Após duas semanas de negociações intensas, chegou ao fim neste sábado (31) a cúpula da ONU sobre biodiversidade. Com um dia de atraso, negociadores de 182 países e governos chegaram a um acordo para acelerar a implementação das metas globais para preservação da natureza até 2030.
A COP17, realizada em Yerevan, na Armênia, buscou reavivar o compromisso de deter e reverter a destruição da natureza até 2030. Um balanço dos esforços globais para cumprir essa meta mostrou que as ações tomadas até agora são insuficientes para alcançar os compromissos já assumidos.
Entre eles estão: proteger 30% das terras e dos oceanos do planeta, combater a poluição e as espécies invasoras e ampliar os recursos destinados à conservação.
“E é isso. Perfeito”, disse o presidente da COP17, Hambardzum Matevosyan, na Armênia, ao bater o martelo para aprovar os acordos.
Um deles é o chamado “Caminho de Yerevan”, que estabelece diretrizes para que os países acelerem e ampliem suas ações, inclusive o cumprimento de seus compromissos financeiros. A decisão também pede que ao menos US$ 500 bilhões em subsídios a atividades prejudiciais à natureza sejam redirecionados.
Os participantes aplaudiram quando textos cruciais foram aprovados já na prorrogação, mas o resultado foi considerado pouco ambicioso para enfrentar o impacto destrutivo da humanidade sobre os ecossistemas.
A ministra francesa da Transição Ecológica, Monique Barbut, afirmou que o resultado não está à altura da crise que assola o planeta.
“Os avanços que não conseguimos alcançar aqui representam uma série de oportunidades perdidas de acelerar nossa resposta à perda de biodiversidade”, disse Barbut, ressaltando que “a natureza não esperará o ritmo de nossas negociações”.
A plenária final se estendeu por toda a noite de sexta-feira e avançou pela manhã seguinte, com as negociações azedando à medida que as horas passavam. Enquanto alguns delegados deixavam o local para pegar voos, outros permaneciam para discutir questões técnicas.
“Houve muita pressão e resistência em todas as direções”, disse Juliette Landry, veterana observadora das COPs e integrante do centro de estudos IDDRI. “Nesse contexto, é difícil conseguir que as propostas sejam aceitas”.
A chefe de biodiversidade da ONU, Astrid Schomaker, afirmou que a cúpula havia alcançado resultados “bastante notáveis em um momento em que o multilateralismo supostamente não está funcionando”.
“Em alguns desses temas mais difíceis, não poderíamos esperar compromissos sólidos negociados. Esse nunca foi o plano”, disse ela a jornalistas após o encerramento da cúpula.
“Hoje, vimos mais surpresas positivas do que truques na COP17”, afirmou Daudi Sumba, diretor de conservação do WWF-Internacional. Ele defendeu que o o balanço das ações de conservação elabora pelas Nações Unidas mostra que é preciso fazer mais, mas para isso é necessário mais investimento.
“Sem uma ampliação clara dos recursos financeiros necessários para viabilizar essas ações, temo que o financiamento continue sendo a principal questão a assombrar as cúpulas das Nações Unidas sobre biodiversidade”, avaliou ele.
A falta de financiamento destinado a nações em desenvolvimento tem sido uma trava recorrente nas conferências das Nações Unidas sobre meio ambiente e clima. O tema fica ainda mais espinhoso com a pressão pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.
“A COP17 conseguiu evitar retrocessos e preservar o Marco Global de Biodiversidade, o que não é pouco no atual contexto geopolítico”, avaliou Karen Oliveira, diretora de políticas públicas e relações governamentais da The Nature Conservacy Brasil. “Mas ela não resolveu a contradição central da agenda global de biodiversidade. A COP17 afirmou que o mundo precisa acelerar, mas ainda não garantiu os meios econômicos e políticos para isso.”
A União Europeia liderou a pressão para que economias emergentes, como a China, contribuíssem para o financiamento da conservação, uma questão sempre controversa nos encontros da ONU. Isso porque essas nações não são as que mais contribuíram para a destruição do planeta ao longo da história. Ao final, os países concordaram em ampliar a base de países doadores, mas de forma voluntária.
Também ficaram sem solução questões sobre a estrutura do Fundo Cali, um mecanismo criado na COP16, na Colômbia, que esperava atrair bilhões de dólares em contribuições empresariais, mas que está praticamente vazio.
“Ao adiar decisões essenciais por mais dois anos, as partes praticamente garantiram que o fundo permaneça vazio até lá”, afirmou Pakhi Das, da organização sem fins lucrativos Plant-for-the-Planet.
A próxima cúpula das Nações Unidas sobre biodiversidade, a COP18, acontecerá em 2028 em Quito. A decisão também foi tomada neste sábado, após o Equador vencer o Panamá, que também concorria para receber o encontro.
FONTE: MIDIA NEWS
