Nos últimos três anos, um movimento tem mudado a rotina de jovens mato-grossenses: estudantes de escolas públicas dos quatro cantos do estado, que nunca tiveram a chance de sair do Brasil, estão fazendo as malas para viver algumas semanas na Inglaterra. O intercâmbio de idiomas e cultural faz parte do programa MT no Mundo, criado pelo Governo de Mato Grosso, e tem provocado transformações profundas na trajetória dos alunos, realizando sonhos que muitos deles nem sabiam que tinham. Em três edições, 300 estudantes já participaram da experiência imersiva no Reino Unido, vivência essa que abriu um novo leque de oportunidades para jovens de famílias que nunca imaginaram ver um filho estudando fora do país.
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Estudantes mato-grossenses da rede estadual no MT no Mundo
O efeito é visto nas salas de aula e para além delas: estudantes mais engajados, dedicados ao inglês e empenhados em construir um bom histórico escolar para conquistar uma vaga no programa. O interesse cresce, as notas sobem e a perspectiva de futuro ganha novos contornos. O impacto também alcança professores, que se veem transformados tanto pela experiência quanto pelos reflexos que ela provoca em seus alunos. A iniciativa oferece uma experiência internacional totalmente financiada pelo Governo do Estado. Desde sua criação, o programa já soma mais de R$ 16 milhões em investimentos nas três primeiras edições.
“É uma oportunidade muito fora da caixinha e que, simplesmente, muda a nossa carreira, o nosso conhecimento e a nossa visão de mundo como pessoa mesmo”
Gabriel Ramos, intercambista
Um dos estudantes que tiveram a vida impactada por essa oportunidade foi Gabriel Ramos do Amaral, de 18 anos. Ele entrou pela primeira vez em um avião graças ao intercâmbio e voltou decidido sobre o futuro que queria ter. Aluno da Escola Estadual 19 de Julho, em Peixoto de Azevedo, no norte do Estado, Gabriel desembarcou em Eastbourne, na Inglaterra, em 2023, quando tinha 16 anos. A experiência abriu portas para novos idiomas, o levou a dar aulas de inglês e alemão e despertou um sonho que ele trata com a mesma disciplina dedicada aos estudos: tornar-se diplomata. E, pelo caminho que trilha, não parece um objetivo distante.
O estudante conta que fazer intercâmbio era um sonho antigo, mas que parecia impossível. “Para mim, era algo muito longe da minha realidade, eu sendo na época um aluno de uma escola estadual. Acredito que é uma oportunidade muito fora da caixinha e que, simplesmente, muda a nossa carreira, o nosso conhecimento e a nossa visão de mundo como pessoa mesmo. Então, quando fui selecionado, foi um sonho sendo realizado”, afirma.
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Gabriel foi selecionado através das notas escolares e do bom desempenho no idioma nos resultados obtidos na plataforma Mais Inglês. Esse ótimo resultado ajudou muito durante o intercâmbio, já que nas escolas, os alunos mato-grossenses estudam com pessoas de várias nacionalidades. “Havia um alemão na minha turma e eu me comunicava mais com ele pela minha facilidade com o inglês. Comecei a “arranhar” o alemão. Conversando com esse cara, acabei tendo aquele ímpeto de aprender o idioma. Hoje em dia, eu sou professor tanto de inglês quanto de alemão. Ainda quero ir para a Alemanha algum dia para melhorar mais a minha fluência”, relata.
O programa de intercâmbio da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) compõe o Plano EducaAção 10 Anos, cuja meta é posicionar Mato Grosso entre os cinco melhores sistemas educacionais do país até 2026. Com a duração de quase um mês, a iniciativa garante curso intensivo de inglês com 30 aulas semanais, material didático, passagens aéreas, hospedagem, alimentação, seguro viagem, chip de internet, transporte, emissão de documentos e ajuda de custo semanal de 250 libras. A hospedagem é em casa de famílias locais. Os 100 alunos de cada edição se dividem em seis ou sete grupos com imersão em cidades da Inglaterra como Eastbourne, Canterbury, Oxford, Bristol, Brighton, Worthing, Cambridge e Liverpool.
A experiência é tão transformadora que acabou refletindo na escolha de profissão de Gabriel, que atualmente pretende fazer graduação em relações internacionais. “O curso que eu estou querendo fazer foi influenciado 80% pelo intercâmbio e os outros 20% por quem eu sou. Eu já me interessava por ciências sociais, economia e diplomacia. Mas depois do intercâmbio, tive certeza de querer seguir essa carreira. Agora é fazer faculdade, continuar trabalhando, juntar dinheiro e no final, conseguir trabalhar para o governo. Tentar o cargo de diplomata e ser um mediador da paz, do diálogo. E, ao mesmo tempo, usar minhas habilidades e ganhar uma grana”, pontua.
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Gabriel Ramos do Amaral, de 18 anos, era estudante de uma escola estadual de Peixoto de Azevedo
Enquanto os planos para o futuro são traçados, o jovem já sente impactos na realidade atual. “Um dos fatores que me ajudou a conseguir o emprego de professor na escola de inglês que dou aula foi a vivência na Inglaterra. Logo depois, eles estavam precisando de alguém que falasse alemão e eu acabei pegando a vaga. Querendo ou não, esse intercâmbio acabou me sustentando hoje em dia. Porque é daqui que eu tiro o meu pão de cada dia”, concluiu.
“O curso que eu estou querendo fazer foi influenciado 80% pelo intercâmbio e os outros 20% por quem eu sou”
Gabriel Ramos, intercambista
O jovem Kawan Serednicki, de 19 anos, estudante de uma escola militar em Lucas do Rio Verde à época em que foi selecionado para o programa, viveu uma transformação semelhante ao trocar, depois do intercâmbio, a função de recepcionista de uma escola de idiomas para professor de inglês. A vivência na Inglaterra ampliou seus horizontes a ponto de despertá-lo para novos caminhos acadêmicos: atualmente, fazendo faculdade de física no município, ele se prepara para aplicar para vagas em universidades na Europa e nos Estados Unidos, em busca de bolsas de estudo que tornem possível cursar o ensino superior fora do país.
“Eu já tinha planos de tentar uma universidade fora e depois que eu voltei aumentou a expectativa. Dá um ânimo a mais para tentar ir. É mais palpável”, afirma o jovem.
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Estudantes da rede estadual em embarque para a Inglaterra
Além da mudança percebida em sua própria vida, Kawan relata que também realizou um sonho que já era, antes de ser seu, de seus pais. “Meu pai, principalmente, mas minha mãe também, sempre pensaram em um intercâmbio, em me levar pra fora por um tempo, mas às vezes não dava por uma questão de tempo, ou também financeira. Conseguir custeado pelo estado foi ótimo, assim eles conseguiram me dar uma oportunidade que não conseguiriam dar facilmente”, avalia Kawan.
Agora, Kawan se prepara para seu novo ciclo: a entrada em programas de faculdades internacionais. O estudante reforça ainda que a experiência enriqueceu seu currículo, que é um dos vários fatores analisados no momento das aplicações. “Eles levam bastante em consideração de onde vem o aluno e o que o aluno quer. Pedem para contar sua história, falar sobre você e isso [intercâmbio] já aumenta meu leque de oportunidades”, analisa.
O estudante da Escola Estadual Júlio Muller, em Várzea Grande, Pedro Guilherme de Paula Gambetta, 18 anos, participou da última edição do programa, em setembro deste ano. Diferente de Gabriel e Kawan, que já sonhavam com um intercâmbio, Pedro nunca havia cogitado a possibilidade, pois a experiência parecia algo muito distante de sua realidade. Ele estudou na cidade de Liverpool, na costa da Inglaterra.
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Pedro Guilherme e amigos durante intercâmbio na Inglaterra
Pedro conta que a vivência na Inglaterra ampliou não apenas suas competências linguísticas, mas também sua visão de mundo. “Na minha classificação final de proficiência em inglês, eu fiquei no nível C1. Então, com certeza, eu quero aproveitar isso, quero utilizar para poder até trabalhar lá algum dia e se for possível morar. Na Inglaterra ou em qualquer outro país”, afirma.
Com o Enem já realizado no último mês, o jovem aguarda o resultado e pretende seguir na área de tecnologia. “Quero fazer ciência da computação ou engenharia de software, me tornar um desenvolvedor. Eu posso, por exemplo, trabalhar aqui, remotamente, mas para uma empresa lá da Alemanha ou da Inglaterra”, planeja.
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Estudantes mato-grossenses durante curso de inglês na Inglaterra
“O intercâmbio me ajudou a destravar, a me desenvolver, a ampliar meu repertório, minha bagagem cultural”
Fernanda Gualberto, intercambista
Para Fernanda Gualberto Benvenutti, que saiu de uma escola pequena em Paraíso do Leste, um distrito de Poxoréu com menos de 20 mil habitantes, atravessar o oceano pela primeira vez aos 17 anos foi uma experiência fantástica. Em 2023, ela passou uma temporada em Brighton, cidade litorânea no sul da Inglaterra. Por ser autista, o medo de não se adaptar era o que mais pesava antes da viagem.
No entanto, a jovem, hoje com 19 anos, conta que o que aconteceu foi o contrário: a vivência trouxe transformações profundas, especialmente na forma como ela se relaciona com o mundo e com as pessoas.
“O intercâmbio me ajudou a destravar, a me desenvolver, a ampliar meu repertório, minha bagagem cultural. Aprendi a respeitar os hábitos e a cultura dos outros. Aprendi que ser diferente não é errado”, relata.
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Fernanda Gualberto Benvenutti saiu de Paraíso do Leste, um distrito de Poxoréu com menos de 20 mil habitantes, em 2023, e passou uma temporada em Brighton, litoral sul da Inglaterra.
Entre as memórias que guarda com mais carinho, está o dia em que viu o mar pela primeira vez, algo que acreditava que só conheceria pela televisão. “Foi muito emocionante. Parece até uma coisa meio besta, meio banal. Eu até experimentei a água, só pra saber se era salgada mesmo”, lembra, rindo.
O amadurecimento foi tão significativo que, ao retornar, passou a trabalhar na Diretoria Regional de Educação (DRE), dando os primeiros passos na área administrativa. Hoje, ela cursa Administração em Primavera do Leste, e acaba de concluir o quarto semestre com uma bolsa de 100% conquistada graças à sua nota no Enem. “Depois do intercâmbio, tudo foi se encaixando. De aluna, virei funcionária”.
Virada de chave
“Eles entendem que existem muitas possibilidades no mundo e que sim, podem estar onde quiserem e o caminho é a educação. Através dela, podem ter acesso a tudo”
Dayane Artuzi, coord. de Políticas da Seduc
Para a coordenadora de Política de Línguas Estrangeiras da Seduc, Dayane Artuzi, o programa representa uma virada de chave na vida dos intercambistas. “Quando acessamos alguns depoimentos que eles trazem, vemos o quanto isso é um divisor de águas na vida desses alunos. Temos estudantes que são da zona rural ou de cidades distantes em Mato Grosso, com condições socioeconômicas mais limitadas. O intercâmbio não é algo acessível para a maioria da população brasileira, é um projeto que requer um grande investimento”, relata.
As três edições do programa aconteceram na Inglaterra, um país cuja história atravessa séculos. Para Dayane, a vivência histórica e cultural tem impacto direto no aprendizado.
“O que eles leem nos livros está lá, materializado em objetos, edificações, bibliotecas. Muitas dessas coisas são gratuitas para visitar, e o governo também garante ajuda de custo para que eles possam acessar tudo isso.” Segundo ela, essa imersão provoca uma verdadeira mudança de perspectiva: “Eles entendem que existem muitas possibilidades no mundo e que sim, podem estar onde quiserem e o caminho é a educação. Através dela, podem ter acesso a tudo”.
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Dayane Artuzi com o grupo de professores no programa de intercâmbio
Dayane conta que ela mesma viveu essa transformação: “Eu sempre tive esse sonho [de realizar o intercâmbio], desde minha adolescência, quando comecei a me interessar pela língua inglesa. E nunca foi possível. Eu só consegui também através do programa do governo, como professora e monitora dos estudantes”.
Transformação para quem ensina
Além de transformar a vida dos estudantes, o MT no Mundo também provoca mudanças em quem vive a docência, como conta a professora de Língua Inglesa, Daniela Cristina Bueno Schiel, 55 anos. Lecionando há 38 anos, a educadora participou do intercâmbio em 2025 e o define em uma palavra: transformação. Ela explica que, enquanto para os alunos a viagem representa a abertura de horizontes, para os professores o impacto ocorre em outra camada: atinge diretamente o fazer pedagógico, a prática em sala de aula e a identidade profissional.
“Voltamos com a bagagem cheia de planos. Na sala de aula, o aluno também percebeu que o professor está procurando deixar o inglês mais palpável, numa realidade que ele possa aprender, tirar aquele momento do livro apenas e proporcionar falas dinâmicas”, conta. A vivência a motivou, inclusive, a desenvolver e enviar um novo projeto à Seduc, o Inglês para Todos, criado para acolher diferentes perfis de estudantes.
Pablo Vicente

A educadora é uma entre os 13 professores selecionados para embarcar junto com os 100 estudantes. Além deles, 14 monitores e um psicólogo da rede estadual acompanham os adolescentes. Enquanto os monitores seguem com os grupos de alunos nas cidades em que são alocados, os docentes vão para Londres, onde participam do curso intensivo Teacher Training Courses.
Daniela destaca que o intercâmbio reforçou a percepção de que a escola pública de Mato Grosso tem condições de oferecer um ensino de inglês mais rico e conectado às demandas do mundo atual. “O estado busca cada vez mais mão de obra qualificada, especialmente com a chegada de turistas, o avanço do agronegócio e a inauguração do Parque Novo Mato Grosso. Vamos precisar de pessoas que falem inglês. E por que não começar isso na escola pública?”, questiona.
Acessibilidade e oportunidade realizam sonhos
Para a estudante de Nobres, Lavínea Real Matos dos Santos, de 17 anos, a descoberta de que havia sido selecionada e que sairia do país pela primeira vez foi recebida de maneira racional. Lavínea é cega e a priori questionou-se muito sobre realizar o intercâmbio.
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Lavínea Real Matos dos Santos é deficiente visual e conta sobre a acessibilidade no intercâmbio
Os questionamentos, no entanto, logo foram substituídos pela animação de poder conhecer uma nova cultura e perceber que ser uma pessoa com deficiência não era, em nenhuma camada, uma limitação. Lavínea conta que recebeu todo suporte necessário no decorrer dos 21 dias que abrangem o projeto.
“Cuidaram de mim para me conduzir no meu grupo mesmo, em sala e dentro de casa também. Eu consegui aprender onde ficava tudo dentro de casa. A minha host family também me tratou muito bem e na escola a professora sempre me dava atividades interativas, para que eu também pudesse participar e, apesar de eles nunca terem tido alguém com a minha deficiência lá, fizeram o possível pra me dar todo apoio nesse sentido também”, relembra a estudante.
A adolescente recorda ainda sobre o uso dos óculos com inteligência artificial, que a auxiliavam na hora de ler os textos impressos, entregues a ela pelo Governo de Mato Grosso em 2022. Além do uso do dispositivo, a estudante era acompanhada por uma pessoa que marcava para ela as respostas nos testes e atividades.
Lavínea planeja ainda o momento que levará a família para conhecer o país em que realizou um sonho que sequer sabia que existia e acrescenta a vontade de reencontrar sua host family. “Eu quero ir para levar a minha família, quero levar a minha mãe e os meus irmãos para conhecer”, afirma.
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Lavínea Real Matos dos Santos é deficiente visual e conta sobre a acessibilidade no intercâmbio
Intercâmbio em 2026
O edital da 4ª edição do MT no Mundo foi publicado em outubro. Mais 100 estudantes da rede estadual terão a oportunidade de serem selecionados para o intercâmbio em 2026, também com todas as despesas pagas. Todos os alunos regularmente matriculados no Ensino Médio estadual mato-grossense estão automaticamente inscritos no processo, porém a seleção obedecerá a critérios específicos, entre eles a nota na plataforma Mais Inglês, com base em avaliações de proficiência, e o desenvolvimento escolar. As vagas são distribuídas por regionais.
Após tantos impactos positivos com a experiência, Kawan aconselha outros estudantes que podem ter a mesma oportunidade que ele: “O inglês abre portas. A gente vai pra um outro país, consegue um emprego melhor, vai para uma escola melhor e uma faculdade. E sobre intercâmbio, e qualquer outra conquista: tudo na vida temos que correr atrás. Vai ter que tentar, e, se tudo der certo, você vai ganhar alguma coisa no final das contas. Se não ganhar, pelo menos tem uma experiência a mais para vida, então corra atrás”.
FONTE: RDNEWS







