Existe padre ou pastor que pede voto na igreja? Existe. Mas isso só acontece numa fatia bem pequena delas.
É uma afirmação que contraria o senso comum sobre o “voto de cajado”, prática em que lideranças religiosas orientam ou pressionam seus fiéis a seguir determinada visão política. E ela vem ancorada em dados.
Um estudo conduzido pela More in Common Brasil em parceria com o Passagens, grupo de pesquisa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), analisou 7.456 missas e cultos em 25 estados (menos o Acre), mais o Distrito Federal, durante os dois domingos que antecederam o primeiro turno das eleições.
Além de 1.785 templos católicos espalhados pelo país, os pesquisadores monitoraram 3.596 cultos batistas e 2.075 da Assembleia de Deus, duas denominações evangélicas bastante populares e pulverizadas – igrejas sob sua aba podem ter autonomia absoluta e inclusive discordarem entre si em aspectos administrativos e também políticos.
A meta era descobrir quanto de fato se vê de discurso político nas igrejas. Saldo: apenas 237 transmissões (3,2%) das reuniões nos dias 20 e 27 de setembro tiveram propaganda eleitoral. O levantamento a define como “todas as práticas que promovem ou atacam uma candidatura, direta ou indiretamente”, do pedido explícito de voto à bênção de um candidato ou campo político.
Cinco vezes menos, portanto, do que os 1.141 conteúdos (15,3%) enquadrados como cívicos – pregações contra a polarização e estímulos ao voto consciente, sem indicar candidato “a” ou “b” nem sinalizar predileção por direita ou esquerda, por exemplo.
Caso de uma igreja batista de Niterói (RJ) onde o pastor pregou “voto com responsabilidade”, ainda que fosse preciso procurar o candidato “menos piorzinho”. O mais importante era lembrar que a comunhão que Cristo queria “não é ideologia” nem “filosofia partidária”, disse. Então nada de arrumar confusão com seus próximos “por causa de eleição, porque depois estão tudo junto lá, e você brigado com seu vizinho, com seu parente”.
Uma missa em São José dos Campos (SP) teve sugestões para escolher candidatos “que respeitam a vida, o meio ambiente e estejam dispostos a batalhar pelos direitos dos mais necessitados”, sem esquecer que, “após as eleições, os partidos passam”, e “vamos continuar sentando nos mesmos bancos da igreja”.
A ampla maioria das 13.886 horas transcritas nada fala sobre as eleições. Os canais de YouTube que abasteceram a pesquisa variam em tamanho. Há os peixes grandes, como as Assembleias de Deus de Pernambuco (874 mil) e Vitória em Cristo, de Silas Malafaia (485 mil), e a Igreja Batista da Lagoinha (795 mil inscritos). Mas também os pequenos, do porte da cearense Assembleia de Deus Brasa, Peixe e Pão (68 seguidores).
Pablo Ortellado, professor da USP e diretor-executivo da More in Common, relativiza a tese do voto de cajado, tão presente no imaginário popular.
Primeiro, há distorção sobre seu alcance, que não é tão grande quanto se fala por aí, diz.
Aqui o estereótipo da ovelha submissa ao pastor atinge um lado com mais força. “Existe muito preconceito do mundo letrado, que ou é católico ou sem religião, em relação aos evangélicos, tratados como um grupo sem instrução que é manipulado pelas suas lideranças.”
Também é verdade que as igrejas pentecostais pedem “mais voto, e de uma maneira descarada”, ainda que não mencionem nomes no púlpito, afirma Ortellado.
O pastor de uma Assembleia de Deus em Valparaíso de Goiás (GO) disse que não podia pedir voto para ninguém. “Mas eu posso te orientar, tá bom? Então, se você, de livre e espontânea vontade, aceitar, eu vou colocar um adesivo no seu carro.” Pediu que os interessados o procurem depois do culto.
Em outra Assembleia, essa em Balneário Camboriú, o pastor começou com um “eita glória, queridos” e disse na sequência que votaria em “cristãos que defendem a família”. Importavam-lhe “essas bandeiras de combate às drogas, à corrupção, à criminalidade”. “Se vocês quiserem, eu dou a dica para vocês, os obreiros também, pra gente votar certinho, tá?”.
A lei eleitoral considera os templos religiosos bens de uso comum, que são espaços aos quais o povo em geral tem acesso, sejam eles geridos pelo Estado, sejam propriedade privada – comércios e estádios entram na mesma categoria. A regra é vetar qualquer tipo de campanha eleitoral neles.
Há estratégias para contornar a norma. Ora é a oferta de adesivos para carros, ora chamar candidatos para uma bênção coletiva. Aconteceu algo parecido na véspera do 7 de Setembro, quando o pastor André Fernandes recebeu Flávio Bolsonaro na sua “house of prayer”, a Celeiro. Afirmou que jamais pediria “pra ninguém votar em ninguém”, mas não se furtaria a dizer que sua opção na urna era o candidato do PL.
Esse comportamento, contudo, é a exceção da exceção, mais comum em pastores midiáticos, como é o caso de Fernandes. A indicação política explícita é minoritária nos templos. Quando ocorre, o foco quase nunca se volta para a disputa presidencial.
A prioridade costuma ser a concorrência para o Legislativo, como o pastor assembleiano em Paulo Ramos (MA) que incentivou orações para “três irmãos crentes, uma deputada federal, dois estaduais”. Um fiel o advertiu que, “se for para fazer isso no grupo de igreja”, ele preferia sair. A resposta: “Saia.”
A Igreja Católica não está imune ao fenômeno. No domingo anterior ao pleito, o padre de uma paróquia goiana citou a fake news de que Flávio se movimenta para derrubar Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Seria, segundo o pároco, “uma tática de todo governo comunista, socialista, esquerdista, que nome queiram dar: dividir para governar”.
Exemplos assim existem, mas, ao menos nas reuniões analisadas nessa reta final para o primeiro turno, o tema passou ao largo da maior parte das pregações.
A voltagem política varia consideravelmente de acordo com a vertente religiosa. A propaganda eleitoral foi identificada em apenas 0,7% das missas católicas. Nos espaços batistas, o índice subiu para 1,4%, enquanto nas Assembleias alcançou 8,3%. Já o conteúdo cívico liderou entre os católicos (19,9%), seguidos pela Assembleia de Deus (16,7%) e pelas igrejas batistas (12,2%).
O antropólogo Rodrigo Toniol, da UFRJ, lembra que há outros canais que não o púlpito para fazer a mensagem política chegar. Os próprios líderes parecem reconhecer um limite para aquilo que pode ser dito publicamente, daí sugerirem que as pessoas os busquem em privado.
“A gente não tem acesso a como essa conversa circula na entrada e na saída da igreja, nos grupos de WhatsApp. Então não significa que não haja outras formas de propaganda política.”
Toniol aponta uma dimensão soteriológica no material escrutinado. Soteriologia é a parte da teologia que tenta entender como as pessoas são salvas do mal e do que muitos chamam de pecados.
Mesmo em celebrações fortemente politizadas, “a ação eleitoral frequentemente é relativizada pela afirmação de que o resultado das urnas não ocupa o lugar da soberania divina”, afirma o pesquisador.
Resumindo: a eleição importa, e todo bom cristão pode e deve se mobilizar em torno dela, mas Deus é mais, segundo essa visão. “A política é absorvida por uma gramática religiosa que simultaneamente exige participação do fiel e limita sua importância última.”
FONTE: MIDIA NEWS







