“WF é político demais e vive numa bolha; o Pivetta vai ganhar”

O analista político e jornalista Onofre Ribeiro aposta em uma vitória apertada, em um segundo turno, do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) na disputa ao Palácio Paiaguás.

 

O Wellington Fagundes é de uma geração que vive numa bolha, tem uma velha opinião formada sobre tudo, e tem dificuldade para mudar

Para ele, o principal adversário nas urnas de Pivetta, o senador Wellington Fagundes (PL), carrega um problema de perfil: é “político demais”. Onofre afirmou que Wellington pertence a uma geração política que tem dificuldade de se conectar com um eleitorado que pode chegar às urnas insatisfeito.

 

“O político vive dentro de uma bolha. E o Wellington Fagundes é de uma geração assim, que vive numa bolha, tem uma velha opinião formada sobre tudo, e tem dificuldade para mudar”, disse o analista em entrevista ao MidiaNews.

 

Segundo o analista, os eleitores mato-grossenses têm um perfil “extremamente conservadores” e preferirão votar em uma gestão bem avaliada. “Eu aposto que por diferença pequena, o Pivetta vai ganhar”, disse.

 

Na entrevista, Onofre ainda analisou o perfil e a transformação do comportamento eleitoral, destacando o descolamento da classe política e a atuação dos marqueteiros.

 

Ele também apontou a desmoralização de políticos frente ao eleitorado, e esmiuçou o aprofundamento do caos na política nacional diante da fragilidade institucional.

 

Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria): 

 

MidiaNews – O primeiro turno da eleição ocorre daqui a cerca de 25 dias. Poderia fazer uma análise sobre esse comportamento dos candidatos nesse período que é fundamental para a escolha dos eleitores?

 

Esta eleição não se parece com nenhuma que já foi feita no país; não tem nenhum grupo. Estão todos ‘outsiders’, franco-atiradores

Onofre Ribeiro – Esta eleição não se parece com nenhuma que já foi feita no país. Porque a política no Brasil, e em Mato Grosso particularmente, sempre se fez através de grupos de pessoas ou grupos partidários, debaixo do guarda-chuva de um partido com uma organização mínima, todos falando a mesma língua. Ou então, um representava um grupo grande de partidários, não necessariamente candidatos, mas, ninguém entrava sozinho numa eleição. Era produto do conjunto.

 

Nesta eleição não tem nenhum grupo. Estão todos ‘outsiders’, franco-atiradores. Você não tem nenhum grupo. Nem o Mauro Mendes, que foi governador, formou grupo. Todo mundo é caçador solitário, são lobos solitários. E aí se tem uma eleição que não tem uma uniformidade de raciocínio. Se não tem um partido, não tem uma estrutura, não tem um grupo pensando, então também não há planos para o governo. Fica no casuísmo. 

 

Fica um homem sozinho, uma mulher sozinha, sem um aconselhamento de um conjunto partidário, solto e não consegue conectar com a sociedade. E por que eu digo conectar com a sociedade? O momento atual do país é de desconstrução. Independentemente do governo, é uma desconstrução que está acontecendo. 

 

Como é isso? O Poder Executivo precisa, necessariamente, estar de mão dada com o Judiciário. Isso é uma anomalia! O Judiciário não tem que se meter em política. É da natureza dele cuidar do equilíbrio dos três poderes, e cuidar da questão constitucional. Mas não, ele está governando, está com o poder de mando. 

 

O Congresso sem nenhum poder, o Congresso se recolheu e deixou os dois. Os dois são frágeis: o Executivo que nós temos hoje e o Supremo Tribunal Federal, que estão se canibalizando em termos de poder. E o Congresso ficou alheio e omisso. 

 

É uma crise de representatividade. Estamos elegendo 594 pessoas para função nenhuma. Por quê? A função do Legislativo é fazer leis e fiscalizar o Executivo e o Senado, particularmente, fiscalizar o Supremo Tribunal Federal. Na teoria, esse é o sistema. E, nesta eleição, isso não está funcionando. Estamos tendo uma eleição que é a eleição do caos.

 

 

MidiaNews – Por causa desse enfrentamento?

 

Onofre Ribeiro – Dos poderes e de não termos mais partidos. Em 1997, o presidente Fernando Henrique conseguiu aprovar a reeleição, que não havia. Teve que negociar com o Congresso e negociou muito. Uma das negociações estabeleceu-se o direito de coligação geral. Até então, tínhamos 13 partidos e os pequenos iam para debaixo da asa e coligavam com os partidos fortes.

 

Os três principais candidatos a governador não têm um planejamento sólido, efetivo e que responda aos anseios do Estado e da sociedade. Não tem!

E o argumento era: “ajudo a ganhar e quero ajudar a governar”. Os partidos menores, que sempre deram equilíbrio nas eleições, se tornaram coadjuvantes sem protagonismo: meros coadjuvantes para ganhar. Ganhavam uns carguinhos no governo, um ministério eventualmente, e na eleição seguinte, se não dava com esse [partido], dava com outro. 

 

O Fernando Henrique coligou-se na época com o Partido da Frente Liberal (PFL). Governou o tempo inteiro junto. Dividiu metade do governo e entregou para o PFL, que não tinha nada a ver com ele. Era um governo distópico. Quando o Lula ganhou no primeiro mandato, em 2002, em 2003, ele coligou com o PMDB e governou como irmãos siameses. E cadê toda a filosofia do Partido dos Trabalhadores? Dividiu. 

 

Hoje, no Brasil, nenhum dos 34 partidos é capaz de eleger um presidente, ou nenhum prefeito, ou nenhum governador. Tem que coligar. E é necessário que os partidos existam com a independência, porque eles representam os fragmentos de pensamento da sociedade. Na hora que você mistura todos os interessados apenas em chegar ao poder, transforma a política numa gelatina. Hoje, a política brasileira é uma gelatina. 

 

Eu entrevistei os três principais candidatos a governador. E você não percebe um planejamento sólido, efetivo e que responda aos anseios do Estado e da sociedade. Não tem!

 

MidiaNews – O planejamento citado pelo senhor é o plano de governo?

 

Onofre Ribeiro – Um plano para as necessidades do Estado. Você não tem por quê? Porque ele tem que dar espaço para os partidos que estão juntos.

 

Yasmin Silva/MidiaNews

O analista político Onofre Ribeiro que critica falta de identidade partidária e grupos políticos nesta eleição

E eu vou dar um exemplo de como isso não funciona e destrói um governo. O governo do Silval Barbosa, há dez anos atrás, o partido dele era o MDB. Ele entregou as principais secretarias para partidos para ganhar a eleição.

 

Entregou a saúde para o PP e a educação para o PT. O que é que tinha o Silval com o PT? Nada. E o PT fazia uma gestão petista da educação. O outro fazia a eleição progressista na saúde. Ele só preservou para si planejamento, segurança e fazenda. O resto, entregou. Então, isso desmontou a política. 

 

Não tendo mais partido, você tem crise política. Porque quando tem partido, tem um organograma, tem programa e tem uma estrutura de comando funcionando. Há uma ordem estabelecida. 

 

Na hora em que o partido não significa mais nada, é apenas um perseguidor de poder, o que é que você tem? Você tem a gelatina. E aí cada um faz e fala o que quer e não tem ninguém para fiscalizar e cobrar. O Brasil está vivendo sem uma ordem política. Isso gera crise.

 

MidiaNews – Como que se desenvolve esse ambiente e formação de crise?

 

Onofre Ribeiro – Vou citar um exemplo: numa família tem um pai, uma mãe e dois filhos. Tem uma hierarquia, tem uma ordem. Em determinados assuntos, a mulher é mais eficiente. Em outros, o homem é mais eficiente. E os filhos fazem parte dessa ordem. 

 

Na hora em que você desfaz essa ordem, que todo mundo pode tudo, é uma família distópica que não vai suportar. Vai acabar na miséria, vai acabar se separando, vai brigar, vai ter feminicídio. É a destruição! É isso que nós estamos vivendo agora.

 

MidiaNews – Mas o senhor no início da resposta falou de ‘outsider’, casuísmo. Onde que isso se liga com essa falta de autoridade e ordem?

 

Hoje não tem ninguém efetivamente conectado com o candidato a presidente da República. Não pede voto para ele, não participa.

Onofre Ribeiro – Eu vivi o tempo em que partidos eram fortes. Vivi antes dos militares e vivi depois dos militares. Especialmente aqui em Mato Grosso, participei muito da política. Eu moro aqui há 50 anos. O partido fazia uma seleção dos nomes e escolhia as pessoas para os cargos. 

 

O Roberto França, por exemplo, que era um político tradicional, ele dizia: “Tem uma fila. Agora é a minha vez, você pode ser muito melhor do que eu, mas é a minha vez”. Havia um comando e as pessoas eram selecionadas. 

 

Às vezes, tinha muitos candidatos para deputado federal, por exemplo, e só podia ter oito candidatos. Selecionava e tirava os melhores. E eles estavam compromissados com um tipo de filosofia que era a ideologia do partido. Tanto o candidato a governador como o candidato a senador, era uma hierarquia, funcionava numa ordem. E essa ordem se conectava no presidente da República.

 

Hoje não tem ninguém efetivamente conectado com o candidato a presidente da República. Não pede voto para ele, não participa. Entrevistei um candidato e ele não citou nem o nome do candidato a presidente, porque não tem disciplina partidária.

 

E como é que os caras conseguem ser candidatos? ‘Outsider’, na pressão. Pode ter0 três, quatro candidatos e já não há um partido para selecionar dentro de uma lógica, não. O que for mais forte sou eu, é a lei do mais forte. E ele vai sozinho, com um plano de governo na cabeça dele. Não tem uma filosofia. 

 

MidiaNews – E o senhor vê que algum determinado grupo político pode se beneficiar com essa crise, com esse caos? 

 

Onofre Ribeiro – Na eleição de 2022 era uma polarização entre nomes: Lula e Bolsonaro. Ganhou o Lula. Hoje não mais. Os partidos enfraqueceram um tanto… O Bolsonaro saiu do cenário, colocou o filho, que é o preposto dele. O PT não é mais um partido. Ele é um aglomerado do que sobrou. Assim como também a direita. A direita se fragmentou de muitos interesses, e o Flávio Bolsonaro, é direita, mas não comanda a direita.

 

Yasmin Silva/MidiaNews

“São pobres demais os quadros, porque criou-se donos de partido e não renovou a política”, diz analista

Em uma hipótese de que ele ganhe a eleição, vai ter que chegar lá, juntar o que encontrar de quadros. E são pobres demais os quadros, porque criou-se donos de partido e não renovou a política. Há quantos anos o Lula está disputando eleição? Não tem outros nomes. A direita também não tem outros nomes. 

 

O que se eleger entre os dois, vai precisar chegar, fazer um chamamento geral, juntar o que puder, para trabalhar no caos. Eu não enxergo gente com experiência e qualidade suficiente para isso.

 

MidiaNews – Não tem gente para ocupar os ministérios?

 

Onofre Ribeiro – A política se descredibilizou muito. Você tem um exemplo em Mato Grosso: o Blairo Maggi passou pela política e caiu fora. E, assim como ele não quer mais saber de política, qual é o grande empresário de Mato Grosso que está nesta eleição? Qual é o grande político brasileiro?

 

MidiaNews – O governador Otaviano Pivetta para o senhor não é um grande empresário?

 

Onofre Ribeiro – O Pivetta foi vice do Mauro. Você pega no nacional, qual é o grande nome que está disputando? Não tem um grande nome, porque os grandes nomes não vão. Nunca se falou tanto no sistema. 

 

O que é o sistema? Fundamentalmente quem comanda, quem governa. Quem é que comanda e quem governa? Avenida Faria Lima, setor financeiro. É quem manda no governo. Mandava, não está mandando mais. A indústria automobilística mandava violentamente. Hoje, o poder está nesses grupos, mas eles não querem entrar na política. Eles mandam, interferem e não participam.

 

As pessoas entenderam que o jogo da polarização não beneficia elas. Estão beneficiando os dois e o mundo político que se beneficia de um e de outro

MidiaNews – E o cenário de polarização? O bolsonarismo e o lulismo, continua permeando nessas eleições?

 

Onofre Ribeiro – Não. A polarização foi uma inconveniência criada lá atrás. PT e PSDB. Depois mudou de cara. PT e PSL do Bolsonaro. Mas que, no fundo, a polarização não era entre partidos, era entre pessoas. O Bolsonaro representando o anti-lulopetismo.

 

E o PT representando a história da esquerda. O Bolsonaro saiu do governo, perdeu a eleição, teve toda essa questão política e jurídica em torno dele, mas o bolsonarismo perdeu muita força, e o Lula perdeu muita força também. 

 

As pessoas entenderam que o jogo da polarização não beneficia elas. Estão beneficiando os dois e o mundo político que se beneficia de um e de outro. Nós já estamos no caos.

 

MidiaNews – Mas Mato Grosso parece que não saiu disso. Temos um bolsonarismo muito forte aqui ainda. Acha que essas eleições podem ter esse reflexo ainda?

 

Onofre Ribeiro – Quando terminou a eleição de 2022, Mato Grosso era bolsonarista. 70% dos votos. Isso contaminou a eleição do governador e tal. Hoje, Mato Grosso não é mais bolsonarista, é de direita. 

 

Qual é a essência da direita? Direitos de propriedade, família, religião, liberdade, de negócios. Isso é direita. Mato Grosso é de direita, não é bolsonarista. 

 

 

MidiaNews – Mas acha que pode refletir, por exemplo, em um possível segundo turno das eleições? Há quem aposte que em 4 de outubro, o resultado pode refletir essa polarização, e termos um candidato da direita, contra a Natasha, que representa a esquerda. Em que cenário o senhor apostaria?

 

Se o candidato da direita ganhar a eleição do país, não significa grande coisa para Mato Grosso, porque Mato Grosso hoje depende muito pouco do governo federal

Onofre Ribeiro – A direita vai ganhar a eleição. Seja o Wellington Fagundes, que é do PL, que ainda carrega a ideia do bolsonarismo, ou o Pivetta, que não tem nenhuma vinculação com grupos. Ele é praticamente um ‘outsider’. O Wellington Fagundes já vem de uma carreira política antiga. 

 

A Natasha, por causa de espaço, tomou posição de esquerda, pois não cabia três candidatos de direita. Ela ficou representando a esquerda. Vai ser um ponto de equilíbrio, mas não tem chance, porque o Estado é de direita. Vai ganhar um dos dois de direita. 

 

Se o candidato da direita ganhar a eleição do país, não significa grande coisa para Mato Grosso, porque Mato Grosso hoje depende muito pouco do governo federal. É um dos quatro Estados que manda dinheiro para o Tesouro Nacional, porque arrecada muito mais do que gasta. Os outros 23 Estados dependem do governo federal. Estados como Minas Gerais, por exemplo. Mato Grosso não. 

 

Nós não temos a dependência do governo federal. Tanto é que, se você reparar, a presença do Flávio Bolsonaro, do Lula em Mato Grosso é insignificante.

 

MidiaNews – Mas isso tem mais a ver com estratégia política, não? Por termos poucos eleitores?

 

Onofre Ribeiro – Nós estamos com 2,6 milhões eleitores. É pouco. Mas você não está vendo o movimento de Flávio Bolsonaro e nem de Lula aqui dentro. Eu entrevistei os três candidatos em uma rede de rádio: Natasha, Pivetta e o Wellington Fagundes. 

 

A Natasha não citou nenhuma vez o nome do Lula. O Pivetta não citou nenhuma vez o nome do Flávio Bolsonaro. E o Wellington Fagundes citou duas vezes. A eleição nacional não está refletindo aqui, a polarização aqui praticamente não existe, porque o teto de voto do PT sempre foi baixo.

 

MidiaNews – Esse teto do PT em Mato Grosso foi sempre em torno de 30%?

 

Yasmin Silva/MidiaNews

O analista Onofre Ribeiro que apontou baixo percentual de votação do PT em Mato Grosso: “Média de 30%”

Onofre Ribeiro – É, 30%. Já chegou a 35%. Você tem três ou quatro pessoas com relevância dentro do partido e que já não se renova há anos. 

 

A gente está vivendo o caos, mas eu gosto do caos. Porque é do caos que vem a ordem. E é uma ordem efetivamente importante. O Brasil vai mudar para melhor. Só que não no ano que vem, só depois de três ou quatro anos. Na realidade, espero que o Brasil mude mesmo de 2030 em diante. 

 

MidiaNews – O deputado Júlio Campos tem falado em algumas entrevistas sobre uma eleição morna, a respeito dessa percepção de rua: os candidatos não têm ido mais para a rua. Qual é a sua percepção? 

 

Onofre Ribeiro – Primeiro o descrédito e depois a incapacidade do político de entender a linguagem do povo. A linguagem do povo mudou. Eu tenho um bisneto de 15 anos que se chama Mateus, e para conversar com ele tenho muita dificuldade. E nós nos damos bem para caramba. A gente se abraça, se beija, mas não consigo conversar com o Mateus. Porque a linguagem que ele fala é como ele percebe as coisas. Assim está o eleitor. O eleitor percebe um mundo que os políticos não dão conta de conversar. Então o Júlio Campos está certo.

 

MidiaNews – Mas falta o quê? Abraçar o povo, tomar um café para entender?

 

Onofre Ribeiro – É o fim do modelo político. O Júlio Campos começou fazendo campanha em cima de caminhões, falantes, comícios, showísticos, abraçando as pessoas na rua. Hoje ele não pode mais fazer isso. 

 

As pessoas não querem o abraço dos políticos, porque não confiam na política. Então os políticos têm vergonha de irem para a rua. A rede social é uma solução.

 

 

MidiaNews – Mas isso é pregar para convertido, não?

 

Onofre Ribeiro – Antigamente tinha uma figura chamada cabo eleitoral, que fazia o relacionamento nas pontas com as pessoas. Dava um dinheirinho, um santinho, prometia algo em nome do candidato. Não existe mais cabo eleitoral, porque o morador do bairro não acredita mais, porque ele não acredita no candidato, na política.

 

A política, como a conhecemos e como funcionou até agora, não funciona mais. O político está com dificuldade de falar com as pessoas, porque não sabe o que as pessoas querem. Esta campanha não produziu pesquisas qualitativas, só quantitativas. Por quê? Porque são outsiders, cada um quer saber de si. Ninguém quer saber do contexto. Ninguém conhece o eleitor.

 

As mídias sociais, muito mais do que a penetração que trouxeram, trouxeram também linguagens novas. O vocabulário das pessoas mudou. O político não sabe mais namorar a sociedade. Ele usa as redes sociais e os marqueteiros usam a linguagem… Mas o candidato mesmo é um dinossauro.

 

MidiaNews – E perde um pouco essa autenticidade quando se entra essa figura de marqueteiro?

 

Onofre Ribeiro – Os candidatos eram muito bons de discurso. Quando falava num comício, as pessoas se encantavam. Hoje, ele não tem mais comício, nem discurso. Como o problema de hoje do político é a sociedade, não compreender a linguagem da sociedade, quem fala a linguagem para ele é o marqueteiro. E marqueteiro não lida com gente. Marqueteiro nunca teve voto. O papel dele não é esse. O político está falando a linguagem do marqueteiro: fria e distante.

 

MidiaNews – Para o senhor quem ganha as eleições hoje é quem tem o melhor marketing?

 

Onofre Ribeiro – É o melhor marketing, que tem a melhor linguagem de convencimento. A comunicação do candidato com o eleitor tem que ser na base da linguagem. É linguagem, linguagem, linguagem. 

 

A linguagem está muito nova. Um homem de 50 anos não fala com uma turma de eleitores de 20 anos. A linguagem, o palavreado, e o modo de enxergar a vida são outros. 

 

O político tradicional quer transmitir a experiência dele. E as gerações novas estão querendo construir as suas experiências. Do nada, você pede demissão, bota a mochila nas costas e vai viajar. A nova geração está buscando experiências. Já o político, não, diz: “Eu quero governar com a minha experiência”. Olha a linguagem. Não só a linguagem de falar, mas a linguagem de pensar.

 

 

MidiaNews – Voltando um pouco sobre a questão do marketing, gostaria de entender onde fica o papel dos debates, onde os candidatos atuam sem os marqueteiros. Hoje, acha que eles não são mais relevantes? 

 

Onofre Ribeiro – Não são relevantes. Você citou o nome do Júlio Campos. E eu conheci, vi muitas vezes, o Júlio em debates. É um gigante! Aí, ele vai num debate orientado pelo marqueteiro, que está preocupado com o público, com o eleitor. E o marqueteiro sugere: não fala isso, não fala aquilo, fala assim, não usa essa palavra.

 

E o candidato vai completamente engessado e amedrontado para o debate, e o que ele fala não é relevante mais, porque ele não é mais um gigante, é um robô. O marqueteiro é que deveria ser o candidato.

 

MidiaNews – Está destruindo essa autonomia?

 

Yasmin Silva/MidiaNews

“Eu nunca vi uma eleição tão pobre em pesquisas qualitativas”, disse analista

Onofre Ribeiro – Destruiu. Você tirou a capacidade do político de falar com o eleitor. Os políticos brasileiros sempre foram formadores de opinião. Hoje, eles não compreendem mais a opinião pública. Como é que ele forma opinião? Não forma.

 

MidiaNews – Em especial nas eleições municipais de 2024, os institutos de pesquisa caíram em descrédito. Hoje, a gente está diante de fotografias confiáveis do eleitorado ou de uma disputa de narrativas impostas por levantamentos?

 

Onofre Ribeiro – Eu nunca vi uma eleição tão pobre em pesquisas qualitativas. O que é que a pesquisa qualitativa mostra? Ela mostra o retrato de como a sociedade pensa sobre um determinado tema. Quando uma indústria de automóveis vai lançar um veículo novo, faz pesquisa primeiro. Qual é o comportamento das pessoas? É mais público feminino? Mais masculino? É mais jovem? 

 

A pesquisa dá um direcionamento, porque ela dá o exato modo de pensar das pessoas. Esta eleição é paupérrima de pesquisas qualitativas.

 

MidiaNews – Mas por falta de interesse ou de recurso? Porque uma pesquisa dessa também é mais cara?

 

Onofre Ribeiro – Não é falta de recurso, não. Falta de condições de conhecer a sociedade. De interesse. Os políticos têm medo de conhecer a sociedade. Preferem repetir a fórmula antiga. E estão apostando que a rede social é a salvação. E a rede social, caímos no problema do marqueteiro. 

 

O marqueteiro que acaba sendo o verdadeiro candidato. No lugar do candidato registrado por questão de linguagem. Chegou a tal ponto a política, que eles não conhecem mais o pensamento da sociedade, porque não há pesquisas qualitativas.

 

MidiaNews – E essas quantitativas, como está avaliando elas? Hoje a gente tem um cenário ao Governo e Senado bem parecido com o da pré-campanha. Ainda temos pouco mais de 20 dias para a eleição, acha que ainda tem tempo para mudar esse cenário? 

 

Os candidatos não estão levando em conta a percepção do eleitor. Os candidatos não estão trabalhando

Onofre Ribeiro – O que penso é que a urna é a verdadeira pesquisa mesmo. E o eleitor não é mais fiel, seja ao candidato ou partido. Ele não é mais fiel a ninguém. 

 

As pesquisas na eleição de 2022 para presidente, se você se lembra, os institutos todos erraram. E nesta eleição, está embolado o Senado. Nós temos seis candidatos. Está embolado. De repente, pode ter aí uma surpresa como o Galvan, que tem uma personalidade explosiva. De repente ser mais votado, ou não ser votado. Não é o tempo que falta que vai fazer mudar. É o que o eleitor está percebendo.

 

Eu percebo que os candidatos não estão levando em conta a percepção do eleitor. O que é percepção? É a linguagem sutil, de comportamento. Os candidatos não estão trabalhando. Estão trabalhando com o discurso do marqueteiro. E o marqueteiro não está trabalhando com a percepção. Então, a percepção das pessoas é que vai dizer na boca da urna e vai mudar o voto.

 

 

MidiaNews – Mas qual a percepção que o senhor vê no eleitorado e que não está sendo absorvido pelos principais candidatos?

 

Onofre Ribeiro – A primeira percepção é de que haverá segundo turno para governador. E no segundo turno é outra eleição, é outra realidade e Deus sabe o que pode acontecer. É em um prazo muito curto para se refazer a campanha e fazer um discurso novo. Nesse ambiente de caos, você não sabe. Pode acontecer qualquer coisa.

 

Para o Senado, os seis candidatos são de boa representação. Todos. Você não tem ninguém que veio do acaso, todos são conhecidos e têm experiência política, mas estão na dependência do humor do eleitor que, nesses 15 dias que faltam, pode mudar a qualquer minuto.

 

MidiaNews – Não dá para fazer uma aposta sobre esse humor?

 

Onofre Ribeiro – Eu não aposto. Eu aposto em quem eu vou votar. Mas não aposto em ninguém para o Senado. Ninguém!

 

MidiaNews – Acha que a gente pode ter o que teve na eleição do Dante, quando saiu derrotado ao Senado de surpresa? 

 

Onofre Ribeiro – Em 2002 era outro mundo. O Dante era um gigante. Era um gigante e perdeu assim, inesperadamente. Já nos últimos dias, ele percebeu que estava difícil, mas ainda dava para ganhar. Não ganhou. E o eleitor, naquele tempo, não tinha a bronca que tem da política agora. A bronca contra a política é muito grande. Especialmente a pecha de corrupção. 

 

Isso está muito presente na vida do político e as pessoas estão muito chateadas quando chegam no supermercado. Ela fica muito amargurada, porque o salário não está dando para cobrir o mês. A inflação, o aumento de custos da comida… Quando o eleitor chegar à urna, isso está guardado aqui dentro, com muita raiva. 

 

MidiaNews – Acha que essa questão da escala trabalhista 6 por 1 pode ser determinante?

 

Onofre Ribeiro – O 6 por 1 não, porque o eleitor está com medo de perder o emprego.

 

MidiaNews – Na verdade, é a questão do alimento e de quanto o meu salário vale de fato, então?

 

Onofre Ribeiro – Essa quantidade de empresas nacionais, como Casas Bahia, que fecharam 298 lojas, dos grandes bancos que fecharam agências, da Magazine Luiza, está muito complicado… Lojas de varejo estão fechando. As ruas estão cheias de alugas e vende-se. As lojas dos shoppings estão fechadas. E um grande número de empresas imensas em recuperação judicial, isso traz o fantasma do emprego e para a pessoa só resta o Bolsa Família, que são só R$ 600, e com esse dinheiro não se vive.

 

Nós estamos falando agora em desesperança. Desesperança vem de desespero. E o desespero e a desesperança vão chegar à urna dessa eleição. Por isso que eu disse no começo, esta não é uma eleição normal. É uma eleição divisora de água do Brasil velho para o Brasil novo, que vai ter que mudar através do caos.

 

MidiaNews – Pode fazer uma análise das dificuldades que as três principais candidaturas ao Governo podem enfrentar nesse início de reta final de campanha? 

 

Onofre Ribeiro – Vamos começar pelo governador Otaviano Pivetta. Muito ligado ao setor econômico, muito ligado à economia e a economia não é mais a única solução do País. Hoje, é preciso colocar o social na frente da política. Eu vejo dificuldade dele nisso.

 

O Wellington Fagundes é político demais. E a política, é um voo na ventania, vai para qualquer lado. 

 

A Natasha é de fato uma outsider. Ela apareceu, tentou ser senadora há algum tempo, não conseguiu. Ela é um ponto de equilíbrio, mas não para ganhar. Porque ela tem uma personalidade mais amadurecida para esse tempo novo, se ela estivesse em outra posição, faria um estrago muito grande.

 

MidiaNews – E o senhor já falou que para Senado não arrisca apostar.

 

Onofre Ribeiro – Não.

 

MidiaNews – Mas e para governo, em quem aposta? 

 

Onofre Ribeiro – Eu aposto que por diferença pequena, o Pivetta vai ganhar. Em Mato Grosso, o único que perdeu reeleição foi o Pedro Taques. A gente não pode esquecer que você e eu estamos pensando pela cabeça de moradores da Capital. A capital tem 480 mil eleitores, tem outros 2 milhões e 300 mil eleitores espalhados por esse Estado. Extremamente conservadores. Eles vão ficar com o governo.

 

MidiaNews – Mas, por que que o Wellington Fagundes teria essa queda? Ele que vem aparecendo em primeiro nas pesquisas desde a pré-campanha. Esse perfil político demais?

 

Onofre Ribeiro – Perfil político demais.

 

MidiaNews – E o que é isso?

 

Onofre Ribeiro – O político vive dentro de uma bolha. E o Wellington Fagundes é de uma geração assim. Ele vive numa bolha, tem uma velha opinião formada sobre tudo. Tem dificuldade para mudar. Eu tenho impressão que o marqueteiro do Wellington Fagundes deve ter brigas homéricas, por que o Wellington é político. Político, político! 

 

E tem que se considerar uma coisa: ele foi candidato a governador uma vez e duas vezes a prefeitura de Rondonópolis e perdeu todas. O perfil dele não é de Executivo, é de Legislativo. E ele é um legislador trabalhador. Dentro da visão dele, que é emendas parlamentares e coisas assim. É político demais. Eu acho que o eleitor vai chegar na urna com a barriga vazia e vai olhar a culpa dos políticos.

 

Assista:

 

 

FONTE: MIDIA NEWS

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