Futuro presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT), o desembargador José Luiz Lindote defendeu a fixação de 55 anos como idade mínima para o ingresso de ministros no Supremo Tribunal Federal (STF) e nos demais tribunais superiores.
A idade para ingresso nos tribunais superiores [deveria ser] acima de 55 anos
Para Lindote, a mudança seria uma alternativa à criação de mandatos fixos discutida por parte da classe política e permitiria que os ministros chegassem às cortes com maior experiência, além de favorecer a renovação com a aposentadoria compulsória aos 75 anos.
“Precisamos ter uma idade mínima no ingresso nos tribunais superiores, sim. E a idade para ingresso nos tribunais superiores [deveria ser] acima de 55 anos”, afirmou em entrevista ao MidiaNews.
Eleito para comandar o TJ-MT no biênio 2027-2028, Lindote afirmou ainda que mudanças na composição das cortes superiores devem ser discutidas pelo Congresso Nacional.
Na entrevista, o desembargador também falou sobre a crise de credibilidade do STF, investigações envolvendo magistrados de Mato Grosso e os planos para reestruturar o Judiciário estadual, com a previsão de criação de até 20 novas unidades de serviços da justiça.
Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria):
MidiaNews – Muito se tem cobrado no cenário nacional uma reforma estrutural no Judiciário. O senhor é a favor de mandatos para ministros do STF e também a outros membros do Judiciário?
José Luiz Lindote – A reforma do Judiciário acontece de forma fracionada. Hoje, a gente vê na imprensa, principalmente agora na eleição, muitos senadores que foram eleitos com essa bandeira, de alteração no Supremo, pedido de impeachment de ministros do Supremo.
As mudanças sempre são necessárias, mas devem ser precedidas de estudos e levantamento, alguns defendem mandato, outros defendem uma idade mínima para ingresso no Supremo e nos tribunais superiores, uma situação que passa pelo Congresso e que vai decidir.
E de todas essas medidas para mim, o que eu entendo, é a que deve ser precedida de idade mínima para entrada no Tribunal Superior. Nós temos que ter no tribunal pessoas já com uma certa armadura e também que o tempo que essa pessoa fica no tribunal seja menor. Não estipular um mandato. Eu acredito que não seria a melhor solução, mas uma idade mínima para entrar não deixa de dar um mandato para ele, mas com o tempo que ele sabe que vai sair pela idade.
MidiaNews – Esse tempo, o senhor poderia dizer uma idade, aproximadamente?
José Luiz Lindote – Eu acho que o Congresso Nacional terá a sabedoria e a experiência necessária para decidir. Agora que nós precisamos ter uma idade mínima no ingresso nos tribunais superiores, sim. E a idade para ingresso nos tribunais superiores acima de 55 anos.
O teto hoje é 75 anos, é um limite. Nós tivemos um caso recente em Mato Grosso que aposentamos com 75 anos, que as pessoas têm todas as condições de trabalhar, e continuam trabalhando fora do Poder Judiciário. Mas temos que ter a renovação, e 75 anos para mim é uma idade ideal.

Precisamos fazer uma readequação da estrutura do Poder Judiciário
MidiaNews – Há uma sensação de descrédito do Judiciário como um todo, diante de várias situações que tivemos recentemente. Existe de fato essa crise de credibilidade? É mais em função de uma sociedade mais exigente ou do excesso cometido pelos próprios membros do Judiciário?
José Luiz Lindote – Hoje, a gente vê na imprensa local a crise do judiciário. Na verdade, é a crise que está acontecendo dentro do Supremo Tribunal Federal, e de lá reflete no judiciário como um todo. Mas não vejo a sociedade aqui falando do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, a não ser algumas questões pontuais que ocorreram há dois anos. Eu não vejo essa crise. A crise é no âmbito do Supremo Tribunal Federal e lá deve ser resolvida.
MidiaNews – O senhor foi eleito presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT) para o biênio 2027-2028. Quais serão as marcas da gestão? O que não está certo dentro do Poder Judiciário e que precisa ser corrigido?
José Luiz Lindote – A nova gestão tem um desafio: levar a prestação judicial a todas as pessoas de Mato Grosso. E para que isso aconteça, precisamos de algumas mudanças, que já estão começando a ser feitas ainda nessa gestão.
Precisamos fazer uma readequação da estrutura do Poder Judiciário. Temos hoje um Estado pujante, crescendo em todas as regiões e, naturalmente, algumas desenvolveram melhor que outras. Onde houve um maior crescimento populacional e o Poder Judiciário tem que se adequar a essa realidade.
Então, fizemos um levantamento ainda como corregedor. Há mais de um ano estamos trabalhando nesse projeto, fazendo estudo, vendo a distribuição real das comarcas, a distribuição qualificada de processos, processos mais complexos, alguns mais simples. E dentro desses estudos identificamos quais comarcas têm mais necessidade.
Dentro desse projeto temos a previsão de extinção de algumas comarcas, no momento três, e bem como a extinção de algumas varas que já não se fazem necessárias. A exemplo, nós temos a vara de improbidade administrativa, que num passado bem moderno, pouco tempo atrás, era uma das que mais recebia processos, processos de altas complexidades.
E hoje, como com as mudanças da lei, com novos entendimentos, é uma vara que recebe poucos processos. E tem dois magistrados, então há necessidade de se fazer adequação.
Com a criação dos juízes de garantia, tiramos os inquéritos judiciais de todas as varas penais. Então elas diminuíram um pouco a quantidade de distribuição de processos. Então há necessidade de fazer todas essas adequações.
MidiaNews – O judiciário brasileiro é considerado burocrático e, muitas vezes, tem processos que demoram para ser julgados. No caso do TJ-MT, é possível enxugar algumas estruturas, reformular, sem comprometer o serviço que é prestado ao judicionado ou à própria população, além dessa que o senhor citou?
José Luiz Lindote – A demora do Poder Judiciário decorre de inúmeros fatores. Leis que não são adequadas, a possibilidade de muitos recursos, em toda decisão, há N recursos, às vezes, uma simples decisão aqui e chega ao Supremo Tribunal Federal. Disso decorre a morosidade. Mas estamos trabalhando, dando estrutura para os magistrados fazerem pareceres mais ágeis. Essa reestruturação vai, com certeza, trazer maior celeridade ao judiciário. Mas a demora da prestação judicial é uma questão mais complexa.
Estamos trabalhando, estamos melhorando. A prova disso é o selo de qualidade. Fomos Selo Diamante ano passado. Este ano, temos 99,9% de repetirmos o selo. Provavelmente, vamos continuar Selo Diamante até com um percentual maior. Isso quer dizer que o CNJ está atestando que o Poder Judiciário de Mato Grosso está prestando um serviço melhor aos seus jurisdicionados.
MidiaNews – Outra questão é que a morosidade da Justiça é sempre reclamada pela população. Existe um tempo longo para processos serem julgados. Pretende, no caso do TJ-MT, tomar algumas medidas ou adotar algumas ações concretas para tornar mais ágil?
José Luiz Lindote – Esse é um trabalho constante que o Poder Judiciário vem fazendo. A Corregedoria atua junto à primeira instância. Acompanhamos a produtividade mensal de cada magistrado. Fazemos um trabalho de cooperação com aqueles magistrados, por exemplo, nessas comarcas que citei. A distribuição de processos é desproporcional à força de trabalho que temos lá. E, nesses casos, levamos uma força extra de magistrados, de servidores que atuam naquela unidade, diminuindo, despachando e tirando.
Mas, como disse, a distribuição é muito grande. Então, isso aí é algo momentâneo, que se resolve temporariamente uma situação e ela volta de novo. Então, essa melhora só virá com essa reestruturação, quando colocaremos uma força de trabalho efetiva nessas cidades.

O CNJ dá uma certidão de regularidade falando que os salários estão de conformidade com as decisões do Supremo e autoriza o pagamento
MidiaNews – O Judiciário é sempre criticado pelos altos salários, que, em certas circunstâncias, ultrapassa o teto constitucional de cerca de R$ 46 mil com verbas adicionais, os famosos penduricalhos. Esse modelo é justificável? Qual a sua avaliação para essa questão?
José Luiz Lindote – Hoje, se comparado a nossa remuneração com a do setor privado, no mesmo nível de responsabilidade, no mesmo nível de força de trabalho, nós não somos tão bem remunerados. Atualmente, o Supremo Tribunal disciplinou a questão salarial dos servidores.
Hoje, existe o teto, que é o teto do ministro do Supremo e alguns direitos constitucionais que foram garantidos. Nada mais além disso pode ser recebido. Para se ter uma ideia, essa questão salarial hoje é nacional.
Então, hoje o que o magistrado de Mato Grosso recebe é o mesmo que o magistrado de São Paulo ou do Piauí recebe. Então, é o mesmo salário, é a mesma rubrica. Para o Judiciário de Mato Grosso poder pagar um salário, ele faz uma folha de pagamento, encaminha essa folha para o CNJ antes. Isso é feito todo mês. O CNJ dá uma certidão de regularidade falando que os salários estão de conformidade com as decisões do Supremo e autoriza o pagamento.
Então, essa questão salarial é ultrapassada. A questão de alto salário não existe, é um salário justo, embora um pouco defasado ainda, porque a magistratura não recebe correção anual como os demais servidores do Brasil. Então, recebemos praticamente recomposição salarial parcial a cada 5, 6 anos atualmente. Devemos estar uns 4 anos sem ter nenhum reajuste. Então, não há alto salário, são salários justos e módicos, diria assim.
MidiaNews – Ao mesmo tempo em que se discute a remuneração dos magistrados, o Judiciário também cobra produtividade e eficiência de seus membros. O que acontece quando um magistrado apresenta sistematicamente baixa produtividade?
José Luiz Lindote – Nós estamos fazendo o nosso dever de casa aqui. Uma baixa produtividade é um desvio de conduta, uma falta de zelo falta de assiduidade…
Nós instalamos pelo menos uns 5 procedimentos, afastamos 2 magistrados e uma magistrada foi demitida por baixa produtividade. Então, quando acontece essa situação devidamente comprovada, cobramos e apuramos, abrimos sindicância, mas o controle é individual. A Corregedoria de Mato Grosso tem instrumentos que identificam mensalmente a produtividade do nosso magistrado.
MidiaNews – E tem como fazer essas correções? Quando for o caso de acontecer isso que o senhor citou?
José Luiz Lindote – Tivemos um magistrado aqui de uma comarca próxima que ficou afastado e continua recebendo, continua ainda sendo julgado o processo dele. Ele retornou e melhorou muito a produção.
Nós tivemos uma magistrada de Vila Bela, que estava no estágio probatório com baixa produtividade, ausência da comarca injustificada, uma outra série de irregularidades administrativas, não são irregularidades de desvio de conduta, improbidade. E foi afastada do Poder Judiciário e foi demitida.
Nós tivemos outra magistrada recentemente com desvio de conduta de Rondonópolis que favoreceu o marido dela em determinada situação de crime, também foi demitida, nós temos ainda alguns magistrados que continuam afastados e vão ser julgados ainda este ano.
Então, Mato Grosso faz o dever de casa, estamos demonstrando à sociedade que queremos um tribunal melhor.
MidiaNews – Acredita que hoje o Judiciário brasileiro, especificamente o STF, tem assumido um protagonismo político excessivo, interferindo em algumas questões que deveriam ser tocadas pelo Legislativo e pelo próprio Executivo? Qual é o limite dessa atuação, no caso dos ministros do STF e das Cortes Superiores como um todo?
José Luiz Lindote – Eu vou voltar um pouquinho na forma da composição do Supremo além da reforma, além da idade mínima. A forma de escolha do Tribunal mostra o que está acontecendo hoje. O presidente escolhe o ministro. Hoje, temos um grupo que foi escolhido por uma ala política e outros ministros foram escolhidos por outra corrente política.
E isso está refletindo no Poder Judiciário, nas decisões que estão acontecendo lá no Supremo. Mas o Supremo, assim como o Poder Judiciário, não intromete nas questões, ele é acionado. Não se pode dizer que o Supremo está invadindo outras áreas. Na verdade, ele está dando uma decisão sobre uma questão que foi provocado.

Temos um grupo que foi escolhido por uma ala política e outros ministros foram escolhidos por outra corrente política
MidiaNews – Fazendo uma correção necessária no caso que for preciso, seria isso?
José Luiz Lindote – Ele dá a decisão, há uma provocação sobre alegação de determinada desrespeito a algum direito constitucional. O Supremo, uma vez provocado, tem que dar a decisãs. Às vezes, essa decisão invade algumas competências, pelo menos há essa essa alegação da classe política, mas na verdade está dando uma decisão sobre algo que foi provocado.
MidiaNews – O senhor citou a questão da composição das cortes superiores, que hoje é prerrogativa do presidente da República, e o Senado aprova ou desaprova. Defende a ideia atual de se ter um colegiado para escolher um ministro da STF ou de cortes superiores, ao invés do presidente ter essa atribuição exclusiva?
José Luiz Lindote – Com certeza teria muito mais acerto se houvesse uma composição semelhante ao que acontece nos tribunais de justiça do Estado, onde temos a participação da OAB, temos a participação do Ministério Público dentro do Quinto e os demais magistrados dos tribunais estaduais.
Eles são juízes de carreira, então esse modelo poderia ser adotado no Supremo. Uma composição de juízes vindo da carreira já seriam juízes experientes, juízes escolhidos que poderiam ser selecionados sobre vários aspectos e critérios e também membros do Ministério Público e da OAB. Esse seria um modelo ideal e não deixar simplesmente para critério político.
MidiaNews – Não deixar exclusivamente na mão do presidente e seria um colegiado dentro dessas instituições para a escolha?
José Luiz Lindote – Porque hoje a escolha é política, o presidente escolhe e o Senado referenda, salvo uma exceção que ocorreu agora recente do [Jorge] Messias, que não foi sancionado, chancelado pelos senadores.
MidiaNews – Ainda sobre essa questão do STF, é possível pacificar a atual situação? Há uma saída para a crise?
José Luiz Lindote – Com certeza, os ministros do Supremo vão achar uma solução para essa crise. É possível e vai acontecer.
MidiaNews – Em Mato Grosso, tivemos algumas turbulências também como no STF. O senhor como corregedor acompanhou o afastamento dos desembargadores Sebastão Moraes Filho e João Ferreira Filho. Qual é a análise faz do Judiciário aqui no Estado diante do fato que o coloca também em descrédito?
José Luiz Lindote – Aqui, tivemos o afastamento de dois magistrados na Operação Sisanmes. Um já foi aposentado por idade e o outro o processo continua em tramitação no CNJ. Houve um pedido recente de prorrogação por 140 dias. Então, ele deve ser julgado. Vai ser condenado ou absolvido e teremos uma solução.
Aqui no âmbito do Poder Judiciário todos os processos estão em tramitação. Esta Corregedoria vai pautar ainda daqui até ao final do ano todos os processos. Eles serão julgados naturalmente. Dando direito à ampla defesa. Aqueles em que não se comprovar qualquer culpa, vão ser absolvidos. Aqueles onde se comprovar, vão ser, dependendo da gravidade do fato, demitidos ou até mesmo aposentados.
O magistrado hoje acabou com a aposentadoria compulsória. Ou você demite ou afasta sem a possibilidade de demissão. Mas volto a dizer: Mato Grosso fez o dever de casa como nenhum outro tribunal nesse país fez. Então, estamos com a consciência tranquila. Sofremos os desgastes e vamos colher os frutos daqui para frente de um tribunal mais tranquilo, mais pacífico.
O exemplo disso aqui é a eleição atual do tribunal desde que começaram realmente as eleições nunca se teve uma candidatura única para todos os cargos, com exceção do TRE não teve disputa para nenhum cargo, para nenhuma comissão para nada no tribunal de Mato Grosso então isso é um exemplo de que o tribunal está unido e está imbuído de uma vontade de trazer a melhor prestação judicial.

Mato Grosso fez o dever de casa como nenhum outro tribunal nesse país fez
MidiaNews – O Judiciário de MT já mostrou que pode “cartar na própria carne” caso seja necessário para manter a boa imagem. O que a administração do senhor pode fazer – além – para mudar essa percepção da sociedade de um judiciário ruim?
José Luiz Lindote – Eu não posso dizer aqui que a sociedade vê o judiciário como um exemplo, como uma instituição que está perfeita. Isso não existe, não existe perfeição. Agora a sociedade está vendo, está percebendo essa mudança de postura, com certeza.
MidiaNews – A Operação Sisanmes levou ao afastamento de dois magistrados do TJ-MT. O que esse episódio da suspeita de comercialização de sentenças judiciais revelou na questão dos mecanismos de controle interno? Existe uma forma de identificar isso e corrigir para que não ocorrer mais?
José Luiz Lindote – O controle interno existe, mas, como em todas as categorias e todas as classes, sempre há casos isolados de desvio de conduta. Quando acontece, é apurado.
A Operação Sisanmes, embora o epicentro ocorreu aqui em Mato Grosso, o principal envolvido, Andreson Gonçalves, seja morador de Mato Grosso, ele repercutiu em vários tribunais de justiça aqui no Brasil, Mato Grosso do Sul, Tocantins, gabinetes do STJ e assessores.
Então, a apuração desse fato não passou por Mato Grosso, a não ser mais recentemente o inquérito judicial do juiz Ivan [Lúcio Amarante], que houve a determinação para ele ser apurado aqui na Corregedoria, isso é uma questão de 20 dias atrás. Agora a responsabilidade única da Operação Sisanmes que está sendo apurada dentro de Mato Grosso é com relação ao juiz Ivan. Com relação aos demais, a relatoria ainda permanece com o ministro Cristiano Zanin, do Supremo.
MidiaNews – E foram adotadas durante a sua gestão na Corregedoria outras medidas para corrigir irregularidades e mudar alguma questão de mecanismo de fiscalização?
José Luiz Lindote – Não há como você ter um mecanismo de detectar venda de sentença, ou você apura numa correção, numa análise de um determinado processo um desvio de conduta, ou você recebe uma denúncia, uma representação da parte que foi prejudicada. Não existe uma forma de você identificar algum desvio de conduta, mas a reiteração de condutas, às vezes, facilita e possibilita a identificação desses desvios.
MidiaNews – Mas mudou alguma coisa no mecanismo de fiscalização?
José Luiz Lindote – Eu acho que o que mudou mais foi a postura do tribunal de não ser transigente com esse tipo de conduta. Tivemos uma postura firme, de identificar o desvio e dar a punição exemplar nas pessoas que fizeram isso, com o afastamento a abertura rápida de uma investigação.
Essa é uma medida que traz uma prevenção, uma inibição, a pessoa que queira fazer isso.
MidiaNews – Em outubro de 2024, os desembargadores Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho foram afastados. Na ocasião, o senhor afirmou que os casos estavam sendo apurados pelo CNJ e pelo STJ. Até onde vai a competência da Corregedoria do TJ-MT nessas situações? O Tribunal dispõe de instrumentos para fiscalizar seus próprios integrantes?
José Luiz Lindote – A Corregedoria atua no primeiro grau. Como, nesse caso específico, ocorreu com magistrados do segundo grau, eles continuam sendo apurados pelo Conselho Nacional de Justiça. Quando há denúncia de desvio de conduta no segundo grau, cabe ao presidente tomar as providências. Essa é a situação.
Mas, normalmente, quando ocorrem problemas no segundo grau, eles vão para o Conselho Nacional de Justiça, invariavelmente.
Existe a competência do presidente para determinar a abertura de um procedimento. Mas eu não tenho conhecimento recente de que houve algum procedimento aberto por algum presidente para apurar desvio de conduta de magistrado de segundo grau.

O que mudou mais foi a postura do tribunal de não ser transigente com esse tipo de conduta. Tivemos uma postura firme, de identificar o desvio e dar punição exemplar
MidiaNews – No caso da Operação Sisamnes, que levou ao afastamento de dois magistrados do TJ-MT, a existência de suspeitas envolvendo integrantes de outros tribunais e auxiliares de ministros do STJ fez com que o caso fosse levado às instâncias superiores. Se fosse um episódio isolado, a investigação poderia permanecer no próprio Tribunal?
José Luiz Lindote – Eu não acho que seja uma teia. Eu vejo que a pessoa que está envolvida, o Andreson, tinha envolvimento com magistrados aqui de Mato Grosso e, de uma forma individual e separada, também tinha envolvimento com ministros, com assessores de gabinetes de ministros e com outros membros do Tribunal de Justiça de Tocantins.
Então, é assim: não havia aqui um envolvimento de magistrado daqui com magistrados de outros Estados, formando algum tipo de união, de interesse. Mas, sim, o Andreson tinha atividades em vários tribunais, e um deles, Mato Grosso.
MidiaNews – Esse episódio provocou desgaste à imagem do Judiciário. O senhor afirmou que o Tribunal agiu rapidamente ao afastar os magistrados. Como garantir uma apuração ágil, conclusiva e transparente sem comprometer a presunção de inocência, o contraditório e a ampla defesa?
José Luiz Lindote – A tomada de providências é rápida. Nós estamos tomando praticamente imediatamente. Mas, para garantir o contraditório, a ampla defesa e também para você ter uma investigação mais efetiva, leva-se um tempo. Por isso essa demora até o término do julgamento.
Mas todos os procedimentos estão tendo seu trâmite regular. Às vezes, alguns podem andar mais rápido que outros, mas todos estão tramitando.
MidiaNews – O senhor considera adequado o atual modelo de responsabilização de magistrados que cometem infrações? É necessária alguma mudança na legislação para tornar as punições mais rigorosas?
José Luiz Lindote – Hoje não existe mais aposentadoria compulsória. Então, o magistrado que cometer algum desvio de conduta e for condenado vai ser demitido igual a um trabalhador normal. Não tem diferença nenhuma de um trabalhador da iniciativa privada.
Agora, por outro lado, o magistrado contribui, assim como o servidor da iniciativa privada contribui para a Previdência. E ele deve receber também a sua aposentadoria na medida em que contribuiu durante o tempo dele de magistratura.
Quando da aposentadoria compulsória também não era diferente. Ele simplesmente era aposentado, mas proporcionalmente ao valor e ao tempo que contribuiu. Agora ficou muito mais rigoroso. Com esse novo posicionamento do Supremo com relação à questão constitucional da aposentadoria, hoje o magistrado é demitido. Não recebe mais salário.
MidiaNews – A decisão do STF extinguiu uma forma de punição que era alvo de críticas e afetava a própria imagem do Judiciário. Considera que a medida é suficiente ou ainda são necessárias mudanças na legislação para tornar as punições mais rigorosas?
José Luiz Lindote – Eu acho que a decisão do Supremo é bem efetiva, é bem prática. Ocorrendo, no âmbito do julgamento nos tribunais, um julgamento em que algum membro for considerado culpado da acusação, esse processo é enviado ao Conselho Nacional de Justiça.
O Conselho encaminha para a AGU, que propõe uma ação junto ao Supremo de perda de mandato, de perda do cargo. Então, eu acho que esse procedimento existe, está bem claro e não há nada de impunidade nesse procedimento.

Enquanto houver desvio de conduta, essas medidas de controle nós vamos tomar
MidiaNews – O TJ-MT dispõe de mecanismos para identificar relações impróprias entre magistrados, advogados ou partes interessadas em processos? Ao assumir a Presidência, o senhor pretende ampliar auditorias, cruzamentos de dados e canais protegidos de denúncia?
José Luiz Lindote – O Tribunal tem sido intransigente com o desvio de conduta e vamos continuar sendo. Então, já temos vários mecanismos de controle e, se for necessário, no decorrer, podemos implementar e modernizar cada uma dessas medidas.
Nós sempre vamos atuar. É uma decisão do Tribunal estar cortando na própria carne e nós vamos fazer. Enquanto houver desvio de conduta, essas medidas de controle nós vamos tomar.
Essas medidas de controle podem ser ampliação de auditorias, mesmo canais, cruzamento de dados. O que for necessário fazer para evitar, prevenir desvio de conduta, nós vamos fazer.
MidiaNews – Quando encerrar seu mandato, em 2028, por quais resultados ou por qual marca o senhor gostaria de ser lembrado? Que mudanças o cidadão poderá perceber no funcionamento da Justiça ao final da sua gestão?
José Luiz Lindote – No Poder Judiciário, a função primordial é levar a prestação jurisdicional à sociedade. Então, essa é a minha principal meta como presidente do Tribunal: levar e melhor distribuir a prestação jurisdicional. Isso nós já estamos começando a fazer.
E eu agradeço ao atual presidente, desembargador José Zuquim, por estar me ajudando já a implementar essa política dentro da sua própria gestão.
E uma outra questão que nós temos, assim eu acho, que todos os poderes públicos têm, é a valorização dos nossos servidores. Nós pretendemos valorizar os servidores para que eles tenham um salário justo e isonômico, uma igualdade salarial.
Assista à entrevista:
FONTE: MIDIA NEWS







