O resultado das eleições deste domingo (4) impôs uma derrota em série a algumas das famílias mais tradicionais da política de Mato Grosso. Campos, Riva, Fávaro e Pinheiro, sobrenomes que ocuparam espaços de poder no Estado em diferentes gerações, não conseguiram eleger nenhum dos integrantes que colocaram nas urnas em 2026. Em alguns casos, o revés encerra décadas de presença praticamente contínua em cargos eletivos.
O caso mais emblemático é o da família Campos. Júlio Campos (União), que retornou à Assembleia Legislativa em 2023, não conseguiu a reeleição. Com mais de 18 mil votos, ficou fora das 24 cadeiras da próxima legislatura.
A derrota ocorre no mesmo ano em que o irmão, Jayme Campos (União), deixou de buscar um terceiro mandato no Senado para tentar retornar ao Palácio Paiaguás, que comandou entre 1991 e 1994. O projeto sequer chegou às urnas. Na convenção estadual do União Brasil, a tese de candidatura própria de Jayme perdeu por 30 votos a 19 para o grupo que defendia apoio à reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos).
Com isso, a família chega ao fim do atual ciclo eleitoral sem conseguir renovar sua representação parlamentar. O peso histórico torna o resultado ainda mais significativo. Júlio iniciou a carreira eletiva como prefeito de Várzea Grande, passou pela Câmara dos Deputados, governou Mato Grosso entre 1983 e 1986, retornou à Câmara, chegou ao Senado e, décadas depois, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Jayme construiu trajetória semelhante. Foi prefeito de Várzea Grande em diferentes períodos, governador e exerceu dois mandatos no Senado, o atual iniciado em 2019 e com término em fevereiro de 2027.
A derrota de Júlio, portanto, ganha dimensão maior por ocorrer justamente quando Jayme se prepara para deixar o Senado sem ter conseguido disputar outro cargo. Por décadas, os Campos tiveram presença direta em algumas das principais estruturas de poder de Mato Grosso, especialmente a partir de Várzea Grande.
Rivas perdem Senado e Assembleia
Outro sobrenome que sai enfraquecido das urnas é o Riva. Depois de mais de três décadas de presença direta da família na Assembleia Legislativa, a estratégia de avançar para Brasília e, simultaneamente, preservar uma cadeira no Parlamento estadual fracassou nas duas frentes.
Após três mandatos consecutivos como deputada estadual e duas eleições seguidas como a parlamentar mais votada de Mato Grosso, Janaina Riva (MDB) deixou uma posição consolidada na Assembleia para disputar o Senado. Terminou em terceiro lugar, atrás dos eleitos Mauro Mendes (União) e José Medeiros (PL).
A derrota foi especialmente dura porque Janaina passou boa parte da campanha entre os favoritos para conquistar uma das duas cadeiras. Nas urnas, porém, Medeiros avançou e abriu vantagem suficiente para assegurar a segunda vaga, deixando a emedebista fora do Senado. Carlos Fávaro (PSD), que buscava a reeleição, terminou em quarto.
O movimento dos Riva previa uma espécie de passagem de bastão na Assembleia. Enquanto Janaina tentava subir um degrau na carreira e chegar ao Congresso, a irmã mais nova, Jéssica Riva (MDB), disputava sua primeira eleição para ocupar o espaço deixado por ela.
Jéssica também não conseguiu se eleger. Com mais de 25 mil votos, ficou fora da composição das 24 cadeiras da Assembleia.
O resultado interrompe uma sequência iniciada ainda com José Riva, que transformou a Assembleia Legislativa no principal centro de sua atuação política. Depois de começar a carreira como prefeito de Juara, ele chegou ao Parlamento estadual em 1995 e acumulou sucessivas eleições, além de ocupar repetidas vezes o comando da Casa.
Em 2014, Riva tentou disputar o Governo de Mato Grosso, mas teve o registro barrado pela Justiça Eleitoral. A esposa, Janete Riva, assumiu a candidatura e terminou em terceiro lugar, com 144.440 votos, equivalentes a 9,92% dos válidos. Naquele mesmo ano, Janaina, então com 25 anos, venceu sua primeira eleição para deputada estadual.
Foi a passagem de bastão entre pai e filha. Janaina permaneceu 12 anos na Assembleia e consolidou uma trajetória própria, chegando a afirmar, durante entrevista ao PodOlhar, que estava “politicamente emancipada” do pai.
A tentativa de uma nova transição geracional, desta vez de Janaina para Jéssica na Assembleia enquanto a primogênita buscava o Senado, não se concretizou. Pela primeira vez desde a chegada de Janaina à Casa, em 2015, a próxima legislatura começa sem uma Riva entre os deputados estaduais.
Fávaro sofre derrota dupla
A família Fávaro também sofreu uma derrota em duas frentes. Carlos Fávaro (PSD), que chegou ao Senado após vencer a eleição suplementar de 2020 e posteriormente ganhou projeção nacional como ministro da Agricultura do governo Lula (PT), não conseguiu renovar o mandato.
Fávaro terminou apenas na quarta colocação na disputa pelas duas cadeiras, atrás de Mauro Mendes, José Medeiros e Janaina Riva. O resultado encerra seu atual ciclo no Senado em fevereiro de 2027 e frustra a tentativa de conquistar pela primeira vez um mandato completo de oito anos pelo voto direto.
A derrota também atingiu a nova geração da família. Rafaela Fávaro (PSD), filha do senador, tentou uma cadeira na Assembleia Legislativa, mas não conseguiu se eleger. Na totalização, passou os 9 mil votos.
Rafaela já havia participado diretamente da eleição municipal de 2024, quando foi candidata a vice-prefeita de Cuiabá na chapa encabeçada por Lúdio Cabral (PT). A dupla chegou ao segundo turno, mas perdeu para Abilio Brunini (PL).
Em 2026, pai e filha entraram simultaneamente na disputa proporcional e majoritária, numa tentativa de manter Fávaro no Senado e abrir um espaço próprio para Rafaela na política estadual. Nenhuma das duas apostas prosperou.
Pinheiro perde cadeira em Brasília
A família Pinheiro completa a lista de sobrenomes tradicionais atingidos pelo resultado deste domingo. Emanuelzinho (PSD), que buscava o terceiro mandato consecutivo de deputado federal, ficou fora das oito cadeiras destinadas a Mato Grosso na Câmara.
Na apuração consultada, o parlamentar aparecia com mais de 50 mil votos, fora do grupo que conquistava mandato.
Eleito pela primeira vez em 2018, aos 23 anos, Emanuelzinho conseguiu a reeleição em 2022 e passou os últimos oito anos na Câmara dos Deputados. Sua derrota atinge uma família cuja participação na política mato-grossense atravessa três gerações.
O avô, Emanuel Pinheiro da Silva Primo, foi deputado estadual, presidiu a Assembleia Legislativa e chegou à Câmara dos Deputados em 1971. Morreu em julho de 1974, quando buscava a reeleição.
Décadas depois, o filho Emanuel Pinheiro retomou a trajetória eleitoral do sobrenome. Foi vereador de Cuiabá, deputado estadual e chegou à Prefeitura da Capital, onde permaneceu por dois mandatos, entre 2017 e 2024. A terceira geração chegou ao Congresso com Emanuelzinho.
O resultado de 2026 não significa o desaparecimento político das quatro famílias, que mantêm influência partidária, bases eleitorais e possibilidade de retornar às urnas. Mas produz uma fotografia incomum da política mato-grossense: Campos, Riva, Fávaro e Pinheiro atravessaram a mesma eleição acumulando derrotas e, a partir de 2027, deixam de ocupar justamente algumas das cadeiras que ajudaram a transformar esses sobrenomes em marcas recorrentes do poder no Estado.
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FONTE: ARAGUAIA IN FOCO





