O jiu-jitsu tem sido usado como ferramenta de transformação social para cerca de 100 crianças e adolescentes atendidos gratuitamente pelo Projeto Fênix, no Centro Comunitário do bairro Parque Cuiabá, na Capital. Criada há três meses, a iniciativa nasceu da experiência do professor de educação física e faixa-preta de jiu-jitsu, Eneias Da Mata Amorim, que conheceu ainda mais jovem o impacto de projetos sociais voltados ao esporte.
Em entrevista especial ao , o treinador contou que a ideia surgiu quando ele participava do projeto Atletas do Rei e acompanhava o trabalho desenvolvido por seu mestre. Ao perceber a mudança provocada na vida das crianças, decidiu que um dia também criaria uma iniciativa própria.
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Antes de criar o Fênix, Eneias passou cerca de um ano e oito meses ajudando em um projeto desenvolvido em parceria com a Polícia Militar no Parque Cuiabá. Depois, decidiu dar um novo passo e montar uma iniciativa independente, com o objetivo de ampliar o atendimento às crianças.
“Foi aquela sementinha plantada que eu vi lá no projeto Atletas do Rei. Aí eu falei: vou tocar isso aí para frente também”, relata o faixa-preta de luta livre e também instrutor de boxe.
No Fênix, o jiu-jitsu não é colocado como prioridade. Para permanecer no projeto, os alunos precisam frequentar a escola, apresentar bom desempenho e demonstrar disciplina também dentro de casa. Segundo Eneias, os pais são orientados a acompanhar o comportamento e o desempenho dos filhos. Até o momento, afirma que os retornos recebidos das famílias e das escolas têm sido positivos.
“A arte marcial no projeto fica em segundo plano. A prioridade que eu peço a eles é fora daqui, na escola, em casa. Porque para você ser um bom atleta, você tem que ser um bom estudante e um bom filho”, explica.
Rodinei Crescêncio/Rdnews

Instrumento de disciplina
Uma das histórias que mais representa a proposta do projeto é a de um aluno que havia deixado de frequentar a escola. Interessado em participar das aulas de jiu-jitsu porque os amigos já faziam parte da iniciativa, ele recebeu uma condição para conquistar uma vaga, que foi a de voltar a estudar.
Segundo o faixa-preta, o adolescente procurou a escola, retomou os estudos e passou a frequentar os treinamentos. Para Eneias, a cobrança faz parte do processo de formação, quando os alunos são orientados a manter um comportamento disciplinado também no ambiente escolar.
“Eu falo para eles: lá na escola vocês são diferenciados. Vocês são jiu-jiteiros. Vocês têm que mostrar que são inteligentes, não são pessoas de confusão”, conta.
Além da questão escolar, o professor afirma que a equipe procura acompanhar de perto os problemas enfrentados pelas famílias. Há crianças que chegam ao projeto abaladas por conflitos familiares, ausência dos pais, dificuldades financeiras ou situações de bullying.
Nesses casos, a proposta é conversar com os alunos e, quando possível, também auxiliar as famílias. De acordo com o professor, os próprios pais dos participantes ajudam na manutenção da iniciativa. Quando uma família enfrenta alguma dificuldade, são realizadas mobilizações para arrecadar recursos e prestar auxílio.
60 medalhas em três meses
Apesar do pouco tempo de existência, o Projeto Fênix já apresenta resultados expressivos nas competições. Segundo Eneias, os alunos participaram de aproximadamente três campeonatos desde a criação da iniciativa e conquistaram cerca de 60 medalhas.
Uma das atletas que se destacou foi Isabely Delgado, que conquistou o primeiro lugar no Campeonato Mato-grossense de Jiu-jitsu, realizado no último final de semana, no Aecim Tocantins, em Cuiabá.
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Isabely Delgado, de kimono branco, garantiu o primeiro lugar Campeonato Mato-grossense de Jiu-jitsu, em Cuiabá
Para o professor, a conquista representa o resultado de um trabalho que envolve atleta, família, escola e projeto.
“Mostra força e a gente está indo pelo caminho certo. Porque a criança está na escola, está bem em casa e, quando vai para uma competição, ainda consegue o primeiro lugar”, afirma.
Outra história de destaque é a de um adolescente de 13 anos, apelidado de “Cowboy”. Em sua primeira competição, após um período de preparação, ele venceu quatro lutas e conquistou o título sem nunca ter competido anteriormente. O desempenho, segundo o professor, é resultado de uma preparação que busca respeitar os limites físicos das crianças e adolescentes.
Falta de tatames e kimonos
O crescimento do projeto, porém, também trouxe dificuldades estruturais. Sem cobrar qualquer valor dos alunos, o Fênix depende de doações e da colaboração das famílias para manter as atividades. Atualmente, o projeto possui 70 placas de tatame emprestadas, mas atende cerca de 100 alunos. A necessidade estimada é de pelo menos 150 placas.
A falta de equipamentos também afeta os treinamentos. Cerca de 90% dos alunos não possuem kimono próprio, equipamento que, segundo o professor, pode custar aproximadamente R$ 300.
“Eu estou com 100 alunos, onde preciso de muito mais placas. Eu preciso de pelo menos 150 placas”, explica.
Como parte dos tatames utilizados foi emprestada por pessoas diferentes, as placas não se encaixam perfeitamente. Por isso, alguns treinamentos precisam ser limitados para reduzir o risco de acidentes.
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Até o momento, o projeto também não havia recebido patrocínio financeiro. A manutenção do espaço é feita com a ajuda dos pais e colaboradores. Os responsáveis chegaram a realizar melhorias no centro comunitário utilizado pelo projeto, no Parque Cuiabá, incluindo reparos nos banheiros, instalações elétricas e instalação de ventiladores.
Recentemente, o Fênix conseguiu o primeiro apoio empresarial, quando uma empresa do setor de hortifrúti passou a fornecer frutas para os alunos duas vezes por semana.
Eneias está no último semestre do curso de Educação Física e afirma que os conhecimentos adquiridos na faculdade são aplicados diretamente nos treinamentos. Nas aulas para as crianças menores, por exemplo, são utilizadas atividades lúdicas para desenvolver movimentos relacionados ao jiu-jitsu. Com os adolescentes iniciantes, o trabalho começa pelo fortalecimento muscular e pela preparação física antes da introdução de técnicas mais complexas.
A rotina também é dividida por idade e nível de treinamento. Crianças de 5 a 11 anos treinam às segundas e terças-feiras. Os alunos de 12 a 17 anos têm atividades às quartas e sextas. Há ainda treinamentos específicos para competidores e aulas de luta sem kimono.
O professor conta com a ajuda de outros colaboradores, entre eles Fabrício, faixa-azul que auxilia nos treinamentos, Estela, responsável por questões administrativas, e Lirian, que ajuda na busca por patrocínios.
Eu não viso eles só como atleta, mas também como cidadãos
“Eu não viso eles só como atleta, mas também como cidadãos. Primeiro eu busco lapidar todos para virar bons cidadãos. Aí, no meio desse caminho, se eles quiserem virar atleta, que é um caminho bem difícil. Eu posso tirar professor, eu posso tirar um médico, eu posso tirar um policial, eu posso tirar um dentista. Eu não estou aqui só cavucando atleta. Eu quero cavar pessoas de futuro”, disse ao 
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De olho no futuro
Questionado sobre as projeções para o futuro, Eneias afirmou que a meta para os próximos anos é ampliar o Projeto Fênix e levar a mesma metodologia para outros bairros. A intenção também é transformar a iniciativa em uma estrutura que atenda não apenas as crianças, mas as famílias como um todo. Entre os planos estão futuras parcerias com psicólogos, terapeutas e profissionais que possam contribuir em outras áreas de assistência.
Para isso, no entanto, o projeto precisa primeiro conquistar uma estrutura adequada e ampliar a rede de parceiros. No campo esportivo, a expectativa também é levar os atletas que já competem há mais tempo para torneios fora de Mato Grosso. Segundo o professor, duas meninas já estão ranqueadas e têm perspectiva de disputar o Campeonato Brasileiro no próximo ano.
“A minha meta é não deixar ninguém para trás”, resume.
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FONTE: RDNEWS







