O coronel da Reserva do Exército Brasileiro, Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, foi o último a prestar depoimento no julgamento do assassinato do advogado Roberto Zampieri, morto em Cuiabá em dezembro de 2023. O militar justificou uma transferência de R$ 60 mil, realizada por ele, durante uma viagem a Rondonópolis, dias após a morte do jurista, e afirmou que o autor dos tiros, Antônio Gomes da Silva, teria confidenciado a ele que a mandante do crime seria a empresária e fazendeira Maria Angélica Caixeta Gontijo, que chegou a ser presa pelo homicídio, mas depois ganhou liberdade e foi descartada pela Polícia Civil, de ter qualquer envolvimento com o crime.
Caçadini foi o último dos três réus a ser ouvido e, na plateia, durante seu depoimento, estavam figuras importantes do Poder Judiciário de Mato Grosso, como o desembargador aposentado Paulo da Cunha, que deixou o Tribunal de Justiça em agosto de 2024. O militar fez questão de responder as perguntas da defesa, do Ministério Público e dos jurados, ao contrário dos outros dois réus, que só responderam às questões dos advogados.
Em seu depoimento, o coronel afirmou que atuou como militar em Cuiabá anos atrás, destacando que voltava corriqueiramente para a cidade, tendo inclusive instalado a Frente Ampla Patriótica (FAP) na capital mato-grossense. Caçadini disse que ampliar a atuação do grupo no estado era fundamental, tendo em vista que Mato Grosso tem uma população tradicionalmente conservadora.
O coronel esclareceu sua ligação com o empresário e fazendeiro Anibal Manoel Laurindo, atualmente preso e apontado como mandante da morte de Zampieri, explicando que o produtor rural era integrante da FAP, tendo inclusive participado de algumas reuniões do grupo. Ele também explicou os valores de R$ 60 mil, depositados por ele, em uma agência bancária em Rondonópolis, seriam utilizados como forma de pagamento para comprar uma caminhonete à vista, explicando que não poderia voltar com esse dinheiro em espécie.
Caçadini se emocionou, em seu depoimento, ao comentar sobre uma condenação contra ele, na Justiça Militar, afirmando que o Exército o ensinou sobre hierarquia e disciplina, mas que se decepcionou com a postura das Forças Armadas em 2023. Por conta de críticas feitas por ele, segundo o oficial, foi aberto um inquérito contra ele, que ressaltou ter um problema pessoal com um “general de quatro estrelas”, apelidado de “Toquinho da Maldade”.
Ao ser questionado sobre o motivo pelo qual tinha uma foto da fachada do escritório de Zampieri, enviada em outubro, assim como informações contidas no Google e até mesmo o atestado de óbito do advogado, o militar afirmou que recebeu em seu celular por conta da repercussão do caso.
Segundo o coronel, todo material citado circulou pela internet, afirmando ainda que até mesmo sua prisão foi alvo de vazamento. Caçadini também afirmou que seu relacionamento com Aníbal Manoel Laurindo se restringia apenas ao campo da ideologia política, relatando que nunca conversou com o fazendeiro sobre questões envolvendo disputas de terra.
Caçadini também admitiu que entregou R$ 2 mil para o instrutor de tiro Hedilerson Fialho Martins Barbosa, para que ele viesse à Cuiabá para a suposta competição disputada por ele, na capital mato-grossense. Segundo o militar, o repasse se deu em agradecimento por todo o trabalho realizado pelo colega, durante o ano de 2023.
O militar afirmou que jamais teria condições de financiar a morte de um advogado como Roberto Zampieri. Caçadini também destacou que não aceitaria de forma alguma participar de um crime desta magnitude. “Acho que me escolheram como bode expiatório. Alguma coisa está acontecendo, para que seja colocado meu nome e o de algumas pessoas neste processo”.
O coronel afirmou que Antônio Gomes da Silva comentou informalmente a ele que a mandante do crime seria, de fato, Maria Angélica Caixeta Gontijo.
O CASO
A sessão do novo julgamento relativo ao caso é presidida pelo juiz José Mauro Nagib Jorge, titular da 11ª Vara Criminal, Justiça Militar e Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá. Também atua na acusação, como assistente, o advogado Giovani Santin. De acordo com a denúncia do Ministério Público de Mato Grosso (MP-MT), as investigações identificaram uma organização criminosa estruturada, supostamente liderada pelo coronel do Exército, Etevaldo Caçadini, tendo ainda a atuação fundamental de Hedilerson Fialho Martins Barbosa, que forneceu a arma do crime.
O grupo teria sido contratado por Aníbal Laurindo e a esposa dele, Elenice Ballarotti Laurindo, para executar Roberto Zampieri em razão de uma disputa patrimonial envolvendo uma fazenda avaliada em cerca de R$ 100 milhões. No segundo dia do Tribunal do Juri, as partes desistiram das oitivas de testemunhas e o depoimento dos réus já começaram. Zampieri foi morto em dezembro de 2023, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá.
FONTE: Folha Max





