segunda-feira, setembro 7, 2026

Violência contra as mulheres da Enfermagem

Violência contra as mulheres da Enfermagem

Falar sobre violência contra a Enfermagem é falar, inevitavelmente, sobre violência contra as mulheres. Cerca de 85% da força de trabalho da Enfermagem brasileira é feminina. Portanto, quando discutimos agressões, assédio, humilhações e ameaças dirigidas à categoria, existe uma dimensão de gênero que não pode ser ignorada.

Uma enfermeira não é uma fantasia. É uma profissional de saúde

Essa violência está no ambiente de trabalho, mas não termina quando a profissional encerra o plantão. Ela atravessou as portas dos hospitais e unidades de saúde e chegou às redes sociais.

 

Hoje, uma enfermeira pode ser agredida verbalmente durante o exercício profissional e continuar sendo atacada na internet, muitas vezes com exposição de sua imagem, comentários sobre seu corpo, insinuações sexuais, ofensas misóginas e tentativas de desqualificá-la não pelo trabalho que realiza, mas pelo fato de ser mulher.

Isso também é violência.

Existe, ainda, uma característica particularmente perversa nesses ataques: quando a vítima é uma mulher da Enfermagem, a agressão frequentemente ganha conotação sexual.

Não podemos discutir esse problema sem enfrentar um estereótipo que acompanha a profissão há décadas. A figura da “enfermeira sexy”, transformada em fantasia, piada ou fetiche, pode parecer inofensiva para alguns, mas contribui para desumanizar e desprofissionalizar mulheres que exercem uma atividade científica, técnica e de enorme responsabilidade.

O próprio Conselho Federal de Enfermagem já alertou que a erotização da profissão ajuda a perpetuar uma cultura na qual profissionais são submetidas a piadas machistas, abordagens de conteúdo sexual, assédio e outras formas de violência.

Uma enfermeira não é uma fantasia. É uma profissional de saúde.

A dimensão do problema exige resposta. Levantamento divulgado pelo Coren-SP em 2026, com 4.402 profissionais, mostrou que 72,6% dos entrevistados sofreram algum tipo de violência no trabalho nos 12 meses anteriores. Entre as vítimas, 89,2% relataram violência verbal, 73,8% psicológica e 19,2% física.

Mas os números não mostram tudo. Existe uma violência cotidiana que muitas vezes sequer chega às estatísticas: a profissional que recebe uma mensagem de conteúdo sexual; aquela cuja fotografia é compartilhada com comentários sobre seu corpo; a que é atacada nas redes depois de um atendimento; a que sofre insinuações de pacientes, acompanhantes, colegas ou superiores. E há aquelas que permanecem em silêncio por medo de exposição, retaliação ou julgamento.

Não podemos exigir que essas mulheres aprendam a conviver com isso.

Também precisamos discutir por que uma profissão formada majoritariamente por mulheres ainda enfrenta tantas formas de desrespeito. A Enfermagem carrega uma herança histórica que associou o cuidado a uma suposta obrigação feminina, como se cuidar fosse uma extensão natural do papel da mulher, e não uma atividade profissional que exige conhecimento científico, formação, responsabilidade técnica e tomada de decisões.

Essa percepção ajuda a alimentar não apenas a sexualização, mas também a desvalorização profissional.

Por isso, combater a violência de gênero na Enfermagem não significa apenas punir quem agride. Significa discutir relações de poder, condições de trabalho, valorização, autonomia profissional e a presença das mulheres nos espaços onde as decisões são tomadas.

Precisamos de mecanismos efetivos de acolhimento e denúncia, orientação para preservar provas de ataques digitais e instituições preparadas para agir diante do assédio. Uma profissional que denuncia não cria um problema. O problema é a violência, não a denúncia.

Os Conselhos de Enfermagem também têm responsabilidade nesse enfrentamento. Fiscalizar o exercício profissional é essencial, mas proteger a dignidade da profissão e de seus profissionais também precisa ocupar lugar central na atuação institucional. O Sistema Cofen/Conselhos Regionais já possui uma política de prevenção e enfrentamento ao assédio moral, sexual e à discriminação, inclusive para condutas praticadas em ambientes virtuais. É preciso fazer com que essa proteção alcance efetivamente quem está na ponta.

Essa é, sim, uma discussão política. Não político-partidária, mas política no sentido de decidir quais relações de trabalho e quais comportamentos estamos dispostos a aceitar como sociedade.

Não é aceitável que uma mulher seja sexualizada porque veste um uniforme de Enfermagem. Não é aceitável que saia de um plantão exaustivo e encontre no celular uma nova extensão da violência que sofreu durante o trabalho.

A Enfermagem brasileira é majoritariamente feminina. Defender a profissão passa, necessariamente, por defender essas mulheres.

Quem cuida também tem direito à proteção. E nenhuma mulher da Enfermagem deve considerar o assédio, a humilhação ou a violência — presencial ou digital — como parte do seu trabalho

 

Iracema Paulino de Alencar é enfermeira e obstetra, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT, com trajetória na gestão pública, assistência, docência e formação em saúde.

FONTE: MIDIA NEWS

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