No dia 12 de outubro de 2009, Dia das Crianças, ganhei um presente que jamais imaginei que me acompanharia por tantos anos.
Costumo dizer que todo médico traz escondido um pouco de cronista. Desde o curso de Medicina aprendemos a ouvir e registrar histórias
O Dr. João Nunes da Cunha Neto criou para mim o blog Bar do Bugre e G.N.N. Cultura.
Escolhi o primeiro nome para abrigar minhas crônicas do cotidiano.
Além de mais simples, era uma homenagem ao meu pai e ao seu Bar do Bugre, onde trabalhou durante meio século e que faz parte da memória de Cuiabá.
Ao amigo que me deu o presente, impus outra missão: seria também editor e responsável pelas ilustrações.
Convidei Cristina Meirelles para revisar os textos.
Estava formada a pequena equipe que permanece comigo nessa aventura.
Foi João quem me convenceu de que minhas lembranças não deveriam ficar guardadas.
Publicá-las seria uma maneira de impedir que histórias, personagens e costumes da velha Cuiabá desaparecessem com o tempo.
Dezessete anos depois, o blog ultrapassou quatro mil crônicas.
Se fossem reunidas em volumes de cem textos, dariam mais de quarenta livros.
Tudo começou depois da minha viuvez e do casamento dos meus filhos.
Sozinho no apartamento procurei alguma coisa que ocupasse o tempo e, principalmente, a cabeça. Descobri a escrita.
Costumo dizer que todo médico traz escondido um pouco de cronista. Desde o curso de Medicina aprendemos a ouvir e registrar histórias.
Primeiro, nas anamneses. Depois, no consultório, acompanhando a história de cada paciente.
Comecei a escrever pequenas crônicas e a enviá-las ao Dr. João, sem cobrar resposta. Ele lia e guardava.
Quando já eram mais de sessenta, veio a surpresa: no Dia das Crianças, presenteou este velho menino com um blog.
Hoje, aos 91 anos, continuo escrevendo. Tenho mais de cem crônicas esperando publicação.
Quando passo um dia sem escrever, parece que ficou faltando alguma coisa.
Meus textos já passaram por jornais, revistas, sites e pelo inseparável Bar do Bugre.
Alguns leitores ainda me cobram um livro impresso. Talvez um dia ele venha.
Se não pelas minhas mãos, pelas mãos dos meus herdeiros.
Enquanto isso, continuo escrevendo.
Porque descobri que as lembranças também envelhecem — mas, quando viram palavras, aprendem a ficar.
Gabriel Novis Neves é médico e fundador da UFMT
FONTE: MIDIA NEWS
