Visto no Mãe Bonifácia, tamanduá-bandeira enfrenta perda de habitat

Solitários e de grande porte, os tamanduás-bandeira são os maiores representantes da família dos tamanduás. Com até 2,2 metros de comprimento, da cabeça à cauda, e peso que pode chegar a 60 quilos, esses animais impressionam pelo tamanho e pela aparência peculiar.

 

A explicação para isso é que os ambientes naturais dessas espécies têm sido cada vez mais reduzidos

Há algumas semanas, um exemplar da espécie foi avistado no Parque Mãe Bonifácia, em Cuiabá, surpreendendo frequentadores e internautas após a divulgação de um vídeo nas redes sociais.

 

Apesar de despertar admiração, a presença do animal em uma área de conservação cercada pela cidade chama a atenção para uma ameaça crescente: a perda de seu habitat natural.

 

Embora possam percorrer grandes distâncias, os tamanduás-bandeira são animais territoriais. A presença cada vez mais frequente da espécie nas proximidades de áreas urbanas está relacionada ao deslocamento forçado provocado pela fragmentação de seu habitat, conforme explicou ao MidiaNews o professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rogério Vieira Rossi.

 

Segundo o biólogo, a redução das áreas de vegetação nativa tem empurrado esses animais para regiões próximas às cidades, aumentando a possibilidade de encontros com a população.

 

“[O tamanduá] chama atenção mesmo pelo porte. O porte e o fato de a gente esperar que eles vão evitar áreas muito próximas da cidade. […] A explicação para isso é que os ambientes naturais dessas espécies têm sido cada vez mais reduzidos. E, inevitavelmente, alguns indivíduos acabam chegando próximo das cidades. Não é que eles prefiram estar próximo da cidade, mas eles acabam sendo flagrados porque a área de ambiente natural, de vegetação natural deles, está cada vez menor, mais restrita”, afirmou Rossi.

 

Ameaça de extinção

 

Arquivo Pessoal

Rogério Vieira Rossi é professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso e curador do acervo de mamíferos da Coleção Zoológica da UFMT

O tamanduá-bandeira enfrenta diversas ameaças à sobrevivência. A espécie é classificada globalmente como quase ameaçada de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). No Brasil, a situação é ainda mais preocupante: o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) considera o animal vulnerável à extinção.

 

Segundo a avaliação de risco realizada pelo ICMBio, a população de tamanduás-bandeira sofreu uma redução estimada de pelo menos 30% nos últimos 21 anos, sem perspectiva de diminuição das ameaças nas próximas gerações.

 

A principal ameaça à espécie é a perda de seu habitat natural. Conforme relatório do instituto, a expansão das monoculturas está entre os principais fatores responsáveis pela fragmentação e degradação das áreas de vegetação nativa essenciais à sobrevivência desses animais.

 

Embora esteja presente nos seis biomas brasileiros, o tamanduá-bandeira enfrenta um cenário preocupante. Estudos de viabilidade populacional apontam a possibilidade de extinção local da espécie em determinadas áreas do Cerrado nas próximas décadas.

 

No Rio de Janeiro, o animal já é considerado possivelmente extinto, enquanto no Espírito Santo e em Santa Catarina a espécie é classificada como regionalmente extinta.

 

No Pantanal, a situação também preocupa. O relatório do ICMBio aponta uma redução da população de tamanduás-bandeira na região, provocada principalmente pelos incêndios florestais, que destroem áreas de vegetação e comprometem a sobrevivência da espécie.

 

Trecho do relatório de avaliação de risco de extinção do tamanduá-bandeira produzido pelo ICMBio

 

O professor Rogério Rossi explica, no entanto, que outros fatores também contribuem para a vulnerabilidade da espécie, especialmente os atropelamentos em rodovias, agravados pelas limitações da visão e da audição desses animais.

 

“A principal causa de vulnerabilidade para essa espécie é a perda de hábitat natural. E, no caso do tamanduá, um fator bastante importante são os atropelamentos, porque os tamanduás, diferentemente dos felinos, que têm visão e audição aguçadas, além do olfato, só têm o olfato aguçado. A visão e a audição deles não são muito boas. Por conta disso, eles têm um risco muito maior de serem atropelados em estradas do que os felinos. Eles ficam bem vulneráveis ao atropelamento”, detalhou.

 

A expansão urbana sobre áreas de vegetação nativa também contribui para a fragmentação do habitat da espécie. Com a redução desses espaços, os animais são forçados a se deslocar para regiões próximas às cidades, ficando mais expostos ao trânsito de veículos e, consequentemente, ao risco de atropelamentos.

 

Rossi também explicou que a presença de animais silvestres em áreas urbanas está relacionada à existência de espaços de preservação ambiental, incluindo aqueles mantidos como contrapartida à implantação de empreendimentos imobiliários.

 

“Existem essas áreas que eu estou chamando, em geral, de áreas de proteção, que são áreas que o poder público entende que são áreas de compensação. Então, o que seria isso? Você vai construir um condomínio, vai, obviamente, desmatar uma parte ali para construção das casas, das vias e das áreas em comum de lazer”, explicou.

 

“Mas uma parte da vegetação nativa o condomínio vai ser obrigado a manter e preservar”, acrescentou o biólogo, destacando que a presença de animais silvestres é uma consequência natural da manutenção dessas áreas verdes.

 

Veja a publicação:

 

 



FONTE: MIDIA NEWS

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