Terroristas miraram locais hostilizados por Bolsonaro

 

Na invasão do Supremo Tribunal Federal (STF), do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto, que resultou num rastro de destruição no domingo (8), os bolsonaristas terroristas miraram locais que foram hostilizados por Jair Bolsonaro durante todo o seu mandato.

No período, Bolsonaro xingou ministros da Suprema Corte quando decisões judiciais tomadas não lhe convinham; questionou a lisura do processo eleitoral, pregando contra as urnas eletrônicas; e participou de atos que pediam intervenção militar e o fechamento do Congresso e do STF.

Além disso, o ex-presidente também não poupou ataques à esquerda e a Luiz Inácio Lula da Silva, seu então adversário na disputa eleitoral.

Na madrugada desta quarta-feira (11), Bolsonaro voltou a fazer ataques e chegou a compartilhar uma postagem com uma série de informações falsas e ataques ao sistema eleitoral. A postagem foi apagada cerca de duas horas depois.

Confira frases e ações de Bolsonaro que serviram de estímulo aos ataques golpistas:

19 de abril de 2020: Em uma das primeiras manifestações golpistas patrocinadas por seus apoiadores, que pediam intervenção militar e o fechamento do Congresso, Bolsonaro disse que não queria “negociar nada”. O país enfrentava uma crise sanitária sem precedentes.

Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. (…) Vocês têm obrigação de lutar pelo país de vocês.

3 de maio de 2020: Bolsonaro voltou a participar de uma manifestação antidemocrática e inconstitucional em Brasília contra o STF e o Congresso. Em seu discurso, criticou a decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes que tinha suspendido a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal diante do receio de interferência nas investigações do órgão.

Peço a Deus que não tenhamos problema nesta semana porque chegamos no limite, não tem mais conversa. Fui do tempo em que decisão do Supremo não discute, se cumpre. Eu fui desse tempo, não sou mais.

22 de abril de 2020: Em uma polêmica reunião ministerial, que teve o vídeo divulgado depois, Bolsonaro fez referência ao artigo 142 da Constituição, citando a possibilidade de intervenção das Forças Armadas no Brasil.

O artigo 142 da Constituição não trata de divisão entre os poderes, mas descreve o funcionamento das Forças Armadas. Segundo constitucionalistas, em nenhum momento ele autoriza qualquer poder a convocá-lo para intervir em outro.

O artigo começou a ser citado por apoiadores dele para defender a tese de que as Forças Armadas seriam uma espécie de mediador da queda de braços entre o então presidente e o STF, que autorizou investigações envolvendo filhos de Bolsonaro. Por essa visão, o presidente poderia convocá-las para intervir no Poder Judiciário.

Nós queremos fazer cumprir o artigo 142 da Constituição. Todo mundo quer fazer cumprir o artigo 142 da Constituição. E, havendo necessidade, qualquer dos Poderes pode, né? Pedir às Forças Armadas que intervenham para restabelecer a ordem no Brasil.

31 de maio de 2020: Bolsonaro andou a cavalo e sobrevoou a Praça dos Três Poderes de helicóptero, de onde acenou a apoiadores que participam de ato contra o STF e o Congresso e a favor de uma intervenção militar.

Na véspera, um grupo de bolsonaristas, vestidos de preto, com máscaras e empunhando tochas de fogo, tinha feito outra manifestação em frente ao STF. Embora pequeno, o grupo chocou pela coreografia que remetia a grupos neonazistas e de supremacistas brancos americanos, como a Klu Klux Klan.

7 de janeiro de 2021: Em conversa com apoiadores, Bolsonaro usou o ataque ao Capitólio nos Estados Unidos para voltar a questionar o sistema eleitoral brasileiro, sem apresentar absolutamente nenhuma prova.

Aqui no Brasil, se tivermos o voto eletrônico em 2022, vai ser a mesma coisa. A fraude existe. Aí a imprensa vai falar: ‘sem provas, diz que a fraude existe’. Eu não vou responder esses canalhas da imprensa mais, tá certo? Eu só fui eleito porque tive muito voto em 2018.

Na sequência, Bolsonaro foi além e disse que no Brasil teríamos “problema pior”.

Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos.

11 de agosto de 2021: Após a proposta do voto impresso ter sido derrotada e arquivada na Câmara dos Deputados, Bolsonaro voltou a fazer críticas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Junto a apoiadores, ele também repetiu, sem provas, que a eleição de 2022 não seria confiável. No mês anterior, ele chegou a admitir que não tinha provas de fraude nas eleições.

7 de setembro de 2021: Sem mencionar o Poder Judiciário, Bolsonaro usou o ato de 7 de Setembro para fazer uma ameaça ao então presidente do STF, ministro Luiz Fux. Disse ainda que, se Fux não enquadrasse Alexandre de Moraes, “esse poder [Judiciário] pode sofrer aquilo que nós não queremos”.

Alexandre de Moraes é responsável pelo inquérito que investiga o financiamento e organização de atos contra as instituições e a democracia e pelo qual já determinou prisões de aliados do presidente e de militantes bolsonaristas. Bolsonaro é alvo de inquéritos no Supremo e no TSE.

Nós também não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos Três Poderes continue barbarizando a nossa população. Não podemos aceitar mais prisões políticas no nosso Brasil. Ou o chefe desse poder [Luiz Fux] enquadra o seu [ministro], ou esse poder pode sofrer aquilo que nós não queremos.

— Bolsonaro ao atacar o ministro Alexandre de Moraes

24 de julho de 2022: No lançamento da sua candidatura à reeleição, Bolsonaro fez ataques ao STF e convocou apoiadores para protestar “pela última vez” no próximo 7 de setembro. Ovacionado pelo público, Bolsonaro fazia pausas enquanto as caixas de som repetiam um som bem grave intermitente, como uma espécie de trilha sonora.

Convoco todos vocês agora para que todo mundo, no 7 de setembro, vá às ruas pela última vez… Estes poucos surdos de capa [toga] preta [usada por ministros do STF] têm que entender o que é a voz do povo.

— Bolsonaro em referência aos ministros do STF, que usam uma toga preta durante os julgamentos

Ele chegou a pedir que seus apoiadores gritassem “juro dar minha vida pela minha liberdade”, ao falar do seu “exército” de apoiadores. “Juro dar a minha vida pela minha liberdade. Repitam”, disse.

22 de agosto de 2022: Em entrevista ao Jornal Nacional, Bolsonaro, então candidato à reeleição, ao ser perguntado sobre manifestações golpistas, adotou um tom mais moderado do que o geralmente usado com apoiadores. E, ao contrário do que vinha pregando, disse que não via o artigo 142 da Constituição como autorização para as Forças Armadas intervirem num dos poderes.

Você vê as manifestações nossas sem qualquer ruído, uma lata de lixo sequer virada nas ruas. Eu considero como liberdade de expressão. Essas… Artigo 142. O que é artigo 142? É um artigo da Constituição que eu não entendo da maneira como alguns pouquíssimos entendem. Quando alguns falam em fechar o Congresso, é liberdade de expressão deles, eu não levo para esse lado.

— Bolsonaro em entrevista ao Jornal Nacional

Para mim, isso aí faz parte da democracia, não posso é eu ameaçar fechar o Congresso ou o Supremo Tribunal Federal. Então, Bonner, eu não vejo como nada demais, vejo como liberdade de expressão, como alguns falam em AI-5. Nem existe mais AI-5. Você querer punir alguém por ter levantado uma faixinha no meio da multidão, AI-5, isso aí é uma coisa que no meu entender não leva a lugar nenhum.

— Bolsonaro na entrevista ao âncora do Jornal Nacional, William Bonner

7 de setembro de 2022: Em um discurso a apoiadores antes de participar de uma cerimônia em comemoração ao bicentenário da Independência do Brasil, Bolsonaro citou o golpe de militar de 1964 e disse que a “história pode se repetir”.

Seguramente, passamos por momentos difíceis, a história nos mostra. 22, 35, 64, 16, 18. Agora 22. A história pode se repetir. O bem sempre venceu o mal. Estamos aqui porque acreditamos em nosso povo e o nosso povo acredita em Deus.

— Bolsonaro ao citar o golpe de 64

7 de outubro de 2022: Em entrevista após o primeiro turno, Bolsonaro se exaltou ao falar de Lula, seu adversário na disputa eleitoral, e fez acusações infundadas de que haveria algum risco para religiosos, como o fechamento de templos e igrejas.

Se vocês botarem um pinguço para dirigir o Brasil… Um cara sem qualquer responsabilidade, que tem um rastro de corrupção. Um rastro de deboche para com a família brasileira, de ataques a padres, a pastores, de ataque às Forças Armadas, de ataque aos policiais. Vocês acham que vai dar certo?

Em tom de voz elevado e expressão raivosa, fez novos ataques ao ministro Alexandre de Moraes e criticou a decisão dele que quebrou o sigilo de mensagens de um assessor da Presidência, Mauro Cesar Barbosa Cid. A quebra do sigilo faz parte das investigações do inquérito das milícias digitais.

O tempo todo usando a caneta para fazer maldade, tentar me tirar de combate, para desgastar. Já desafiei o Alexandre de Moraes, que vazou a quebra de sigilo telemático do meu ajudante de ordens, que é um crime o que esse cara fez. Esse cara fez um crime. Meu ajudante de ordem, em especial o Cid – porque eu tenho quatro – , é um cara de confiança meu.

— Bolsonaro deu a declaração aos gritos

1º de novembro de 2022: Em seu primeiro pronunciamento após perder a eleição, Bolsonaro comentou os bloqueios violentos de caminhoneiros que tomaram rodovias pelo país após o segundo turno e disse que eram “fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral”. Aproveitou ainda para atacar a esquerda, como faz com frequência, ao associá-la a atos de violência.

Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As movimentações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser o da esquerda, que sempre prejudicaram a população.

9 de dezembro de 2022: Bolsonaro rompeu semanas de silêncio após a derrota eleitoral e falou com apoiadores na frente do Palácio da Alvorada. Mais uma vez, ele se colocou como alguém contra o “sistema” vigente e disse que as Forças Armadas são as únicas capazes de impedir a implantação do “socialismo” pela esquerda, espectro político que tem o PT como principal representante no país.

Não é fácil você enfrentar todo um sistema. (…) Sempre disse, ao longo desses quatro anos, que as Forças Armadas são o último obstáculo para o socialismo.

— Bolsonaro em discurso a apoiadores no jardim do Alvorada

Nunca é tarde para acordarmos e sabermos da verdade. Logicamente, quanto mais tarde você acorda, mais difícil é a missão. Não é ‘eu autorizo’, não. É o que eu posso fazer pela minha pátria. Não é jogar a responsabilidade para uma pessoa.

— Bolsonaro sobre a frase dita com frequência por apoiadores de que o “autorizam” a fazer intervenção.

Nada está perdido. Ponto final. Somente com a morte.

— Bolsonaro ainda durante o seu discurso.

Se Deus quiser, tudo dará certo no momento oportuno.

— Bolsonaro ao encerrar a sua fala no jardim do Palácio da Alvorada

FONTE: Folha Max

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