sexta-feira, outubro 16, 2026

Em Barra do Garças, as urnas deram uma lição: apoio político não é sinônimo de voto

IMG_20261016_155611

 

As eleições de 2026 deixaram um recado que deveria ser levado a sério por quem faz política em Barra do Garças: ninguém é dono do voto de ninguém. Nem prefeito, nem vereador, nem secretário municipal, nem mesmo as lideranças mais influentes conseguem transferir automaticamente seu prestígio eleitoral para o candidato que apoiam. O eleitor pode ouvir, pode agradecer, pode até concordar com determinada liderança, mas, diante da urna, é ele quem decide.

E os números mostram isso com clareza. Adelcino Lopo (Podemos) recebeu 13.864 votos em Barra do Garças. Uma votação expressiva, muito acima da conquistada por políticos experientes e candidatos que reuniram importantes apoios locais. Max Russi, presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, somou 1.816 votos no município, mesmo contando com o apoio de oito vereadores, do ex-prefeito Wanderley Farias e de sua esposa, Laura Beatriz.

A diferença entre os dois foi de 12.048 votos. Não é pouca coisa. É um resultado que merece reflexão, principalmente entre aqueles que ainda acreditam que uma eleição se resolve com fotografias, reuniões, declarações de apoio e grupos políticos reunidos em torno de uma candidatura.

Adelcino soube ocupar um espaço que estava aberto: o desejo de Barra do Garças de voltar a se enxergar representada politicamente. Embora tenha construído sua trajetória recente como prefeito de Pontal do Araguaia, município vizinho, Adelcino conseguiu estabelecer uma identificação que ultrapassou os limites administrativos das duas cidades. Sua presença constante em eventos populares, festas e espaços públicos ajudou a construir uma imagem de proximidade com a população.

Isso não significa que sua administração em Pontal tenha sido marcada apenas por acertos. A cidade continua enfrentando problemas estruturais importantes, especialmente na saúde. A ausência de uma estrutura hospitalar e de uma maternidade próprias, por exemplo, evidencia uma deficiência que alcança até mesmo a identidade de quem nasce no município. É uma realidade que merece ser cobrada e não pode desaparecer diante da popularidade de um político.

Mas eleição também é percepção. E, nesse aspecto, Adelcino compreendeu algo fundamental: parte do eleitorado de Barra do Garças queria mais do que um candidato apoiado pelas lideranças tradicionais. Queria alguém que representasse a cidade e suas expectativas. Foi essa identificação, ao que os resultados sugerem, que ajudou a formar a chamada “Onda Adelcino”.

Há, porém, um detalhe que impede qualquer análise triunfalista. Apesar de liderar a votação em Barra do Garças, Adelcino foi o último dos seis deputados eleitos pelo Podemos. Sua expressiva votação municipal não pode ser confundida com uma liderança eleitoral de igual dimensão em todo o estado.

Sua eleição também dependeu da votação coletiva da chapa, como estabelece o sistema proporcional brasileiro. Isso não diminui sua conquista, mas coloca o resultado na perspectiva correta: Adelcino demonstrou força em Barra do Garças e encontrou no desempenho partidário as condições necessárias para conquistar uma cadeira na Assembleia.

Moacir Couto (PSDB), por sua vez, recebeu 3.274 votos e ficou na segunda posição no município. Mesmo sendo um nome ligado à cidade, não conseguiu transformar essa condição em um movimento eleitoral comparável ao de Adelcino. O resultado mostra que simplesmente ser da terra já não basta. É preciso convencer o eleitor de que existe uma representação política capaz de produzir resultados.

O caso de Dr. Eugênio talvez seja ainda mais revelador sobre os limites das alianças políticas. Reeleito deputado estadual pelo Republicanos, Dr. Eugênio conquistou 1.143 votos em Barra do Garças. Beto Dois a Um (Podemos), que contou com o apoio do prefeito Adilson Gonçalves, de integrantes do secretariado e de quatro vereadores, recebeu 1.083 votos. Foram apenas 60 votos de diferença. Numericamente, uma vantagem pequena. Politicamente, porém, um resultado significativo.

De um lado, um candidato respaldado por parte da estrutura política municipal. Do outro, um deputado que não contou com o apoio de vereadores ou secretários da administração local e, ainda assim, conseguiu terminar à frente. É evidente que o apoio do prefeito e dos vereadores pode ter contribuído para a votação de Beto. Não é possível afirmar quantos votos ele teria sem essas alianças. Mas o resultado demonstra que a estrutura política, por si só, não foi suficiente para colocá-lo à frente de Dr. Eugênio.

O parlamentar construiu, ao longo dos mandatos, uma identificação com o Vale do Araguaia. Destinou recursos à região, participou de articulações importantes e procurou manter sua atuação associada às necessidades dos municípios. Em Barra do Garças, são mencionados mais de R$ 10 milhões em recursos destinados ao município, além de iniciativas relacionadas ao Lar dos Idosos e à implantação do Hospital Regional.

Isso não significa que esteja acima de críticas ou que os resultados de seu mandato dispensem uma avaliação rigorosa. Significa apenas que existe uma trajetória política que o eleitor pode reconhecer independentemente de quem esteja no comando da prefeitura.

E esse é justamente o ponto. Durante muito tempo, a política municipal foi tratada como uma espécie de matemática das lideranças: tantos vereadores representam tantos votos; determinado secretário controla determinada base; o apoio do prefeito garante uma vantagem decisiva. As eleições de 2026 mostram como essa conta pode falhar.

O voto não é uma propriedade que se transfere de uma liderança para outra. É uma decisão individual, influenciada por identidade, confiança, trajetória, circunstâncias e expectativas.

Seria igualmente equivocado concluir que os apoios políticos perderam sua importância. Eles continuam relevantes para organizar campanhas, ampliar a presença nos bairros, mobilizar eleitores e fortalecer candidaturas. O erro está em imaginar que essas estruturas substituem a capacidade de convencer a população.

A eleição também exige uma reflexão dos próprios candidatos. Adelcino terá agora a responsabilidade de transformar a expressiva confiança recebida em Barra do Garças em resultados concretos para a cidade e para o Vale do Araguaia. A força demonstrada nas urnas cria expectativas que não serão satisfeitas apenas com popularidade e presença em eventos.

Dr. Eugênio, por sua vez, tem o desafio de demonstrar que sua atuação regional produz benefícios efetivos à população. E os grupos políticos que apoiaram outras candidaturas precisam compreender por que suas alianças não se converteram nos resultados esperados.

No fim das contas, a grande mensagem das urnas em Barra do Garças não está apenas na quantidade de votos recebidos por cada candidato. Está na constatação de que o eleitorado não se comporta como uma extensão automática dos interesses de prefeitos, vereadores ou grupos políticos.

A população pode reconhecer uma liderança sem seguir suas orientações eleitorais. Pode apoiar uma candidatura por identificação com a cidade. Pode escolher um deputado por sua trajetória, mesmo quando a estrutura municipal trabalha por outro nome.

Em Barra do Garças, as urnas deixaram uma lição para vencedores e derrotados: alianças ajudam a construir campanhas, mas quem constrói a vitória é o eleitor.

Getúlio Costa é Marqueteiro Político e diretor do Grupo Leste de Comunicação Marketing.

Região araguaia

DESTAQUES

RelacionadoPostagens

Nenhum conteúdo disponível