto, não elimina o problema. A fiscalização depende da identificação das irregularidades, da atuação das plataformas e da colaboração dos usuários. Além disso, nem sempre o eleitor percebe que uma imagem foi alterada ou que um áudio foi produzido artificialmente.
Por isso, antes de compartilhar uma mensagem sobre candidatos ou o funcionamento da votação, é importante verificar a origem, procurar a publicação original e consultar fontes oficiais ou veículos de comunicação confiáveis. Vídeos com apelo emocional exagerado, acusações graves sem provas e mensagens que pedem compartilhamento urgente merecem cuidado especial.
A inteligência artificial não precisa ser tratada como inimiga da democracia. Seu potencial para facilitar o acesso ao conhecimento é real, mas os benefícios dependem de transparência, uso responsável e capacidade de avaliar criticamente o que circula nas redes.
Neste 4 de outubro, o exercício da cidadania também passa pela responsabilidade digital. Votar é uma decisão individual, buscar informações confiáveis e evitar a propagação de conteúdos duvidosos ajuda a preservar a qualidade do debate público e o direito de cada eleitor de decidir com autonomia.
Widson Ovando é jornalista, bacharel em Ciência e Tecnologia (UFMT), graduado em gestão pública e pós-graduado em Ciências Políticas.
FONTE: MIDIA NEWS
