domingo, outubro 25, 2026

Votaremos impeachment; STF não terá vida fácil, diz Medeiros

Votaremos impeachment; STF não terá vida fácil, diz Medeiros

O senador eleito e deputado federal José Medeiros (PL) garantiu que o Senado Federal votará o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) no ano que vem e avisou que a Corte não terá “vida fácil”.

 

Tem fundamentos jurídicos, tem motivo, justa causa, tem tudo. E nós vamos votar impeachment de ministros

Na avaliação do senador eleito, há uma insatisfação popular com as autoridades ultrapassa generalizada. “Os ministros que estão sonhando que eles vão ter vida fácil, não vão. Daqui para frente, STF não tem vida fácil! Político não vai ter vida fácil”, disse.

 

Ele aposta na eleição do bolsonarista Rogério Marinho (PL-RN) para a presidência da Casa para avançar com a pauta do impeachment contra ministros do STF. “Tem fundamentos jurídicos, tem motivo, justa causa, tem tudo. E nós vamos votar impeachment de ministros”, disse.

 

Ao MidiaNews, Medeiros também revela bastidores da pré-campanha e da disputa ao lado de Wellington Fagundes (PL), atribui a derrota do aliado à aliança com o MDB e projeta uma atuação harmônica com ele e Mauro Mendes (União) no Senado. O parlamentar ainda analisa a liderança de Jair Bolsonaro na direita. “Ele tem o papel de avalista [de candidaturas]”, disse o deputado sobre o ex-presidente.

 

 

Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria):

 

MidiaNews – O senhor considera que o Jair Bolsonaro é um líder incontestável da direita?

 

José Medeiros – Eu vou usar as palavras daquele adestrador de jumento, chamado Renan Santos. Ele levou uma sapatada tão grande, porque pôs na cabeça, junto com o outro maluco do Abraham Weintraub, que são intelectuais… Aquela arrogância intelectual dos infernos. Depois fui descobrir que Renan Santos não tinha tantos títulos assim para zombar da inteligência do Bolsonaro. 

 

O que que vai acontecer no Brasil eu não sei. Mas se Brasília não se emendar, vamos ter um tecido social muito pior do que esse que está

Mas o Renan disse: “Não existe essa de direita sem Bolsonaro”. Ele percebeu. Veja a votação para a Presidência da República. Você não pode dizer que o Caiado não é de direita. Ele era da UDR, a ultradireita. Juntou ele e essa turma toda e não deu 10%.

 

Respondendo objetivamente: não, não tem direita sem Bolsonaro. Não é diminuir o Bolsonaro, é que essas pessoas simplesmente escolheram.

 

É que nem aqui com o Abilio. Os caras chamam o Abilio de doido. Mas a população estava tão “P” da vida e diz: “Eu quero esse ogro”.

 

O Abilio faz o diabo, e você pensa que ele derreteu. Faz a pesquisa e a população diz: “Elegi ele para isso mesmo”. A população cansou dessa coisa do politicamente correto.

 

O que que vai acontecer no Brasil eu não sei. Mas se Brasília não se emendar, vamos ter um tecido social muito pior do que esse que está. Porque a população não volta mais para a caixa. Esquece!

 

Os ministros que estão aí sonhando que vão ter vida fácil, não vão. Daqui para frente, STF não tem vida fácil. Político não tem vida fácil. O profissional liberal, o motorista de táxi, essa galera votava, confiava plenamente no político, e só ia lembrar de política de novo lá na outra eleição.

 

Em 2013, ele sacou. “Estou pagando por educação, mas estou tendo que pagar escola particular para o meu filho. Eu pago o imposto para ter saúde, mas tenho que ter o plano de saúde. Eu pago para estrada, mas eu estou pagando pedágio. Peraí, eu estou pagando tudo de novo!”.

 

 

E ele diz: “Peraí, seus vagabundos”. Ele vai para a rua, sem saber muito e não vai sair mais da rua.

 

MidiaNews – O senhor terminou a eleição com 977 mil votos, depois de passar boa parte da campanha fora das duas primeiras posições nas pesquisas de intenção de voto. Em algum momento temeu a derrota? O que enxergava nas ruas que as pesquisas não captaram?

 

José Medeiros – Desde a eleição de prefeito, em 2024, eu perdi a fé, virei ateu, das pesquisas. Na eleição de prefeito, as pesquisas não apontavam que o Abilio chegaria sequer ao segundo turno. Várzea Grande, nem se fala, Primavera e Rondonópolis também não.

 

E a gente tinha números que falavam diferente. E o resultado na urna confirmou os nossos números. Eu até entrei com um projeto, na época, para que seja tirada a possibilidade de divulgação de pesquisa.

 

MidiaNews – No prazo anterior à eleição ou tirar totalmente?

 

Victor Ostetti/MidiaNews

José Medeiros

O senador eleito José Medeiros revelou que um dos principais desafios da campanha foi ser conhecido pelo eleitorado de MT

José Medeiros – Tirar totalmente. As pesquisas são úteis para as estratégias partidárias, mas essas pesquisas pagas, com o intuito de induzir eleitor, são perniciosas. Isso é muito ruim.

 

Você pega uma pesquisa, uma candidatura que esteja bem acirrada, e o cara coloca você dez pontos atrás. Isso induz o eleitor, porque tem um eleitor que diz: “Quero escolher o que vai ganhar”. Isso é ruim, desequilibra o jogo.

 

Como eu tinha perdido a fé, a vantagem disso é você não criar expectativa em relação à pesquisa. Por exemplo, eu vi uma pesquisa lá que colocava que eu tinha 0,8%. Poxa, eu tinha certeza que não tinha só isso, porque não tinha acontecido nada tão degradante no meu mandato e tive em torno de quase 5% para deputado federal. Como é que, de repente, para o Senado, no Estado bolsonarista, eu tenho 0,8? Esse troço está errado! Eu parei de me preocupar com as pesquisas.

 

Agora, evidentemente que a gente tinha números e nem sempre a gente esteve na frente e sabíamos que seria uma campanha com candidatos muito competitivos. Mas a gente tinha na cabeça que, no momento em que eu fosse sendo conhecido e linkado ao Bolsonaro, o eleitor bolsonarista de Mato Grosso fosse descobrindo que o candidato do Bolsonaro era Medeiros, a gente sabia que esse eleitor, se a gente não cometesse erros, tinha a tendência de nos apoiar.

 

O que me deixou apreensivo não eram os números quantitativos da pesquisa. Era o que a pesquisa mostrava em termos de desconhecimento e eu não sabia se ia dar tempo na campanha, principalmente depois que o Alexandre nos cortou o tempo. 65% dos eleitores não me conheciam.

 

MidiaNews – O senhor está há anos na política, como já citou, por que esse desconhecimento do eleitorado? Acredita que houve falhas para que isso acontecesse?

 

José Medeiros – Eu poderia ter tido uma presença maior nos municípios, mas o desafio em Mato Grosso de você estar presente não é fácil.

 

De Cuiabá a Vila Rica, dá 1.300 quilômetros. A hora de voo deve ser uns R$ 18 mil. Para ir de carro, você não gasta menos que quatro dias. É um estado gigantesco. E você acaba não indo em todos os municípios constantemente. Quando você termina de andar o estado inteiro, já passaram dois, três anos.

 

Quando você tem bastante recurso para isso, isso melhora. Ao menos o público da internet te acompanha. Mas, eu sempre tive a parte orgânica. E no orgânico, você alcança aquela bolha de 5%, 6% que já te acompanha. Uma preocupação que eu tive é que realmente a gente precisa vender mais o peixe.

 

MidiaNews – O senhor conseguiu quase um milhão de votos no estado, a que atribui essa quantidade expressiva de votos: ao bolsonarismo ou à sua trajetória política?

 

Victor Ostetti/MidiaNews

José Medeiros

Medeiros atribui a sua vitória a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro: “sobretudo, ao que ele representa”

José Medeiros – A um preso político. Um cara que está preso, incomunicável nesse momento. [Devo] a ele, principalmente. Mas, sobretudo, ao que ele representa. A partir de 2013 surgiu uma indignação no seio social contra o “político demais”. As pessoas sabem que precisam da política, mas elas abominam a falta de personalidade, de empatia, da política. Dizem: “Ah, ele é político”. Significa que é o cara que ajeita tudo, que, não importa a situação, pode estar desabando tudo, que está ali falando que a coisa está boa. Em 2013, esse modelo se extinguiu.

 

Muita gente não percebeu, continuou insistindo nele, continua sendo vomitada para fora da política. Eu digo que o mais emblemático de todos foi Renan Calheiros, recentemente, no Nordeste. O Lula está sendo colocado também.

 

Esse sentimento teve Bolsonaro como ponto atrator, porque era o cara que mais representava. E aí, além do Bolsonaro ganhar o mandato, essa galera revoltada passou a dar a ele o papel de avalista. Tanto é que o Bolsonaro vai lá e coloca o Tarcísio em São Paulo. Vai lá e coloca o Marcos Pontes de senador. E a população diz: “Se Bolsonaro falou, eu vou”.

 

Eu não vou falar: “eu sou o cara, o bambambam, e esses votos são meus”. Lógico que não. Óbvio que tem alguns requisitos para que você tenha esses votos, ou o eleitor dê essa confiança. O eleitor está muito exigente. Inclusive, aquele áudio que editaram e soltaram cortado, e eu estava fazendo justamente essa avaliação.

 

É um eleitor que não aceita qualquer coisa, ele vai conferir se é isso mesmo. O eleitor vai no YouTube, nas redes sociais… Se não for aquilo, sentencia: “Melancia”.

 

   

MidiaNews – O Wellington Fagundes é um desses?

 

José Medeiros – Quando o Bolsonaro veio para o PL, o Wellington Fagundes era vaiado em cada reunião nossa. O Wellington começou a votar sempre conosco as pautas da direita. Veio aquele protesto, em que eu coloquei que o Davi Alcolumbre estava surdo, cego e mudo, o Wellington se amarrou com correntes junto com outros senadores. Pronto! O Wellington estava no time. E isso veio até quase a eleição. Se quisesse, o Wellington ganharia a eleição no primeiro turno.

 

Se quisesse, o Wellington ganharia a eleição no primeiro turno. Não sei que tilt que deu nele

Não sei que tilt que deu no Wellington, ele não tinha compreendido direito como é que a cabeça dessa galera funciona, e voltou a ser político demais. Para ganhar a eleição, usou o modelo que sempre deu certo.

 

Qual o modelo que sempre deu certo? Eu monto a maior coalizão possível, com todos os players políticos, tenho o maior tempo e pronto. Está feito. Quando ele começou a montar, avisamos: “Não faz isso, não vai dar certo”.

 

O que aconteceu? Era o candidato do partido do Bolsonaro, apoiado pelo Flávio Bolsonaro, com 22 e o eleitor não foi. Por quê? Wellington acabou tornando o terreno inóspito, porque esse eleitor é muito exigente.

 

MidiaNews – Essa derrota do Wellington foi por conta dessa aliança com o MDB da Janaína?

 

José Medeiros – Total, total.

 

MidiaNews – Ele teve menos votos que o senhor. Onde houve a falha? O bolsonarista não engoliu essa aliança?

 

José Medeiros – Não, não engoliu. O bolsonarismo não aceitou. O Abilio hoje, por exemplo, é uma figura nacional quando se fala em bolsonarismo. O Abilio está para Mato Grosso, assim como o Nikolas Ferreira está para Minas Gerais.

 

Quando o Abilio disse: “Eu não concordo com essa aliança”. Quando um Cláudio Ferreira, prefeito de Rondonópolis, também fala: “Não vamos por aqui”. O bolsonarista estava olhando.

 

MidiaNews – Essa ausência também de pronunciamento de voto do Abilio ajudou na derrota do Wellington?

 

o Wellington é uma figura que não briga com ninguém, não tem desavença, mas só faz o que dá na cabeça dele

José Medeiros – Exatamente. Quando o Abilio disse: “Eu não concordo com o MDB”. A mensagem que ele disse é a seguinte: “Wellington, não vamos te apoiar se você estiver com o MDB”.

 

E nós avisamos várias vezes: “Não, não vai, senador. Vai dar problema”. E o Wellington é uma figura que não briga com ninguém, não tem desavença, mas só faz o que dá na cabeça dele.

 

E teve outra parte muito ruim que foi o fato de boa parte do STF ir para a política. Houve uma pressão muito forte do ministro Gilmar. Não que o Wellington não tenha gostado disso…

 

E o Valdemar Costa Neto, presidente do PL Nacional, simplesmente pôs no doze: “Vai coligar e acabou”. Ele me ligou e falou: “Eu não estou ligando para pedir autorização ou consentimento. Estou te ligando para avisar que vai ter [coligação]”. Foi uma conversa muito dura.

 

 

MidiaNews – Eles foram políticos demais, decidiram as coisas em cúpula e esqueceram do acordo com o povo?

 

José Medeiros – É que eles acharam o seguinte: o povo está querendo carne, mas a gente coloca a salada e o arroz aqui e quando vê o povo está comendo tudo. Não, não. No bolsonarismo, isso não funciona.

 

Essa era a explicação que eu estava dando no áudio, que foi vazado, para o Chico Mendes. Chico, meu eleitor é mais doido do que eu. O pessoal me chama de polêmico, mas o meu eleitor é mais exigente ainda. Não vai aceitar um trem desse aqui, cara. Meu eleitor é um pau de dar em doido. Ele ora para alienígena, ele bebe detergente.

 

Victor Ostetti/MidiaNews

José Medeiros

“Meu eleitor é mais doido que eu”, diz José Medeiros ao tentar explicar o que quis dizer que seu eleitorado “ora para ET”

Mas o fato é que a gente perdeu o governo, obviamente, porque quando aquele palanque se armou, a gente percebeu que ele era radioativo e falou: “Quem fica aí vai perder”.

 

O senador é muito experiente, muito inteligente, mas ele faz parte dessa Brasília que não entendeu a cabeça dessas pessoas. Esse público rotulado de bolsonarista, na verdade, é um público que é dono do voto dele. E se amanhã ou depois o Bolsonaro contrariar o bolsonarismo, o Bolsonaro perde tudo.

 

MidiaNews – O senhor se arrepende de ter dito que o seu eleitor “ora para alienígena e bebe detergente”?

 

José Medeiros – Não. A frase está totalmente fora do contexto. Era até um elogio ao nosso eleitor. Eu estava ironizando o fato de falar que a gente bebe detergente. Eu esqueci de falar que era da marca Ypê.

 

MidiaNews – O senhor disse há pouco que o PL perdeu o governo, mas o grupo do senhor, nem tanto…

 

José Medeiros – Não, nós não perdemos. Não perdemos, porque nós não estávamos naquele palanque.

 

MidiaNews – Houve acordo com o Pivetta em algum momento?

 

José Medeiros – Não houve acordo.

 

MidiaNews – Mas, nos últimos dias de campanha, vocês fizeram uma passeata juntos.

 

Mayke Toscano

Pivetta e Medeiros

Medeiros explicou que passeata em campanha era em apoio a Flávio, mas admite desentendimento com WF: “naquele clima que estava de campanha, ficou bem claro, era cada um por si”

José Medeiros – Nós tivemos eventos que eram do Flávio, e o Wellington poderia estar naquele evento, se quisesse, eram eventos suprapartidários.

 

Evidentemente, se a gente estivesse num palanque, numa outra circunstância, a gente não compareceria, óbvio, mas, naquele clima que estava de campanha, ficou bem claro, era “cada um por si”, e foi.

 

MidiaNews – Mas, nessa aproximação, o Pivetta chegou a propor ou vocês propuseram ocupar alguma secretaria nesse futuro governo?

 

José Medeiros – Zero, zero.

 

MidiaNews – Mas há um compromisso com o governo Pivetta para encaminhamento de emendas para determinado setor, por exemplo?

 

José Medeiros – A gente já mandava. Eu mandei R$ 30 milhões para a Saúde, no governo Mauro Mendes. Óbvio que o Pivetta não deve ter achado ruim da gente não ter ficado engajado [com o Wellington].

 

E também é o seguinte: tudo mudou depois que o Bolsonaro foi preso, não teria candidatura ao governo do PL. O plano do Bolsonaro sempre foi o seguinte: “eu não estou nem aí para governo, eu vou mudar a situação do Brasil no Senado. Lá, em Mato Grosso, você baixa a bola com essa briga com Mauro Mendes, você baixa a bola, que eu quero você como senador”. Essa conversa foi em fevereiro de 2023.

 

Ele dizia que, em Mato Grosso, o governador sai muito forte, então o combinado era não brigarmos com o Mauro, e não iríamos, também, lançar dois. E eu disse a ele: “E governo?”. “Eu não estou nem aí para governo. Não vamos lançar governo, porra nenhuma, porque em cada estado eu quero eleger um senador”, disse. Só que quando Bolsonaro foi preso, incomunicável, aí virou samba do crioulo doido. Dois abraços.

 

MidiaNews – Esse cenário só se desenhou por ele estar preso?

 

José Medeiros – Se ele estivesse solto era [coligação com] o Pivetta e o Mauro.

 

MidiaNews – Chegou a ventilar no ano passado essa possibilidade.

 

José Medeiros – Ele já tinha sentado com Mauro e com Cidinho e dito: “Lá eu só tenho interesse em eleger senador”. Quando ele foi preso, os caras passaram a falar: “Acabou. Essa história de bolsonarismo passou”. O Valdemar já começou a recolher e seguiu de modo a fazer aquilo do jeito que sempre fez.

 

 

MidiaNews – O PL ampliou a sua presença ali no Congresso Nacional, especialmente no Senado. E o impeachment de alguns ministros do STF foi uma das principais bandeiras. Essa será a prioridade da bancada do PL no Senado? O que considera que há de fundamentos jurídicos?

 

José Medeiros – Tem fundamentos jurídicos, tem motivo, tem causa, tem tudo. E vamos votar o impeachment de ministros.

 

O Congresso hoje está fechado! Tudo que se aprova hoje, um ministro dá uma canetada falando que não vale

MidiaNews – E o novo presidente do Senado, que é quem coloca esse tipo de assunto em pauta?

 

José Medeiros – Com certeza vamos fazer o novo presidente e pretendemos colocar essa pauta imediatamente, porque é impossível você fazer qualquer outra coisa com o Congresso fechado. O Congresso hoje está fechado! Tudo que se aprova hoje, um ministro dá uma canetada falando que não vale. Não tem como ser funcional o país com o Congresso fechado.

 

MidiaNews – E quem que o senhor defende como presidente?

 

José Medeiros – Rogério Marinho seria um nome extraordinário.

 

MidiaNews – Como é que está a articulação? O senhor tem aí uma estimativa de votos que ele teria hoje?

 

José Medeiros – Eu acho que a gente teria cinquenta votos, tranquilamente.

 

MidiaNews – O Otaviano Pivetta derrotou o candidato do PL ao governo, o senador Wellington. Como será a sua relação de convivência política com Pivetta?

 

Victor Ostetti/MidiaNews

José Medeiros

“O Wellington consegue simplesmente encerrar as querelas eleitorais no dia que termina a eleição”, disse Medeiros

José Medeiros – Muito boa. Não tem divergência nenhuma. O que acontece? O próprio Wellington, com certeza, vai ajudar o Estado. O Wellington consegue simplesmente encerrar as querelas eleitorais no dia que termina a eleição. Virou a página e já está em outra vibe.

 

MidiaNews – Mas e o senhor? O senhor também é assim?

 

José Medeiros – Também sou assim. Não tenho quizila, não.

 

MidiaNews – Mas é assim porque saiu vitorioso ou é assim porque é assim?

 

José Medeiros – Provavelmente porque fui vitorioso. Se perdesse, provavelmente eu estaria puto da cara.

 

MidiaNews – Vocês vão conviver juntos, até porque o Wellington tem mais quatro anos de mandato. Nesse processo, vão conseguir fazer uma integração?

 

José Medeiros – Já até almoçamos juntos. No outro dia, tivemos uma reunião para planejamento da eleição do Flávio. Depois eu fui lá no Grupo Vanguarda que ele é presidente. Nós estávamos fazendo uma reunião-almoço de tratativa sobre a campanha em nível nacional. Ele estava junto.

 

É impossível brigar com o Wellington. Ele me disse uma vez que brigou duas vezes e todas as vezes perdeu dinheiro e nunca mais brigou.

 

Nós tivemos divergência de entendimento dessa campanha. Mas cada um estava aí cuidando dos seus objetivos políticos. E, por acaso, eu estava certo. Mas não há nada. Não ficou ranço.

 

MidiaNews – Durante a pré-campanha, houve uma conversa de o PL apoiar o Pivetta. Em uma avaliação rápida: quem saiu fortalecido e quem perdeu?

 

Hoje, eu creio que o Valdemar fez uma aposta errada aqui

José Medeiros – Bom, as urnas é que dizem: quem ganha sai fortalecido, quem perde vai ter que recalibrar as estratégias. A gente tem na história: o vencedor fica com a razão e quem perdeu vai ter que se reinventar.

 

Hoje, eu creio que o Valdemar fez uma aposta errada aqui. Não que o senador Wellington fosse contra o que ele fez, mas quando o Valdemar impôs a aliança com o MDB, obviamente por exigência do ministro Gilmar, ele acabou com o projeto do Wellington.

 

A gente não pode ser culpado por uma decisão errada e nem os prefeitos punidos por uma coisa que a gente via que era suicídio.

 

MidiaNews – Mas o grupo do Wellington, acha que perde força hoje? Por exemplo, já estão falando na retirada do Ananias da presidência do PL de Mato Grosso. Acha que isso pode acontecer mesmo? Dizem até que o Odilio Balbinotti pode ocupar esse cargo.

 

José Medeiros – A gente está torcendo para emplacar o Balbinotti como ministro da Agricultura. E penso que essa questão partidária não vai ser uma coisa pontual de Mato Grosso. A conversa vai ser macro. Quando o presidente [Bolsonaro] chegar [sair da prisão] vai ser uma conversa aí de mudança de rumo do partido. O presidente Jair Bolsonaro tinha um plano. Mudaram esse plano. Ele teve que dar bons esturros de dentro da prisão para que mantivessem minimamente, mas quase foi tudo por água abaixo. Aqui mesmo foi um desses casos. Porque relativizaram a vontade dele.

 

Eu acho que ele vai fazer essa conversa e não sei como é que vai definir. Eu sei que, com certeza, ele vai querer conversar sobre o partido, mas não vai ser por agora. Porque quando ele sair da prisão, obviamente que ninguém vai chegar para ele lá: “Houve um problema lá no meu estado”. Não vai ser assim.

 

Mas, passado o rescaldo, passado tudo, ajeitado o governo, não tenho dúvida que ele vai querer tratar de partido. Mas ele não precisa ter pressa.

 

 

MidiaNews – Qual é o plano que o senhor falou que ele tinha e depois desrespeitaram?

 

José Medeiros – Sim, relativizaram. Eu senti, e vou fazer a avaliação do mundo a partir da minha vivência, que disseram “Bolsonaro está preso”, e já mudou tudo. Parecia que Bolsonaro não valia mais nada.

 

Eu sinto que Bolsonaro vai conversar a respeito, por exemplo, o caso do Hélio Negão em Roraima. Hélio Negão foi jogado em Roraima, e se o Bolsonaro tivesse solto, não tenho dúvida que o Hélio hoje seria senador.

 

Bacana, elegemos o Nicoletti, mas eu não tenho dúvida que se o Bolsonaro tivesse solto, a coisa seria diferente. Estou citando Roraima, por exemplo. E tantos outros lugares em que acabou não sendo o que ele queria.

 

MidiaNews – Aqui foi a contragosto?

 

José Medeiros – Aqui foi a contragosto. Eu fui à força. Foi porque o Bolsonaro esturrou. O Flávio falou: “Você foi o primeiro cara que ele chegou e falou: ‘Mato Grosso é o Medeiros’”.

 

Mas tinha uma ordem de Brasília para me tirar. Essas coisas aconteceram em vários lugares do país. Mas aí é coisa do Bolsonaro com o Valdemar. De que jeito vai fazer? Vai deixar o Ananias? Isso é briga para cachorro grande.

 

MidiaNews – E de onde veio essa ordem para tirar o senhor da disputa ao Senado?

 

José Medeiros – Foi do Valdemar. Não é que foi a ordem. O Valdemar chegou para o Bolsonaro e falou que eu não era candidato. Ele falou: “como não?”. Valdemar disse: “Ah, não tem a menor chance, recebi as pesquisas”.

 

MidiaNews – O bolsonarismo cresceu politicamente com esse enfrentamento à esquerda, ao PT. A direita está preparada em caso de vitória do Flávio Bolsonaro, para ser cobrada por resultados concretos e não mais por esse enfrentamento político ou essa defesa de pautas um pouco mais ideológicas?

 

José Medeiros – Na verdade, a gente entrega tudo.

 

MidiaNews – Entrega discurso e obra?

 

José Medeiros – Sim, a gente entrega tudo. Sabe o que acontece? É que essa chamada direita votava em quem? No PSDB. O PSDB parecia a garça no Pantanal. Parecia esgrimista. O PT estava xingando. O PT é a cara do Janones, da Talíria Petrone, da Jandira Feghali, aquela xingação. E o cara do PSDB era o quê? Era o José Serra com a voz toda calma…

 

E a população acabou não sentindo a representação. Como é que você não contrapõe esses caras? Manda ir às favas. Responda na mesma altura. Esse povo se revolta, vai para a rua e elege um povo com o perfil deles. A maioria dos eleitos é a cara do eleitor. É todo mundo com detergente Ypê na boca.

 

A Janja foi lá e falou: “Onde já se viu? Não se bebe detergente. A pessoa pode passar mal bebendo um detergente”. Eu não sei onde ela estava com a cabeça que alguém bebe detergente. O que o bolsonarista foi lá e fez? Simulou que estava bebendo um detergente Ypê. Tipo assim, vocês estão perseguindo a empresa e tal.

 

É essa coisa que, às vezes, é difícil explicar. A pessoa recorta e pensa que você está zombando. Mas não. É esse perfil contestador e de contraponto na hora, na lata.

 

Onde deu problema? Essa população que é chamada de bolsonarista, que por acaso se identificou com a gente e passou a eleger a gente, está tão revoltada com tudo, não quis saber se é ministro, que diabo que é… Porque os ministros nunca foram contestados. Essa população foi lá e radicalizou. Encontrava um ministro no avião: “Seu vagabundo”. Xingavam. Porque estava engasgada com aquilo.

 

O ministro, a autoridade, resolveu peitar e mete duas mil dessas pessoas revoltadas na cadeia. Eu falei: “não vai resolver. Vocês estão enganados. Vocês não entenderam o fenômeno. Bolsonaro podia nem existir. Vocês continuariam tendo esse problema. É lá de 2013”.

 

Os caras não entenderam. Vão ser varridos. Vão para a aposentadoria. Vão virar párias. Tudo que eles não queriam para o legado deles. Não é que alguns ministros não gostem de dinheiro, mas eles gostam muito mais da pompa e circunstância.

 

O eleitor está revoltado, não está nem aí para ministro e sua pompa. Pegando o batom como exemplo. Dizem: “A mulher do batom* é condenada a 14 anos e você solta o traficante?”.

 

*A cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos usou um batom vermelho para escrever a frase “Perdeu, mané” na escultura da Justiça localizada na Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. Por isso, foi condenada pelo STF a 14 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e associação criminosa armada.

 

MidiaNews – Deu um confronto com a vida real.

 

José Medeiros – Exato. Eles brigaram com a realidade. Eles criaram um mundo perfeito. Um mundo onde tudo acontece. E isso se chocou com a realidade.

 

O Ulysses Guimarães já tinha dito: “Cuidado! Ninguém resiste à voz rouca das ruas”. E eles disseram: “Nós acabamos com o bolsonarismo”. Deu pena!

 

 

MidiaNews – Quando o senhor diz que “eles não entenderam”, quem são?

 

José Medeiros – Os políticos tradicionais. Eu não coloco o PT nessa bacia, porque o PT está na dele e fez muito bem em dizer: “isso são os bolsonaristas”. Disse: “Eu não sou isso aí”.

 

O PT sempre viveu do conflito. Sempre viveu de criar um vilão para poder sobreviver. Eles fizeram muito bem. E criou uma massa de profissionais que ditam as coisas no Ministério Público, no Judiciário, e principalmente no jornalismo.

 

Esse movimento, isso tudo foi bom para ele. Ele reacendeu. O PT não faz isso porque não entendeu, faz porque diz: “Esses caras não iam estar comigo mesmo, mas meu público, eu ajunto”. Isso levou à vitória do Lula.

 

Mas, quem que está sendo expurgado para fora? O Centrão. O Centrão está sendo muito expurgado. O Centrão não compreendeu. Ele diz: “Não sou contra nem a favor, muito pelo contrário”.

  

MidiaNews – Manutenção do poder pelo poder.

 

José Medeiros – Exatamente. Não é business, é job. É a turma do job. Essa é uma revolta contra o sistema político, e contra vários ministros do STF. E por que eles entraram na linha de fogo? Porra, a Lava Jato! Todos vocês [ministros] acabaram com a Lava Jato. Vocês estão condenando o juiz. Vocês soltam o traficante. Entraram tudo no bolo. Vão ser todos varridos.

 

Esses caras, se eles tiverem juízo, começam a ir para a esquerda ou para a direita. Porque esse meio representa tudo de errado.

 

Hoje, o cara de direita, tem um grande vilão, que é o PT. Mas não. Na verdade, ele está puto é com tudo que vai contra aquilo que ele pensa.

 

 

Veja entrevista na íntegra:

 

FONTE: MIDIA NEWS

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